Poster: Velozes & Furiosos 7

 

 

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Banner: Velozes & Furiosos 7

Datas de Estréia: Notas:
Brasil Exterior Crítico Assinante Distribuidora
02/04/2015 03/04/2015
Universal

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Dirigido por James Wan. Roteiro de Chris Morgan. Com: Vin Diesel, Paul Walker, Michelle Rodriguez, Tyrese Gibson, Ludacris, Dwayne Johnson, Jason Statham, Jornada Brewster, Nathalie Emmanuel, Elsa Pataky, Tony Jaa, Djimon Hounsou e Kurt Russell.

“Carros não podem voar.”, diz Brian O’Conner (Walker) para seu filho pequeno logo no início de Velozes e Furiosos 7 – uma afirmação que o filme tenta provar ser falsa várias vezes durante seus 137 minutos de projeção numa brincadeira surpreendentemente sutil em um projeto que não reconheceria a palavra “sutileza” mesmo que esta aparecesse tatuada nas dezenas de bundas femininas que atravessam a tela a todo instante. Abraçando a mediocridade de seu roteiro sem qualquer embaraço, esta continuação ainda assim diverte moderadamente ao conceber sequências de ação que, situadas na fronteira entre o absurdo e a estupidez, provocam mais riso do que admiração – uma reação que, surpreendentemente, parece mesmo ter sido a intenção do diretor James Wan e de seu elenco.

Recheado de elementos novelescos como personagens que perderam a memória (que retorna gradualmente em flashbacks recortados), irmãos vingativos de vilões mortos em episódios anteriores e gestações mantidas em segredo, o roteiro escrito por Chris Morgan é cara-de-pau a ponto de tentar incluir mensagens de cunho feminista em uma narrativa que traz mulheres de biquíni lavando carros em meio à multidão, outras se banhando com trajes brancos (ou seja: transparentes) com o único propósito de divertir os machos ao redor e ainda mais algumas cujos rostos jamais vimos, já que a câmera se detém apenas em suas bundas expostas – e, assim, quando duas garotas surgem dançando seminuas em uma festa enquanto exibem os corpos pintados de dourado, não é preciso ser particularmente inteligente para perceber que já se converteram quase literalmente em troféus a serem exibidos pelo bilionário que promove o evento. Já a trama em si é uma colagem de lutas, perseguições e explosões construídas em torno de um programa/dispositivo (o filme não parece diferenciar entre os dois) capaz de monitorar qualquer câmera do planeta e que deve ser recuperado para que os heróis possam encontrar e matar o vilão que... insiste em segui-los por todos os lados a fim de matá-los.

Ou seja: em vez de arriscarem a vida pelo tal dispositivo, bastava que os heróis olhassem para trás.

Não que ver Jason Statham surgindo subitamente em todos os lugares não seja divertido, pois é – e igualmente bacana é perceber como Kurt Russell, aos 64 anos, mantém o mesmo ar blasé de herói que se sabe invencível que exibia há mais de 30 anos. Além disso, é inegável que o elenco encabeçado por Vin Diesel construiu, ao longo da série, uma química indiscutível, parecendo realmente apreciar a presença uns dos outros. Ainda assim, é impossível não pensar na morte precoce e trágica de Paul Walker sempre que este surge em cena – especialmente considerando as circunstâncias em que morreu e o que seu personagem faz basicamente o tempo todo durante a história. Não é à toa, portanto, que Velozes 7 termina com um tributo escancarado ao ator, quando a narração de Vin Diesel nem tenta soar como a de seu personagem, assumindo-se como uma despedida dirigida de um ator a outro.

A característica que permite fazer esta distinção entre personagem e ator, aliás, é a linguagem empregada, já que aparentemente os habitantes do mundo criado aqui se comunicam por um dialeto chamado frase-de-efeitês – um idioma recheado de termos como “Showtime!”, “Let’s do this” e “One last ride”. Além disso, os homens e mulheres vistos aqui tampouco são humanos: uma colisão frontal entre dois carros em alta velocidade resulta em uma leve dor de pescoço (eliminada com um inclinar de cabeça que provoca sonoros estalos), capotar desfiladeiro abaixo é uma estratégia considerada razoável para se escapar de inimigos e levar um soco que, pelo som, seria capaz de derrubar um elefante é algo que sequer provoca uma leve hemorragia.

Essa indestrutibilidade, porém, é essencial para que a produção possa construir sequências de ação que resultariam na morte dos personagens já nos primeiros segundos caso estes fossem feitos de carne-e-osso – e ainda bem que não são, pois assim não poderíamos ver carros saltando de um arranha-céu a outro, um escritório aparentemente todo feito de vidro sendo demolido com as cabeças de dois combatentes, motoristas saltando de aviões dentro de seus automóveis e, claro, aquele momento que traz uma solução absurda (e hilária em sua absurdice) para o dilema que encerra o clássico Um Golpe à Italiana (“Hang on, lads; I’ve got a great idea.”).

Dirigida por James Wan (mais conhecido por obras de terror como Jogos Mortais e Invocação do Mal), esta continuação é ao mesmo tempo bem e mal sucedida em seu aspecto-chave: ação. Se há instantes como aqueles que mencionei acima e que realmente empolgam, há vários outros nos quais Wan demonstra absoluta incapacidade de orquestrar uma luta sem empregar tantos cortes e movimentos de câmera que mal conseguimos compreendemos o que está ocorrendo (desperdiçando, no processo, um dos melhores nomes do gênero: Tony Jaa). Para piorar, Wan parece acreditar ser necessário sempre manter sua câmera em movimento – mesmo quando estamos vendo apenas duas pessoas falando ao telefone -, exibindo também uma profunda incompreensão acerca da linguagem 3D (basta dizer que ele já faz um rack focus, recurso incompatível com o 3D, no primeiro plano do filme).

Mas como não gostar de um filme que em 2015 ainda traz uma hacker invadindo um sistema enquanto uma barra de progresso mostra o estágio da ação? E se acha isso absurdo, é porque não testemunhou o instante em que um(a) personagem interrompe as manobras de ressuscitação empregadas no(a) amado(a) a fim de tentar convencer a pessoa a voltar à vida.

Se a estratégia dá certo ou não, não pretendo revelar – mas é suficiente para despertar o riso e simpatia por uma franquia que, honestamente, já saiu tantas vezes da pista que é uma surpresa quando consegue dar uma volta completa sem grandes desastres.

02 de Abril de 2015

 

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