Críticas por Pablo Villaça

Poster: Apollo 18 - A Missão Proibida
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
02/09/2011 Unknown
Distribuidora

Direção

Gonzalo López-Gallego

Elenco

Warren Christie , Lloyd Owen

Roteiro

Brian Miller

Produção

Michele Wolkoff

Fotografia

José David Montero

Música

Harry Cohen

Montagem

Patrick Lussier

Design de Produção

Andrew Neskoromny

Figurino

Cynthia Ann Summers , Kate Main , Beverley Wowchuk

Direção de Arte

Peter Bodnarus

 

 


Apollo 18 - A Missão Proibida
Apollo 18

Apollo 18 - A Missão Proibida

Dirigido por Gonzalo López-Gallego. Com: Warren Christie, Lloyd Owen.

(Aviso: este texto foi encontrado sob uma pedra no meio do deserto de Atacama. Ao seu lado, havia apenas um cantil contendo cinco pedras – duas brancas e três pretas -, um cartão com a palavra “Dharma” e uma camisinha usada. Incluímos aqui a reprodução de uma das páginas originais, que traziam, como assinatura, apenas as iniciais “GLG”.)

Estou no fim de minhas forças. Há cinco dias caminho sem rumo e, nas últimas horas, creio ter começado a ter alucinações. Há pouco, pelo canto dos olhos, percebi um movimento súbito e, ao me virar, vi um garotinho loiro usando uma espécie de sobretudo azul. Quando pisquei, ele sumiu – mas não antes de dizer que seu nome era “Justin Bieber”.

Provavelmente não me resta muito tempo. Indivíduos poderosos estão à minha procura e logo me encontrarão. Tudo porque achei que seria um exercício divertido criar uma farsa que, seguindo a estrutura de longas conhecidos como A Bruxa de Blair, Atividade Paranormal, REC e Cloverfield, contasse uma história supostamente real envolvendo uma conspiração. Imaginei que o público, já tendo visto tantos produtos similares, imediatamente identificaria a farsa e seria capaz até mesmo de antecipar como a narrativa acabaria, já que todos aqueles projetos chegam ao fim exatamente da mesma maneira. Faltando originalidade à estrutura e à história, acreditei estar protegido.

Deus, como eu estava enganado! Como pude subestimar o grau de influência de (ilegível) como (nome removido) e (nome removido) ou mesmo o alcance de seus informantes? E pensar que tudo começou de maneira inocente quando, certa manhã, um roteirista que se apresentava como Brian Miller bateu em minha porta enquanto eu... (página faltando) ... de quatro e usando uma coleira. Que visão!

Mas divago. E não deveria fazê-lo, pois sinto a aspereza da mucosa desidratada de minha garganta alertando-me para o fim que se aproxima. Devo manter a concentração e concluir este relato antes que seja tarde.

A ideia de Miller era divertidinha: contar a história da malfadada missão envolvendo a viagem da Apollo 18 à Lua. Claro que nunca houve uma missão Apollo 18, mas aí é que estaria a graça: poderíamos criar a narrativa a partir de imagens supostamente encontradas sei-lá-onde (Miller nunca resolveu este furo, mas acreditamos que os espectadores não se importariam) e que revelavam as descobertas de dois astronautas no solo lunar, desde inesperados elementos humanos até possíveis traços alienígenas. Como nunca havia dirigido nada longe de minha Espanha natal, julguei que seria uma boa maneira de entrar no mercado hollywoodiano.

(A propósito: digam a Almodóvar que pague a aposta à minha mãe; consegui primeiro. Aquele presunçoso.)

Para alcançar o efeito realista que buscávamos, rodei o filme simulando bitolas compatíveis com a história – especialmente o Super 8 e 16mm, sacrificando minha vontade de rodar algo em 2.35:1 pela necessidade de usar uma razão de aspecto menor (o que, por sua vez, trouxe a vantagem de deixar a narrativa mais claustrofóbica). Da mesma forma, brincamos bastante com o design de som, usando ecos, cortes súbitos de falas e grunhidos e rangidos distantes no lugar de uma trilha convencional. Acho que nos saímos bem neste aspecto. Tá, aqui e ali eu exagerei: pensando bem, não faz sentido simular a película saindo de lugar no projetor, mas... bom, não resisti. E mesmo que oscilar o foco tenha sido uma decisão também natural, talvez eu não devesse ter investido tanto na fragmentação dos movimentos dos personagens – pode até sugerir problemas no “vídeo”, mas é repetitivo e atrapalha o estabelecimento da tensão, mais incomodando do que contribuindo para o suspense. Tsc. Eu deveria ter pensando nisso.  

(Estou congelando. Como a temperatura pode oscilar desta maneira no deserto? E por que achei que seria uma boa ideia me esconder no meio da areia? Bem que Marisol me dizia que minha obsessão com Lawrence da Arábia acabaria me custando caro.

Preciso de água.)

Apollo 18 foi o nome que demos ao filme. Óbvio, mas objetivo. Tenho orgulho de algumas de minhas decisões como diretor. Acho interessante, por exemplo, como criei certos quadros mais abertos e estáticos que permitem que o espectador investigue sozinho os menores movimentos que surgem aqui e ali – e me arrependo de, em alguns deles, ter incluído zooms artificiais que expõem o que está acontecendo, duvidando da inteligência do público de descobrir por si só. E sei que as duas sequências envolvendo um astronauta disparando flashes que revelam o ambiente gradualmente acabaram sendo repetitivas, além de claramente se inspirarem em vários outros filmes, mas, em minha defesa, digo que elas funcionam para criar tensão. Aliás, também tenho orgulho da montagem de Patrick Lussier, que conferiu lógica ao caos de planos desconexos e conseguiu até mesmo criar momentos elegantes como aquele que contrapõe o silêncio da nave que orbita a Lua e o caos barulhento dos dois astronautas se debatendo em uma pequena cápsula.

E os atores... sim, são eficientes. A relação estabelecida entre eles funciona bem – e acho interessante como invertemos a dinâmica gradualmente, colocando o novato vivido por Warren Christie no controle (estabelecendo-o aos poucos como nosso protagonista) e levando o experiente astronauta interpretado por Lloyd Owen a tornar-se um risco para a missão. Além disso, há pequenos momentos humanos na projeção que tornam tudo mais verossímil, como o instante em que Christie bate a cabeça no teto e diz “Toda vez”, levando o espectador a imaginar as várias horas que ele passou naquele espaço confinado em treinamento e na própria missão.

Mas é um roteiro tolo, reconheço. Previsível. Absurdo. E, no final das contas, até mesmo os dois personagens principais se tornam apenas caricaturas de homens descontrolados e em perigo, abandonando qualquer tentativa de tridimensionalidade (e envergonho-me particularmente das sequências de flashback que buscam humanizá-los. Maldito Miller.). Porém, meu maior arrependimento reside na tola e ofensiva tentativa de fazer parecer que tudo é real – desde a campanha de marketing até a inclusão de letreiros finais que informam explicações “oficiais” para os eventos e mesmo um site sobre a conspiração. Soa pretensioso e, acima de tudo, bobo. Não sei o que me passou pela cabeça. Não sei. Simplesmente não sei. Se os executivos da Dimension – ah, os Weinstein! – não tivessem insistido tanto, eu talvez pudesse...

Oh, Deus. Ruídos distantes. Será que...

Não, não, não.

Luzes. Luzes se aproximando rapidamente.

Não me resta muito tempo. Eles me encontraram. Como eu poderia imaginar que nossa ficção colidiria com uma realidade há muito oculta?

Como eu poderia saber que eles queriam guardar este título para uma futura continuação de uma série derivada de Rocky e estrelada por Carl Weathers?

Talvez se eu dissesse a eles q

GLG

01 de Setembro de 2011

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apollo18

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.