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44 - 15/07/2006: A Maldição das Estrelinhas e da `Imparcialidade`
15/07/2006

Amigos do Cinema em Cena,

 

é sempre a mesma coisa: basta estrear uma superprodução, normalmente precedida por uma gigantesca campanha de marketing, para que eu comece a antecipar problemas. Caso goste do filme, ótimo, pois me tornarei um herói para aqueles que também o aprovaram (aqueles que não gostaram geralmente não se manifestam, não sei por quê); porém, quando termina a sessão para a crítica e percebo que serei obrigado a escrever um artigo negativo, sempre olho para o Renato, co-editor do Cinema em Cena, e digo: “Lá vem chumbo na minha direção”.

 

Nunca falha – e é sempre possível saber, com antecedência, qual será a posição da maior parte dos espectadores: basta acompanhar a publicidade que precede o lançamento. No caso de X-Men 3, o diretor Brett Ratner já estava sendo atacado por todos no primeiro dia de filmagem e, portanto, era fácil prever que muitos já iriam ao cinema esperando detestar a continuação. Já Bryan Singer, queridinho da mídia e de parte da crítica, obviamente teria uma recepção infinitamente mais favorável – algo que já podia ser percebido quando anunciou sua participação em Superman – O Retorno.

 

Percebam que não estou dizendo que todos aqueles que gostaram do novo Superman ou detestaram o último X-Men foram influenciados pela cobertura que estes projetos tiveram por parte da imprensa especializada; no entanto, é inevitável reconhecer que o primeiro foi lançado num ambiente muito mais receptivo que o segundo. Isto é fato.

 

Assim, quando publiquei minha crítica sobre Superman – O Retorno, já sabia que receberia respostas hostis. Faz parte da profissão e acontece sempre: em um momento, sou inimigo declarado da Igreja Católica (acusação feita quando escrevi sobre A Paixão de Cristo); em outro, já sou um membro fundamentalista da mesma, pertencendo ao Opus Dei (alegação feita por alguns leitores quando falei sobre O Código Da Vinci). Desta vez, disseram que eu era “fanático” pelo Superman original e que por isto não apreciara a nova produção (apenas porque dei 5 estrelas para o filme de Richard Donner, isto não me torna um “fanático”. Ou vocês acham que sou “fanático” por todo longa para o qual dou cotação máxima?) – e chegaram a inventar que eu dissera, em meu curso na Escola Livre de Cinema, que era contra a realização de Superman – O Retorno.

 

Na maior parte do tempo, aceito este tipo de reação com naturalidade. Depois de 12 anos como crítico, você acaba desenvolvendo uma espécie de couraça natural contra este tipo de ataque. Porém, ao ler, pela enésima vez, alguns argumentos que sempre surgem nestas ocasiões, julguei que seria conveniente fazer certos esclarecimentos. Desta maneira, aqueles que quiserem se revoltar contra críticas futuras poderão, ao menos, usar frases mais originais, em vez de voltarem aos mesmos pontos de hábito.

 

ESTRELINHAS: A MALDIÇÃO DA CRÍTICA

Como Pablo pôde dar 2 estrelas para Mulher-Gato e para Superman – O Retorno? Como ele se atreve a comparar os dois filmes???

 

Resposta: não me atrevo. É claro que, narrativa e artisticamente, Superman – O Retorno é muito superior a Mulher-Gato. Caso eu fosse obrigado a escolher entre um dos dois para levar para uma ilha deserta, levaria... bom, Mulher-Gato, mas apenas porque meus dias de isolamento seriam mais agradáveis olhando para Halle Berry em roupas apertadas do que para um sujeito com cueca por cima da calça de lycra. No entanto, eu teria plena consciência de ter escolhido o pior filme. Ao dar 2 estrelas para ambas as produções, não estou fazendo comparações (a não ser que deixe isto claro no texto), mas apenas atribuindo cotações que não se relacionam umas com as outras.

 

Para ser sincero, eu tenho verdadeiro pavor das tais estrelinhas. São redutivas, ofensivas à arte, arbitrárias e levam a conclusões equivocadas. As escalas podem variar de 1 a 5, de 0 a 10, de 1 a 100, não interessa: sempre serão simplistas, inadequadas à função que deveriam exercer. E é simplesmente impossível estabelecer uma correlação lógica e justa entre as cotações atribuídas a filmes diferentes.

 

Exemplo: para mim, não há longa melhor do que a trilogia O Poderoso Chefão (que considero um único filme com 9 horas de duração). Assim, ele receberia um 5 em minha escala. Pois bem: por mais que ame obras como Cidadão Kane, Fogo Contra Fogo, Cabra Marcado para Morrer (meu longa brasileiro favorito) ou Rashômon, eles teriam que receber uma nota “4”, já que não dou “meio ponto”. E aí, o que vem em seguida? Gosto muito de O Homem-Aranha 2 e Débi e Lóide, mas não os colocaria no mesmo “patamar” daqueles citados anteriormente – portanto, receberiam um “3”. Você certamente já percebeu o que quero dizer: chegaria um momento no qual teria que dar nota “1” para algum filme que apreciei – e nem consigo imaginar que classificação receberiam as coisas que Rob Schneider costuma fazer: 150 negativos?

 

Aliás, se há algo que considero “arbitrário” em minhas críticas são as cotações. Qual é a diferença entre uma obra 5 e 4 estrelas? Ou entre 1 e 2 estrelas? Sempre que revejo algum filme sobre o qual escrevi, faço questão de reler minha crítica – e, até hoje, nunca pensei: “Puxa, como falei besteira. Mudei completamente de idéia!”. No entanto, eu mudei cotações, de 4 para 5, de 5 para 4, de 2 para 3, e assim por diante.

 

Por que, então, manter as malditas estrelinhas? Simples: porque são um mal necessário. Há muitos leitores que querem ter uma breve idéia de minha reação ao filme, mas que não pretendem ler o texto inteiro – podem estar com pressa, podem preferir ler a crítica depois de assistirem ao filme ou podem, simplesmente, não ter paciência para uma análise de 1000 palavras sobre um longa-metragem. As estrelinhas são, portanto, voltadas para estes leitores.

 

O que recomendo? Leia o texto e ignore as estrelas. Se você julgar que o que escrevi se traduziria em uma cotação “3 estrelas”, e não 2, tudo bem, sua opinião neste sentido estará tão correta quanto a minha – talvez eu mesmo atribuísse as mesmas 3 estrelas caso o texto fosse de outra pessoa.

 

A “IMPARCIALIDADE”

Outra acusação freqüente por parte de leitores insatisfeitos é a de que não fui “imparcial” ao escrever sobre determinado filme. O que posso dizer em minha defesa? Absolutamente nada. Aliás, assumo que sou “culpado”. Nunca fui e jamais pretendo ser “imparcial”. Tenho uma opinião clara sobre todo filme que vejo – e é minha obrigação profissional manifestar esta opinião de maneira ostensiva, óbvia para o leitor. Para ser “imparcial”, eu teria que resumir meus textos a listas de “prós” e “contras” – e me certificar de estar listando o mesmo número de itens em cada coluna.

 

Não é esta, a função do bom crítico.

 

Como já discuti em um artigo escrito em 2001, o bom crítico deve sempre embasar suas opiniões. Dizer simplesmente que um filme é “bom”, “chato” ou “interessante” não tem valor algum – e o mesmo se aplica a dizer coisas como “a fotografia é bacana” ou “os cenários são feios”. É preciso explicar, exemplificar e desenvolver cada afirmação: por que o filme é chato? Por que a fotografia merece elogios? Por que a direção de arte não funciona? Só assim o bom crítico permitirá que seus leitores avaliem sua opinião e, então, cheguem às suas próprias conclusões, concordando ou não com o que leram.

 

A boa crítica deve funcionar, portanto, como iniciadora de discussões construtivas. E, para que isto ocorra, a posição do crítico deve ser clara para o leitor. O único texto “imparcial” é aquele que não se decide sobre nada, que permanece em cima do muro, que tenta agradar a todos. Este tipo de texto pode até ser diplomático, mas não serve para absolutamente nada.

 

Em minha última Conversa de Cinéfilo, abracei publicamente minha subjetividade. Abraço, agora, minha “parcialidade” – seja lá o que isto significa.

 

NÃO ASSISTA AO FILME!!!

É comum, também, que críticas negativas inspirem respostas do tipo: “Não escutem o Pablo! Assistam a este filme!!!” – como se eu estivesse defendendo um verdadeiro boicote à obra analisada. Ora, a única vez, nestes 12 anos de profissão, em que “pedi” para os leitores não irem ao cinema foi ao escrever sobre Van Helsing – e, mesmo assim, num tom claríssimo de brincadeira.

 

Em meu texto “Para que serve o crítico, afinal?”, escrevi:

 

Particularmente, acredito que o leitor deve assistir, sempre que possível, a todos os filmes em cartaz – mesmo aqueles sobre os quais não tenho opiniões favoráveis.

 

Mantenho esta posição. Portanto, quando “ataco” alguma produção, não estou recomendando um boicote à mesma. Como disse mais acima, acredito que a função da crítica é iniciar discussões – e isto só é possível se o leitor também tiver visto o filme analisado. E aqueles que buscam nas críticas apenas a confirmação de suas próprias impressões, simplesmente não compreenderam a função destes textos.

 

Desde que o Cinema em Cena foi criado, em 1997, sempre procuramos criar inúmeras formas do leitor deixar suas opiniões sobre tudo o que escrevemos. Há fóruns na seção de Notícias e abaixo de cada crítica e Conversa de Cinéfilo – além do nosso grande Fórum que funciona “independentemente” do site, da nossa lista de discussão e, é claro, de nosso espaço no Orkut. Isto quer dizer que somos uma Comunidade. Ao contrário de outros sites, queremos pensar o Cinema, não apenas “divulgá-lo”. Se não quiséssemos estimular discussões, não teríamos tantos espaços para isto.

 

E acreditem: apesar da brincadeira que abre este texto, sobre minha apreensão acerca do “chumbo” a ser disparado pelos usuários, sou o primeiro a comemorar quando um de meus textos dá início a uma discussão proveitosa entre leitores (ou seja: desde que não descambem para ofensas pessoais ou ataques à minha ética profissional). Com o passar das décadas, nos tornamos espectadores passivos, que aceitam tudo que é atirado em sua direção sem qualquer tipo de questionamento. Quanto maior for o número de pessoas dispostas a debater o Cinema e os filmes, melhor: aumentam as probabilidades de que, num futuro não muito distante, nos tornemos sofisticados o bastante a ponto de obrigarmos os produtores a seguirem o mesmo caminho.

 

Um grande abraço e bons filmes (e boas discussões)!

 

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