Críticas por Pablo Villaça

Poster: Bravura Indômita
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
11/02/2011 Unknown
Distribuidora
Paramount Pictures

 

 

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Bravura Indômita
True Grit

Bravura Indômita

Dirigido por Joel e Ethan Coen. Com: Hailee Steinfeld, Jeff Bridges, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper, Darkin Matthews, Paul Rae, Domhnall Gleeson, Elizabeth Marvel e a voz de J.K. Simmons.

Em 1969, John Wayne venceu o único Oscar de sua carreira ao interpretar o velho e gordo oficial federal/caçador de recompensas Rooster Cogburn, num prêmio obviamente concedido como tributo à sua filmografia e à sua disposição em rir da própria imagem construída ao longo de décadas – a única explicação para que sua composição caricatural tenha tomado a estatueta de Dustin Hoffman por Perdidos na Noite. Aliás, o Bravura Indômita comandado pelo prolífico Henry Hathaway trazia uma coleção de estereótipos no lugar dos personagens, funcionando principalmente graças à ótima atuação de Kim Darby como Mattie Ross, mas jamais conseguindo se estabelecer como um clássico do gênero. Assim, não é surpresa que os fabulosos irmãos Coen tenham realizado, nesta releitura do livro de Charles Portis, uma obra superior ao longa de 69; o que é surpreendente é que os diretores tenham, talvez pela primeira vez em suas carreiras, adotado uma abordagem direta e convencional ao comandarem o filme, deixando de lado o velho (e fascinante) hábito de buscarem subverter o gênero no qual estavam trabalhando.

Não que este novo Bravura Indômita saia perdendo por isto: remetendo aos westerns clássicos ao mesmo tempo em que exibe a sensibilidade e o apuro visual típicos dos Coen, o longa se coloca à vontade ao lado de outras obras-primas da dupla como Barton Fink, O Homem que Não Estava Lá, Onde os Fracos Não Têm Vez e Um Homem Sério, impressionando também graças à (que novidade) soberba fotografia de Roger Deakins, parceiro habitual dos cineastas. Responsáveis também pelo roteiro, Ethan e Joel Coen contam, desta vez, a história de Mattie (Steinfeld), uma jovem de 14 anos de idade que, determinada a vingar a morte do pai, assassinado pelo imprestável Tom Chaney (Brolin), contrata o caçador de recompensas Rooster Cogburn (Bridges) para rastrear e prender o sujeito – que também está sendo perseguido pelo texano LaBoeuf (Damon).

Divertindo-se com a ambigüidade moral dos personagens, os Coen retratam aquele universo (o “velho oeste” norte-americano) como um lugar povoado por criaturas que não se definem facilmente entre o “bem” e o “mal”: embora Rooster seja um agente da Lei, foi perseguido por assaltos no passado, enquanto o pistoleiro Ned Pepper (Pepper), ainda que violento, busca honrar a palavra mesmo em circunstâncias difíceis no terceiro ato. Não é à toa, aliás, que Mattie decide contratar Rooster justamente ao ser informada de que este tende a agir com violência excessiva, demonstrando compreender ser este o perfil necessário de um (anti-)herói em uma época na qual enforcamentos eram espetáculos públicos e cadáveres eram vendidos pelas estradas do país. Mesmo assim, não deixa de ser intrigante que o vilão Chaney seja encarnado por Josh Brolin como um homem inseguro e com imenso complexo de inferioridade que insiste em se ver como vítima do mundo, destoando completamente da imagem de matador frio e calculista que os relatos de seus crimes poderiam evocar no espectador.

As performances vistas em Bravura Indômita, aliás, são homogêneas em sua eficiência: transformando Rooster em um alcoólatra cuja dicção embolada pela bebida se converte num espetáculo à parte, Jeff Bridges consegue a proeza de converter aquele personagem absurdo numa figura tridimensional e sempre verossímil. Bruto num momento e atencioso no seguinte, o oficial esconde, sob a aparência decadente (reparem em sua respiração sempre pesada e na instabilidade de seus movimentos), uma energia surpreendente que transforma num erro fatal a tendência de seus oponentes de subestimá-lo. Matt Damon, por sua vez, vive o ranger LaBoeuf como um sujeito orgulhoso do distintivo e dono de um vocabulário extenso que, ainda assim, é constantemente deixado sem palavras pelas tiradas dos companheiros.

Mas a protagonista inquestionável de Bravura Indômita é mesmo a jovem Hailee Steinfeld, que transforma Mattie em uma garota madura e pragmática que, mesmo entristecida pela morte do pai, não hesita em questionar o preço cobrado pelo agente funerário assim que entra em seu estabelecimento. Hábil ao evocar a inteligência da menina e sua habilidade de negociar com indivíduos supostamente bem mais experientes (reparem no discreto sorriso que ela exibe ao perceber que o dono do estábulo cedeu às suas exigências), Steinfeld estabelece uma dinâmica fascinante com os personagens de Bridges e Damon, que parecem representar lados diferentes de sua personalidade: enquanto o primeiro surge como a natureza impiedosa e vingativa da menina, o segundo evoca sua inteligência e determinação, sendo natural que ela se comporte de maneiras distintas em suas interações com cada um deles. Além disso, Rooster não demora a assumir, aos olhos de Mattie, a condição de segundo pai – algo que os Coen ressaltam de maneira brilhante através de planos gêmeos que exibem objetos similares sendo empurrados para dentro de um vagão de trem no primeiro e no terceiro atos da projeção. Para finalizar, os figurinos concebidos por Mary Zophres para Mattie se revelam brilhantes ao surgirem alguns números acima do ideal (algo natural, já que pertenciam ao pai da garota), deixando-a pequena e mais infantilizada e frágil – o que contrasta, claro, com seus modos de adulta.

Enriquecido pela fotografia sempre magnífica de Roger Deakins (um dos melhores em atividade), Bravura Indômita já tem início com um plano belíssimo e evocativo que revela o cadáver do pai de Mattie sob um facho de luz em meio a uma leve nevasca – e pouco depois Deakins volta a impressionar ao usar a contraluz para ocultar parcialmente o rosto de Rooster durante um julgamento, adiando nossa apresentação formal ao personagem ao mesmo tempo em que sugere sua natureza sombria. (Aliás, o diretor de fotografia cria uma rima visual ao trazer os rostos de Rooster e LaBoeuf envoltos por fumaça de cigarro em suas primeiras cenas, o que não deixa de ser uma idéia elegante e reveladora.) Além disso, a mise-en-scène concebida pelos Coen é hábil ao ilustrar a dinâmica entre os personagens (reparem como a pequena Mattie se impõe diante de Rooster ao visitá-lo em seu pequeno quarto ao manter-se em pé, dominante, enquanto ele permanece caído/deitado em sua cama) ou simplesmente ao apresentá-los – e, neste sentido, a entrada em cena de LaBeouf torna-se a mais emblemática, já que os cineastas o introduzem através de um travelling enquanto, sentado em uma varanda, ele estende as pernas, deixando visíveis, em primeiro lugar, suas esporas características (esporas que o designer de som Craig Berkey constantemente usará para revelar o personagem, seja na manhã seguinte no quarto de Mattie ou durante a noite no embate diante de uma pequena cabana).

Exibindo o humor negro característico da carreira dos Coen (como no esforço de um índio em dizer suas últimas palavras ou no confronto no rio) ou surpreendendo pela explosão ocasional de violência, Bravura Indômita chega ao seu ápice (atenção: não leia o restante deste parágrafo caso ainda não tenha assistido ao filme) na longa cavalgada que acontece no terceiro ato e que, trazendo a trilha melancólica e evocativa de Carter Burwell e a fotografia soberba de Deakins, certamente se revela uma das passagens mais belas já produzidas pelos diretores, amarrando tematicamente a narrativa de maneira perfeita e orgânica ao devolver Mattie à infância perdida ao atirá-la nos braços protetores da figura paterna que tanto desejava – ao passo que Rooster, em contrapartida, não só pode reviver a relação pai e filho que havia atirado no lixo como ainda concluir a conversão surpreendente de bêbado a herói.

Até mesmo John Wayne seria obrigado a reconhecer a superioridade desta nova versão.

11 de Fevereiro de 2011

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.