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33 - 22/03/2004: A Paixão de Cristo e o anti-semitismo
01/04/2004

Amigos do Cinema em Cena;

ao longo dos últimos 15 dias, desde que publiquei minha análise sobre A Paixão de Cristo, venho observando o tom cada vez mais virulento das mensagens publicadas por diversos leitores naquele espaço. O que começou como um questionamento sadio sobre minha interpretação do filme acabou transformando-se em ataques violentos não apenas a mim (o que, de certa forma, eu já esperava) mas também em palco de discussões raivosas entre leitores de diversas religiões.

``Procurando ofender-me com adjetivos como `doente`, `infiel`, `cretino` e `ateu` (embora tenha afirmado acreditar em Deus), alguns destes leitores parecem ter interpretado minhas argumentações sobre determinados aspectos do filme como um cruel ataque ao Catolicismo em si. Um dos usuários do site chegou a concluir (não sei como) que, ao apontar os elementos anti-semitas do longa, eu estivesse acusando a própria Igreja de pregar o preconceito – o que não poderia estar mais longe da verdade. Curiosamente, estes leitores parecem ter encarado A Paixão de Cristo como uma experiência religiosa a ser venerada e defendida contra os `ataques imorais dos infiéis`. Pois permitam-me lembra-lhes de algo: A Paixão de Cristo é um filme, uma produção cinematográfica. E, citando o que o brilhante dramaturgo, roteirista e cineasta David Mamet escreveu em um artigo recente, `o local correto para a devoção religiosa é a Igreja ou o Templo, e não o cinema. E comungar com o divino, seja através do Kiddush dos judeus ou da Eucaristia dos católicos, é algo a ser feito com o pão e o vinho tradicionais, e não com pipoca e Coca-Cola`.

Ainda assim, devo reconhecer que cometi um erro ao subestimar a importância que os católicos conferem à morte de Cristo. Em minha crítica, argumentei que `com tantas mensagens relevantes e belas existentes na história de Jesus Cristo, Gibson optou por se concentrar justamente em uma que ignora totalmente a compaixão e o amor`. Continuo acreditando que a vida de Jesus oferece passagens muito mais inspiradoras e dignas de admiração do que sua crucificação; porém, percebo agora que a morte do Messias representa, para os cristãos, o ponto alto de sua existência (não é à toa que eles adotam a figura de Jesus na cruz como símbolo de sua Fé). Como não-católico, não consigo compreender o conceito de `morreu para pagar por nossos pecados` – mas como tampouco acredito no tal Pecado Original, devo deixar esta questão de lado e reconhecer que, afinal de contas, a mensagem do filme não foi dirigida a mim, mas àqueles que compartilham da fé de Mel Gibson (embora muitos não percebam que o cineasta tem seu modo particular de enxergar a Igreja, como discutirei mais adiante). Afinal de contas, uma das frases utilizadas para promover o filme prega que `Morrer foi sua razão de viver`.

``Desta maneira, é possível compreender a forte emoção provocada nos fiéis pela dramatização sangrenta que Gibson faz da Paixão de Cristo – e, até certo ponto, a frustração que estes sentem quando o filme é questionado: `Cristo sofreu daquele jeito e ainda vem um sujeito criticá-lo?`. Ora, o longa é realmente capaz de provocar impacto: como disse em minha análise, Mel Gibson é um diretor competente e sabe como utilizar os recursos técnicos a seu favor (observem como a trilha de John Debney alcança tons grandiosos nos momentos dramáticos perfeitos, como no instante em que parte da carne de Jesus é arrancada pela peça de metal que se encontra na ponta do chicote). Porém, não podemos permitir que a emoção nos cegue para a razão. Admirar o sacrifício de Jesus é uma coisa; ignorar os perigosos subtextos acrescentados por Gibson é outra completamente diferente.

Pois o fato é que Mel Gibson não é um `profeta` ou sequer um sacerdote – e seu trabalho não é algo sagrado. E, como todo autor, o cineasta acrescenta, sim, sua visão particular ao filme. Acreditar que, ao dirigir A Paixão de Cristo, ele estivesse realizando uma `tarefa para Deus` é uma ingenuidade inadmissível. Pior: é ignorar os interesses financeiros que movem o diretor – e duvido que alguém realmente interessado em pregar a palavra de Deus sem interesses velados fosse capaz de promover a venda de objetos como `os pregos com que Jesus foi crucificado`, `chaveiros com os pregos do filme` (itens publicitários de extrema vulgaridade, devo dizer) ou mesmo `canecas com inscrições em aramaico`. (Caso você se interesse em adquirir tais produtos, clique aqui. Mas devo dizer que seria mais cristão se você utilizasse o dinheiro para realizar uma doação a quem realmente precisa. Acredite: Gibson já tem bastante dinheiro).

``Outra questão discutida no fórum da crítica, aliás, diz respeito à minha afirmação sobre o caráter do cineasta. Um leitor chegou a perguntar por que, ao escrever sobre O Pianista, não discuti a condenação de Roman Polanski por estupro, há cerca de 30 anos. A resposta é simples: não era relevante para a discussão. O Pianista gira em torno de um homem que procura sobreviver à perseguição nazista durante a Segunda Guerra, e não de um sujeito que violenta jovens indefesas. Da mesma forma, quando escrevi sobre Teoria da Conspiração, Do Que as Mulheres Gostam e O Patriota, não julguei necessário discutir as particularidades do caráter de Mel Gibson (que são públicas e notórias há vários anos, diga-se de passagem). Confesso que, ao escrever sobre Sinais, senti-me tentado a abordar a ortodoxia da fé do ator, mas novamente percebi que seria irrelevante para a discussão.

Porém, com A Paixão de Cristo é diferente, já que, para início de conversa, Gibson bancou o projeto com seu próprio dinheiro, provando que o tema lhe era caro (com o perdão do trocadilho). E, ao discutir o anti-semitismo do filme, é extremamente pertinente que avaliemos, em primeiro lugar, se seu autor poderia ser classificado como anti-semita. (Eu jamais cogitaria a possibilidade de que Steven Spielberg, por exemplo, fosse capaz de dirigir um trabalho anti-semita, por motivos óbvios). Então vejamos:

  1. Gibson é um católico extremamente ortodoxo, chegando a rejeitar todas as modificações implementadas pelo Concílio Vaticano II – o qual foi recentemente descrito pelo Papa João Paulo II como `uma dádiva do Espírito à sua Igreja`. (Os católicos talvez tenham interesse em saber que Gibson – e seu pai, Hutter – já se referiram ao atual Papa como `canalha` e `traidor`, o que não é algo muito cristão.)
  2. Uma das principais conseqüências do Concílio Vaticano II (que, repito, a família Gibson condena) foi a rejeição da afirmação de que os judeus seriam responsáveis pela morte de Jesus.
  3. Em várias entrevistas, Hutter Gibson afirmou que o Holocausto foi uma `farsa criada pelos judeus para inspirar a simpatia do mundo por suas crenças` – ignorando, neste processo, todas as evidências históricas das atrocidades cometidas por Hitler e seus capangas. É claro que Mel Gibson não pode ser julgado pelas imbecilidades do pai – e nem deve ser obrigado a reconhecer que este é um lunático. Porém, ao ser questionado sobre as declarações de Hutter, ele sequer disse algo como `Ele tem direito de pensar o que quiser – o que não significa que eu compartilhe suas idéias`. Em vez disso, Mel declarou: `Meu pai nunca mentiu para mim`. A implicação é clara.
  4. Quando perguntaram se ele admitia a existência do Holocausto, Mel Gibson respondeu: `Acredito que muitos indivíduos morreram durante a Guerra; alguns deles, judeus`. Novamente a implicação é óbvia.

``Ou seja: é ao menos razoável acreditar que Mel Gibson é, sim, anti-semita – ou que, no mínimo, ele não tem muita simpatia pelos judeus, a quem culpa pela morte de Jesus.

Dito isso, voltemos ao filme. Em minha crítica, apontei alguns elementos importantes que, em minha interpretação, indicavam uma clara mensagem anti-semita. Porém, como muitos leitores ainda não aceitam tal análise, resolvi fundamentar o raciocínio um pouco mais – não com a esperança de que alguém mude de idéia (uma característica inerente aos fundamentalistas religiosos é jamais voltar atrás em suas opiniões), mas sim com o objetivo de evitar alegações de que estou sendo `parcial` ou `tendencioso`. Assim sendo, peço que considerem:

  1. A `absolvição` dos romanos e a `turba` de judeus – Como já disse em minha análise anterior, o simples fato de apontar o papel dos altos sacerdotes judeus na morte de Jesus não transforma A Paixão de Cristo em um filme anti-semita; afinal, isto é algo descrito na Bíblia. O problema reside na absolvição dos romanos por Gibson, que chega ao ponto de retratar o historicamente carniceiro Pôncio Pilatos como um homem ponderado e que hesita ao máximo em condenar Cristo. Ora, ao retirar qualquer culpa que os romanos pudessem ter no incidente, o filme automaticamente salienta a responsabilidade dos judeus, retornando à concepção anti-semita pré-Concílio Vaticano II. Da mesma forma, Gibson mostra Cristo sendo humilhado e agredido não apenas pelos altos sacerdotes, mas por uma multidão de judeus (ao que parece, toda a população de Jerusalém), ao mesmo tempo em que se concentra em retratar o arrependimento de vários legionários romanos.
  2. Mateus 27:25 – Depois de ser pressionado por diversos setores da sociedade americana (incluindo associações católicas), Gibson afirmou que iria retirar, do filme, o versículo 25 do capítulo 27 do Evangelho de Mateus: `E, respondendo todo o povo, disse: O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos` – uma frase que, durante quase dois milênios, serviu de base para a perseguição aos judeus. Porém, logo descobriu-se que a fala foi mantida no filme, e que o diretor retirou apenas a legenda. Ora, isso indica uma desonestidade flagrante de Gibson, além de demonstrar a importância que ele atribui ao versículo em questão.
  3. João 19:11 – Depois de tentar salvar Jesus, Pilatos é reconfortado pelo Messias, que lhe diz: `Aquele que me entregou a ti maior pecado tem` – uma frase citada apenas no Evangelho de João. Mais uma vez, vemos Mel Gibson, co-autor do roteiro, pinçando de cada Evangelho as partes que mais lhe interessam (neste caso, uma condenação divina do papel exercido pelos judeus).
  4. Barrabás – Outra tentativa de Pilatos diz respeito à oferta que este faz aos judeus, que se vêm diante da opção de libertarem Jesus ou Barrabás. E é aí que Mel Gibson, com extrema sutileza, ressalta a `crueldade` dos judeus, que preferem libertar um criminoso confesso. Observem que Barrabás é retratado em A Paixão de Cristo como um sujeito repulsivo, uma verdadeira caricatura do `psicopata`, de um assassino que irá matar novamente assim que tiver a oportunidade de fazê-lo. O simples fato de transformar Barrabás em um ser humano absolutamente nojento realça, por contraste, o absurdo da condenação de Jesus pelos judeus. O problema é que Barrabás é descrito por muitos historiadores como um `preso político` – e a própria Bíblia esclarece que ele foi preso por `sedição` (Lucas 23:19), durante a qual matara alguém (Marcos 15:7). Algo, convenhamos, bem diferente do psicopata visto no filme
  5. Satanás entre os judeus – Ao longo de A Paixão de Cristo, Satanás (interpretado pela atriz Rosalinda Celentano) é visto diversas vezes por Jesus, provocando-o, tentando-o. Coincidência ou não, o fato é que o personagem (excetuando-se a seqüência inicial, no jardim de Getsêmane) é sempre visto caminhando em meio aos judeus: primeiro, entre os altos sacerdotes; e, mais tarde, entre a multidão que humilha o Messias. Mais uma vez, há pouco espaço para interpretações alternativas que não à `satanização` do povo judeu.
  6. A fotografia – Logo no início do filme, Jesus é visto sob o azul divino de Getsêmane, enquanto os sacerdotes judeus aparecem sob a luz avermelhada, infernal, dos archotes de seu templo – um tema recorrente ao longo da projeção.
  7. A `liberdade artística` de certas seqüências – Como crítico de cinema, compreendo perfeitamente a necessidade que certos cineastas têm de alterar ou mesmo `enfeitar` fatos históricos (embora nem sempre concorde com tais modificações). Porém, durante diversas entrevistas de divulgação, Mel Gibson declarou que A Paixão de Cristo é extremamente fiel às Escrituras, e que tudo o que está no filme é verídico. Infelizmente, não é bem assim: em primeiro lugar, Jesus é pregado na cruz pelas mãos, o que é um erro grotesco (neste caso, Scorsese acertou: em A Última Tentação de Cristo, os pregos atravessam os pulsos do personagem). Além disso, não há relato algum de que os soldados judeus, responsáveis pela prisão de Cristo, o tenham atirado de uma ponte e, em seguida, o puxado de volta por suas correntes. Esta é uma seqüência que saiu exclusivamente da imaginação de Gibson – e, surpresa!, é utilizada para ilustrar a crueldade com que Jesus foi tratado por seus carrascos judeus.
  8. A má-fé na divulgação – Durante os meses que antecederam o lançamento do longa nos cinemas, a equipe de Mel Gibson exibiu o trabalho apenas para entidades claramente ligadas aos setores mais tradicionais da Igreja Católica nos Estados Unidos, impedindo que qualquer crítico ou religioso judeu tivesse acesso ao filme. Além disso, eles chegaram a divulgar a informação de que o Papa João Paulo II havia assistido ao longa-metragem e o aprovado – algo que o porta-voz do Vaticano logo se encarregou de desmentir publicamente.

``Aproveito, ainda, para questionar a decisão de se lançar A Paixão de Cristo nos cinemas brasileiros com a censura 14 anos – e não em função de seu subtexto anti-semita, mas sim devido à violência absurda com que Gibson dirigiu seu filme. Em países como Canadá e Inglaterra, o longa foi proibido para menores de 18 anos, enquanto Nova Zelândia e Holanda adotaram a censura 16 anos (nos Estados Unidos, é desaconselhável para menores de 17 anos). Na realidade, o Brasil foi o país que conferiu a classificação mais leve ao filme, o que é inexplicável. Caso o protagonista desta produção não fosse Jesus Cristo, sou capaz de apostar que nenhum menor de 18 anos seria admitido nas salas brasileiras. E querem saber? O protagonista não é mesmo Jesus, mas o ator Jim Caviezel – algo que nossas `autoridades` parecem não ter percebido.

``Para finalizar, quero indicar aos leitores católicos um filme absolutamente maravilhoso que retrata a vida de Jesus com fidelidade e que, além da Paixão, inclui as passagens mais belas da Bíblia: O Evangelho Segundo São Mateus, dirigido por Pier Paolo Pasolini em 1964 e considerado pelo Vaticano como um dos 100 Melhores Filmes da História do Cinema (ao lado de A Lista de Schindler, Nosferatu e Gandhi, num indício claro de que a Igreja Católica é infinitamente mais tolerante do que muitos de seus seguidores). Mesmo retratando o papel dos sacerdotes judeus na morte de Jesus e incluindo o tal versículo 25:27, Pasolini jamais permite que seu trabalho transmita uma mensagem preconceituosa – ao reencenar o `julgamento` de Cristo pelos sacerdotes e por Pilatos, o cineasta mantém sua câmera distanciada da ação, em meio à multidão, esclarecendo que aquele absurdo foi obra de poucos homens, e não de todo um povo.

``

 

Chega a ser irônico: o ateu, marxista e homossexual Pasolini foi capaz de compreender algo que o devoto e `puro` Mel Gibson falhou em perceber: a morte de Cristo é apenas um pequeno ato de uma história repleta de belas mensagens. E o próprio Vaticano reconhece este fato.

Espero que, desta vez, tenha deixado minhas objeções com relação ao trabalho de Gibson mais claras. E torço para que mesmo os mais fundamentalistas percebam que, ao criticar A Paixão de Cristo - o filme -, não estou tentando atacar sua Fé ou sua Igreja. Aliás, como poderia, já que estou justamente defendendo, mesmo sem ser católico, os preceitos advogados pelo Vaticano e a relevância das mensagens de amor deixadas por Jesus ao longo de sua vida?

Um grande abraço e bons filmes!
``

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