Críticas por Pablo Villaça

Poster: Atividade Paranormal
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
04/12/2009 Unknown
Distribuidora

Direção

Oren Peli

Elenco

Katie Featherston , Micah Sloat , Mark Fredrichs , Ashley Palmer

Roteiro

Oren Peli

Produção

Oren Peli

Fotografia

Oren Peli

Montagem

Oren Peli

Figurino

Oren Peli

 

 


Atividade Paranormal
Paranormal Activity

Atividade Paranormal

Dirigido por Oren Peli. Com: Katie Featherston, Micah Sloat, Mark Fredrichs, Ashley Palmer.

Não há nada mais poderoso e aterrador do que a imaginação do espectador. Caso receba o empurrão necessário, o público será capaz de mergulhar de maneira intensa em seus próprios temores, passando a roer as unhas não em função do que está na tela, mas do que poderia estar – algo que Spielberg explorou com brilhantismo em Tubarão e Ridley Scott, em Alien, o Oitavo Passageiro. E é esta estratégia narrativa que faz de Atividade Paranormal um exemplar incrivelmente bem sucedido do gênero terror, já que, sem sentir a necessidade de bombardear a platéia com efeitos visuais e sonoros o tempo inteiro, o filme investe no silêncio e na sutileza para contar sua historinha simples, trocando os sustos corriqueiros por um constante e palpável estado de absoluta tensão.

Adotando a câmera subjetiva como recurso narrativo (exatamente como A Bruxa de Blair e Cloverfield), o longa escrito e dirigido por Oren Peli tem início com uma breve declaração de agradecimento da Paramount, distribuidora do filme, às famílias do casal de protagonistas e à polícia de San Diego – algo que, somado ao fato dos atores emprestarem seus nomes aos personagens, busca repetir o que os diretores Daniel Myrick e Eduardo Sánchez fizeram em 99 ao conferirem certa autenticidade a Blair, transformando-o num fenômeno que muitos julgaram documental. Assim, usando “imagens de arquivo”, Atividade Paranormal retrata alguns dias da vida de Katie (Featherston) e Micah (Sloat), que, morando juntos há pouco tempo, passam a testemunhar incidentes de origem supostamente sobrenatural em sua nova casa. Assustada por já ter passado por aquilo na infância, Katie insiste em contatar um médium (Fredrichs), que explica para a moça – e para o público – que esta é vítima da perseguição de um demônio determinado a destruí-la.

Com a idéia de Micah de registrar em vídeo tudo o que ocorre para que possam compreender a natureza daquilo com que estão lidando, o longa assume a natureza de documentário e, assim, a estética adotada por Peli é a de um filme caseiro: logo no início, por exemplo, a câmera repousa sobre um bancada enquanto o casal conversa despreocupadamente  - e não só suas cabeças ficam fora de quadro como o cineasta distorce as marcas de suas roupas como se buscasse evitar problemas legais provocados pela exibição não intencional das grifes usadas por aquelas pessoas em seu dia-a-dia. Além disso, Peli (que também montou e produziu o projeto) emprega os cortes secos para criar elipses nas discussões dos personagens, criando a impressão de ter eliminado as partes irrelevantes gravadas pelo amador Micah – quando na realidade os atores seguiam, claro, um roteiro pré-estabelecido. O resultado é o estabelecimento de uma narrativa que soa realista e, conseqüentemente, mais assustadora ao exibir elementos típicos de um filme de terror.

Aliás, o roteiro de Peli é eficiente justamente ao construir a tensão gradualmente, enfocando incidentes que se tornam cada vez mais graves e inexplicáveis: se no início ficamos apenas curiosos com barulhos ouvidos à distância e com objetos que surgem em lugares diferentes daqueles nos quais se encontravam, aos poucos vamos percebendo que as intervenções do tal “demônio” estão se tornando piores – e o filme ganha realmente vida quando Micah decide deixar a câmera ligada em seu quarto durante toda a noite para monitorar o que ocorre quando Katie e ele se encontram adormecidos. Com isso, a vulnerabilidade absoluta dos personagens durante aquelas horas é testemunhada pelo público – e os sons mais leves e os movimentos mais sutis ganham contornos realmente amedrontadores.

Encarnando Micah como um jovem inteligente e cético que inicialmente enxerga tudo aquilo com olhos divertidos apenas para lentamente perceber a seriedade da situação, o estreante Sloat é usado pelo roteiro como uma eficiente muleta para deixar o público ainda mais apreensivo graças à sua insistência em provocar a criatura que está enfrentando (e na qual não acredita), ao passo que a também novata Katie Featherston se sai admiravelmente bem ao retratar o pânico crescente de uma garota que já passou por sustos suficientes para saber que o companheiro está brincando com fogo.  Por outro lado, Atividade Paranormal se enfraquece por não justificar o isolamento auto-imposto do casal: por que, por exemplo, eles não mostram para os amigos ou para outros especialistas as fitas que claramente exibem incidentes inexplicáveis? E por que eles demoram tanto tempo para finalmente tentarem fazer algo a respeito das ameaças? Além disso, por mais que o roteiro tente justificar a permanência do casal no imóvel através da explicação de que o demônio os perseguiria mesmo que saíssem dali, é impossível acreditar que alguém naquela situação não tentaria se afastar do perigo (especialmente porque tomam a decisão de permanecer apenas graças ao palpite de um médium no qual Micah pouco confia).

Ainda assim, o longa cumpre aquilo que se propõe a fazer e o espectador permanece sempre tenso em função da antecipação do que poderá ocorrer a seguir – e neste sentido é forçoso reconhecer que o desfecho soa como um terrível anti-clímax, já que, além de abrupto, soa como o único instante realmente “hollywoodiano” (leia-se: convencional, clichê) da narrativa. Para piorar, o plano final (que não revelarei, obviamente) ainda quebra as regras estabelecidas pelo roteiro ao trazer uma imagem que torna impossível uma explicação racional para os incidentes – o que desafia os contidos letreiros iniciais e finais da produção. Mas a esta altura já estamos preocupados demais em buscar um cirurgião que recupere as pontas dos dedos roídas de nervosismo para que nos importemos com detalhes como este.

Observação: Se normalmente incluo aqui informações sobre cenas adicionais que surgem após os créditos, desta vez observo apenas que o filme não conta com créditos iniciais ou finais, numa decisão corajosa (e nada egocêntrica) do diretor, que prefere investir na farsa do documentário e não na divulgação do próprio nome.

03 de Dezembro de 2009

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.