Críticas por Pablo Villaça

Poster: A Despedida
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
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A Despedida
A Despedida

A Despedida

Dirigido por Marcelo Galvão. Roteiro de Marcelo Galvão. Com: Nelson Xavier, Juliana Paes, Amélia Bittencourt, Tereza Pfiffer, Deto Montenegro, Nill Marcondes, Rafael Souza, Rafael Valente, Luma Vidal, Ithamar Lembo, Vinicius Ferreira, Osvaldo Mendes.

Nenhum ator em país algum fará algo mais lindo, em 2014, do que o que o nosso veterano Nelson Xavier faz apenas nos primeiros 15 minutos de A Despedida, escrito e dirigido por Marcelo Galvão a partir de uma história pessoal envolvendo seu tio. Trata-se de uma sequência de vulnerabilidade e força, doçura e tristeza, que me levou às lágrimas antes que o filme houvesse chegado à metade de seu primeiro ato.

Acompanhando o despertar do Almirante (Xavier), um idoso de 94 anos, estes primeiros minutos de projeção levam o espectador a experimentar sua fragilidade já através do belo design de som, que, com seus ruídos abafados e quase ininteligíveis, ilustram sua audição comprometida enquanto ele faz um esforço descomunal apenas para se erguer da cama. Sorrindo, satisfeito, ao perceber que sua fralda geriátrica amanheceu seca – uma pequena vitória em um cotidiano de indignidades -, o Almirante dá início a um ritual que executamos sem maiores considerações, mas que para ele representa uma série de desafios: caminhar até o banheiro, escovar os dentes, tomar banho e se vestir (um processo que basicamente consiste em se retorcer até que a cueca, a calça e as meias subam, quase como se se rendessem, até as posições apropriadas).

Assim, basta testemunharmos estas ações para que constatemos como, para o Almirante, acordar é um ato de persistência em si, posto que todos os seus dias já iniciam doídos a partir do instante em que abre os olhos. Neste sentido, claro, a performance de Xavier é fundamental: seu tremor constante (é mais fácil girar a cabeça do que movimentar as mãos ao escovar os dentes), seus passos lentos e sofridos, sua respiração carregada e mesmo seus pequenos sorrisos a cada vitória transformam o ator, ainda jovial aos 73 anos, em um idoso que parece prestes a se partir em pedaços – e é preciso reconhecer a sensibilidade com que o diretor Marcelo Galvão constrói cada trecho de sua jornada matinal e a maneira lógica, calculada, mas orgânica com que o montador Rodrigo Menecucci articula a sequência.

Funcionando como um estudo de personagem, mas também como um breve tratado sobre a velhice e suas indignidades (e a determinação para superá-las), A Despedida é também hábil ao sugerir, depois desta introdução, o que move o protagonista, que, ao colocar uma foto sua ainda jovem na carteira, revela ao espectador que é assim que se enxerga, mesmo ciente de que sua mente ativa encontra-se amarrada a um corpo de vidro. Não é à toa, aliás, que em certo momento o Almirante diz que “se a aparência explicasse a essência, o sabor não seria necessário” – uma máxima que usa para descrever as mulheres, mas que se aplicaria perfeitamente a ele próprio, já que o velhinho para quem atravessar uma rua é tão desafiador quanto cruzar o Canal da Mancha encontra-se ainda lúcido e – pior – tragicamente consciente de sua decadência biológica.

Encontrando pessoas surpreendentemente generosas ao longo das 24 horas de sua vida que o filme retrata, o Almirante jamais permite que a narrativa se torne depressiva (embora eu pareça ter sugerido o oposto nos parágrafos acima). Dono de um senso de humor admirável e, sim, de uma alegria capaz de contagiar, ele origina conversas frequentemente divertidas que tornam o longa ainda mais emocionante justamente por nos levar a perceber a natureza doce do protagonista, que, contudo, não é retratado como um santo, já que o roteiro sugere incidentes em seu passado nos quais feriu pessoas próximas de maneira egoísta e imperdoável (e o fato de jamais descobrirmos exatamente o que ocorreu torna estes acontecimentos ainda mais poderosos).

No entanto, se em seus dois primeiros atos A Despedida se apresentara como uma obra memorável, é mesmo em seu terço final que surpreende o espectador com a entrada da personagem de Juliana Paes (sobre a qual evitarei falar muito para não estragar qualquer surpresa), que não apenas surge como uma figura multidimensional como ainda nos apresenta a facetas do Almirante até então inimagináveis – e Marcelo Galvão demonstra imensa inteligência ao permitir que vejamos as reações de Paes enquanto o protagonista encontra-se em outro aposento, já que isto deixa clara a sinceridade de seus sentimentos e intenções (e, mais uma vez, ao apenas sugerir a história entre eles sem esclarecer exatamente as circunstâncias que a compõem, o filme ganha força através do que se mantém em segredo).

Igualando-se em emoção à sequência inicial, este ato derradeiro de A Despedida comprova algo que meu mestre Roger Ebert costumava dizer (e, aliás, como me lembrei de sua fragilidade física e de sua força intelectual ao ver esta obra): a generosidade é capaz de tocar muito mais o público do que o sofrimento. Assim, não me surpreendi ao me entregar a lágrimas súbitas ao testemunhar um pequeno gesto da personagem de Paes, que, simplesmente por pendurar uma toalha, demonstra uma grandeza de caráter e um carinho pelo Almirante que explica por que ele parece rejuvenescer ao lado da moça. E, seguindo esta lógica, quando vemos num plano-detalhe três objetos que ele deixa sobre um banco, percebemos o simbolismo contido ali e que resgata a juventude que ele oferece em sentimentos à garota, o tempo que os torna impraticáveis e o portão que ela representou para que ele revivesse um pouco o passado.

Mas, mesmo com as inúmeras virtudes de A Despedida (o vermelho que compõe o quarto de Fátima é um toque particularmente inspirado), é mesmo a imagem de Nelson Xavier que permanece tatuada em nossas mentes após o filme e que ilustra a generosidade absoluta de um ator que se rasga e se expõe completamente para retratar nossa própria fragilidade através de sua força e coragem artísticas.

Enquanto assistia a A Despedida, lembrei-me constantemente do que me tornou um apaixonado pela Arte em geral e pelo Cinema em específico: a capacidade que este tem de, no escuro de uma sala de exibição, me levar a confrontar minha própria humanidade. Em 90 minutos, esta obra-prima de Marcelo Galvão me destruiu.

Mas também me reconstruiu como uma pessoa melhor.

08 de Agosto de 2014

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.