Críticas por Pablo Villaça

Poster: Valente
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
20/07/2012 Unknown
Distribuidora
Disney

 

 


Valente
Brave

Valente

Dirigido por Mark Andrews, Brenda Chapman, Steve Purcell. Com as vozes de Kelly Macdonald, Billy Connolly, Emma Thompson, Craig Ferguson, Julie Walters, Robbie Coltrane, Kevin McKidd, John Ratzenberger.

Depois de Carros 2, o primeiro grande tropeço de sua incrível carreira, a Pixar infelizmente parece estar enfrentando dificuldades para se reencontrar como força criativa. Sim, Valente é obviamente superior ao seu patético antecessor, mas, depois de uma introdução envolvente e promissora, o longa rapidamente perde o fôlego e expõe suas fragilidades – entre estas, a falta de estrutura que denuncia se tratar de um filme em busca de uma história. Considerando também que o projeto conta com uma protagonista com imenso potencial, a decepção se torna ainda maior pela oportunidade desperdiçada.

Escrito a oito mãos pelos também diretores Mark Andrews, Steve Purcell e Brenda Chapman ao lado de Irene Mecchi, o roteiro começa a acompanhar a destemida princesa Merida (Macdonald) ainda na infância, quando, no dia de seu aniversário, ganha um arco do pai, o gigantesco rei Fergus (Connolly) – algo visto com reprovação pela rainha Elinor (Thompson), que se dedica a transformar a filha em uma “dama”. Anos depois, a já crescida (e bela) Merida se revela uma criatura apaixonada pela liberdade e por aventuras arriscadas, fugindo do estereótipo de princesa delicada que sua mãe busca construir. No entanto, quando descobre que sua mão será ofertada em casamento a um dos três nada atraentes pretendentes que batalharão pela honra em uma disputa esportiva, a garota decide entrar na competição, levando a consequências potencialmente desastrosas. Já farta, Merida finalmente pede a uma bruxa que interfira na questão, levando sua mãe a se transformar em um urso e complicando ainda mais a situação.

E aí está o grande problema de Valente: embora a metamorfose da rainha seja obviamente o conflito principal da história, este só é introduzido quando a narrativa já se encontra na metade – e o fato de o roteiro levar mais de 40 minutos (de um total de 93) para chegar à principal reviravolta comprova o descuido da Pixar ao conceber a trama. Além disso, o projeto enfrenta problemas claros de ritmo antes e depois da transformação: antes, por gastar tempo demais para chegar a esta; depois, por não saber como conduzir a história a partir da mudança. Assim, o filme se concentra principalmente em gags físicas que se resumem a mostrar a rainha-urso esbarrando em objetos, tropeçando, aprendendo a pescar e a lidar com seu tamanho descomunal, jogando fora a oportunidade de continuar a desenvolver a trajetória emocional da protagonista. Como se não bastasse, o longa raramente consegue extrair humor dos três irmãozinhos de Merida embora claramente aposte nestes como fonte de piadas, perdendo tempo ainda com números musicais pouco imaginativos que aproximam Valente ainda mais dos clichês das animações Disney, o que, vindo do estúdio de John Lasseter, é decepcionante.

Estes, no entanto, são apenas alguns dos problemas do roteiro, que, para tornar a história maior e justificar o tempo de projeção, ainda atira na narrativa uma lenda antiga sobre os antepassados do reino que poderia ser descartada sem qualquer prejuízo, usando-a ainda para apresentar uma tentativa de vilão que jamais diz a que veio. Aliás, cientes de que precisam de alguma fonte de tensão, os realizadores usam o velho recurso do “prazo final para que tudo se resolva”, criando uma linha de tempo arbitrária que obrigue Merida e a mãe a acertar suas diferenças o mais rapidamente possível (e, de fato, este entendimento surge brusco e artificial, mais como uma exigência do roteiro do que como algo orgânico entre as personagens). Se somarmos a isso as frasezinhas de efeito sobre como “o destino nos encontra” e outras do gênero, fica fácil perceber que Valente pouco honra as discussões temáticas ambiciosas de obras como Wall-E, Ratatouille ou Toy Story 3.

O que, claro, me traz ao parágrafo obrigatório sobre a habilidade técnica da Pixar e a riqueza com a qual o estúdio constrói seus magníficos cenários, desde os interiores amplos e evocativos do castelo do rei Fergus até o colossal pedestal rochoso ao pé de uma gigantesca cachoeira, passando pelas ruínas acinzentadas descobertas por Merida e pela bela floresta visitada pela princesa e pela rainha. Isto, porém, já é algo que esperamos naturalmente de uma produção da Pixar e, mesmo que mereça elogios, o espantoso seria se os artistas da empresa falhassem nestes quesitos. Da mesma maneira, o próprio design de Merida é fabuloso, com seus cabelos soltos e intensamente vermelhos cujos cachos parecem se mover individualmente enquanto funcionam como um símbolo óbvio de sua vitalidade (e é curioso notar, também, como a bruxa encontrada pela garota é claramente inspirada pelas criações de Hayao Miyazaki, ídolo e amigo de Lasseter). Assim, é uma pena que os óculos 3D tornem o filme tão escuro, prejudicando aquilo que Valente tem de melhor: suas cores intensas.

Ou melhor: talvez esta vivacidade do design de produção seja apenas o segundo melhor elemento do projeto, perdendo apenas para a personalidade independente, forte e corajosa de Merida, que surge em Valente como um exemplo positivo para as jovens espectadoras tão habituadas a ver personagens femininas sendo constantemente resgatadas por/dependentes de príncipes, nobres cavaleiros ou aventureiros de barba por fazer. E é justamente por criarem uma figura feminina tão admirável que os realizadores de Valente merecem um cascudo ao sugerirem que a solução para seu dilema reside num ato tão intimamente associado à domesticação da mulher: a costura (independentemente do que ocorre posteriormente).

Ainda assim, mesmo criando uma ótima protagonista (a primeira da história do estúdio, que sempre contou histórias centradas em personagens masculinos), a Pixar parece estar se aproximando perigosamente da fórmula Disney de contar histórias – e aqui não só temos a Princesa, como também seu animalzinho companheiro de aventuras, o velho dilema do “siga seu coração” e os já mencionados números musicais. Sim, se compararmos Valente às outras animações do ano, o filme soa como uma obra-prima – mas considerando que seus competidores foram os desastrosos Era do Gelo 4, Madagascar 3 e Piratas Pirados!, esta é uma consolação rasa demais para funcionar de verdade.

Observação: O curta La Luna, que antecede Valente, é uma experiência conceitual interessante, mas só. Soa mais como caça-Oscar do que como um projeto nascido da vontade real de se contar aquela história em particular.

Observação 2: Há uma cena adicional após os créditos finais.

17 de Julho de 2012

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.