Poster: A Origem

 

 

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Banner: A Origem

Datas de Estréia: Notas:
Brasil Exterior Crítico Assinante Distribuidora
06/08/2010 Não Disponível

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Dirigido por Christopher Nolan. Com: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Ken Watanabe, Cillian Murphy, Tom Hardy, Dileep Rao, Tom Berenger, Pete Postlethwaite, Marion Cotillard, Lukas Haas, Michael Caine.

(Atenção: a primeira parte desta análise buscará não revelar detalhes importantes sobre a trama do filme. Por outro lado, só leia as segunda e terceira partes depois de ter assistido ao longa. Caso se interesse, veja também o videocast que gravei logo após sair da sessão e que não traz spoilers.)

Ao longo de sua carreira, o cineasta britânico Christopher Nolan comandou sete longas-metragens: Following, Amnésia, Insônia, Batman Begins, O Grande Truque, O Cavaleiro das Trevas e A Origem. Destes, assisti a seis (ainda não conferi sua estréia na função) e classifiquei todos, exceto um, como “cinco estrelas” (a refilmagem Insônia ganhou quatro). Mas mais significativo é o fato de que, dos cinco sobre os quais escrevi, nada menos do que três (incluindo este A Origem) inspiraram críticas que exigiram ser divididas em duas (ou - aqui - três) partes para que eu pudesse abordar melhor a complexidade temática e/ou narrativa das obras – e se você ficou confuso com a quantidade de números que citei neste primeiro parágrafo, aconselho que evite o novo trabalho do diretor, que tampouco oferece uma jornada fácil aos seus espectadores.

Concebido como uma mistura incrivelmente eficiente de Paprika, Sinédoque, NY, Rififi e Matrix, A Origem é uma ficção científica que faz jus aos melhores do gênero, apresentando-nos a conceitos intrigantes e dedicando-se, então, a explorá-los até suas conseqüências mais extremas. Escrito pelo próprio Christopher Nolan com uma inteligência que deixaria Philip K. Dick orgulhoso, o roteiro acompanha um grupo de espiões industriais que, liderados por Don Cobb (DiCaprio), invadem não os escritórios ou cofres das empresas-alvo, mas as mentes de seus principais executivos. Efetuando esta invasão durante os sonhos das vítimas, os ladrões são capazes até mesmo de simular níveis diferentes de “realidade” dentro da mente na qual se encontram com o objetivo de enganar o sonhador e convencê-lo a entregar seus segredos mais valiosos. É então que o poderoso Saito (Watanabe) decide contratar os espiões para que façam o procedimento inverso, plantando uma idéia na mente do jovem bilionário Robert Fischer (Murphy) – uma tarefa não só inédita, mas que pode trazer grandes riscos para Cobb e seu parceiro Arthur (Gordon-Levitt).

Um dos aspectos mais fascinantes deste intrigante conceito de invasão de sonhos (presente também na já citada animação Paprika e em Morte nos Sonhos) reside na idéia – perfeitamente explicada pela neurologia, que a identifica como um mecanismo de proteção do sono - de que fatores externos à mente possam influenciar os eventos presentes no universo onírico. Assim, sons, cheiros e movimentos detectados pela pessoa em repouso podem ser traduzidos em detalhes dos sonhos exatamente como o toque de um despertador muitas vezes é absorvido e transformado num som “reconfigurado” pela mente adormecida – algo que Nolan emprega ativamente no filme, por exemplo, ao trazer uma chuva torrencial como conseqüência da vontade do “sonhador” de ir ao banheiro ou, num dos melhores momentos do longa, ao enfocar um hotel que deixa de respeitar as leis da gravidade em função da situação caótica na qual se encontram as pessoas em cujos sonhos aquele prédio se encontra. Estas subversões da lógica do “mundo real”, aliás, são impecavelmente ilustradas pelos brilhantes efeitos visuais, que só não serão indicados ao Oscar caso os membros da Academia tenham dormido durante a projeção. Da mesma maneira, o fantástico design de produção se encarrega de dar vida a ambientes que, mesmo trazendo uma aparência sólida de realidade, freqüentemente surpreendem ao revelar níveis de insuspeita complexidade, como a “escadaria infinita”, o limbo arquitetado por Cobb ou a luxuosa edificação que abre a narrativa.

Aliás, em um primeiro momento, é possível que esta “aparência sólida de realidade” possa ser interpretada como uma oportunidade desperdiçada por Nolan e sua equipe – afinal, numa narrativa intensamente calcada num universo onírico, por que não subverter constantemente as leis da física e investir em mudanças abruptas (e mesmo absurdas) da geografia ou da lógica do que estamos vendo? Por que, por exemplo, ninguém se flagra nu em público ou descobre-se incapaz de se mover, representando sonhos comuns que poderiam despertar reações no espectador que enxergasse suas próprias experiências como “sonhador” na tela? A resposta, creio, deve-se mais à disciplina do cineasta como contador de histórias do que a uma possível falta de imaginação: já bastante convoluta ao envolver múltiplos níveis de realidades que se engolem como bonecas russas, a narrativa poderia facilmente atravessar a fronteira entre o complexo e o incompreensível, sendo prejudicada justamente por suas ambições. Além disso, ao trazer a figura de uma arquiteta (Page), Nolan justifica narrativamente a “solidez” do sonho, que surge, então, cuidadosamente planejado e organizado pelos invasores justamente para que se apresente com um mínimo de coerência interna que permita sua ação como espiões.

Ainda assim, A Origem não busca simplificar sua narrativa para o espectador, já que, além de envolver, como já citado, níveis diferentes de sonhos-dentro-de-sonhos (algo que fica claro na seqüência que abre o filme), logo descobrimos que o tempo tem duração diferente dependendo da profundidade na qual os heróis se encontram. Neste sentido, aliás, o roteiro busca complicar ao máximo o trabalho do montador Lee Smith, que, além de manter a ação num ritmo constante, é obrigado a enfocar ações paralelas que se passam em ambientes com regras próprias quanto à duração dos eventos que abrigam – e tudo isso sem que permita que a narrativa se torne indecifrável para o público, saindo-se admiravelmente bem na tarefa. (Já indicado ao Oscar por Mestre dos Mares e O Cavaleiro das Trevas, Smith provavelmente voltará à cerimônia pela terceira vez graças ao seu excepcional esforço nesta produção.)

Enquanto isso, o compositor Hans Zimmer faz um de seus melhores trabalhos ao criar uma trilha que já confere uma atmosfera sinistra e sombria ao filme desde os seus primeiros segundos, mas que, além disso, exibe uma lógica interna fabulosa ao empregar a base melódica da canção “Non, Je Ne Regrette Rien” (tornada famosa por Édith Piaf) como fonte do tema principal da narrativa ao executá-la numa cadência mais lenta – o que estabelece uma rima musical/temática perfeita com a música de Piaf, que, afinal, desempenha importante papel na trama. Da mesma forma, os figurinos ajudam a estabelecer com eficiência as personalidades dos personagens, desde as roupas mais joviais de Page aos ternos sóbrios de DiCaprio, passando pelos vestidos de femme fatale exibidos por Marion Cotillard. Vale observar, também, a importância de detalhes como a aliança de Cobb, que pode ou não ser vista em sua mão ao seguir uma lógica interna impecável.

Contando com um elenco admirável, Nolan extrai de seus atores os atributos necessários para que cada personagem desempenhe um papel preciso e importante na história: DiCaprio, dividindo características de composição apropriadamente reminiscentes de sua atuação em Ilha do Medo (com o qual A Origem formaria excelente sessão dupla), surge tenso e gradualmente mais angustiado e inseguro à medida em que a projeção avança, ao passo que Joseph Gordon-Levitt, como Arthur, exibe uma firmeza de ação que mantém o público sempre convencido de sua competência e de sua importância para os planos do parceiro. Marion Cotillard, por sua vez, encarna, como já dito, uma femme fatale que poderia ter saído diretamente de um noir, enquanto Ellen Page, como uma jovem que ganha a oportunidade de realizar o sonho de qualquer arquiteto (literalmente, neste caso), evita se tornar apenas a personagem “novata” que, como tal, é usada exclusivamente como recurso expositivo para esclarecer conceitos para o espectador; em vez disso, ela se torna peça importante ao fazer jus ao nome e auxiliar os demais em suas trajetórias dentro dos sonhos.        

Respeitando o espectador ao não insistir em interromper a narrativa periodicamente para mastigar os acontecimentos, Christopher Nolan mantém esta confiança até o instante final da projeção, evitando um desfecho auto-explicativo que simplifique e resolva tudo para o público – que, assim, sairá do cinema discutindo ativamente o significado do que acabou de testemunhar (incluindo, claro, a cena final). Isto não quer dizer, porém, que A Origem não se resolva; a diferença é que, graças à complexidade de sua narrativa, o filme permite múltiplas conclusões igualmente satisfatórias.

E o melhor é que, para cumprir a tarefa de decifrar completamente estas alternativas, tudo o que o espectador deve fazer é se dar o presente de mergulhar novamente no inteligente e fascinante universo construído por este que vem se confirmando como um dos melhores diretores da atualidade. Uma tarefa de sonhos, convenhamos.

 

Mapeando a Origem

De modo geral, A Origem não é uma obra que busca complicar muito a vida do espectador. Sim, ao estabelecer o conceito de sonhos construídos dentro de outros sonhos, é possível que, aqui e ali, acabe levando o público a confusões momentâneas (em certo instante, Ariadne pergunta: “Agora estamos entrando no inconsciente de quem, mesmo?”), mas basta um pouco de paciência para que logo alcancemos os personagens e voltemos a nos situar dentro da narrativa.

Este jogo tem início logo na seqüência que abre o filme e que logo revela estar ocorrendo dentro de um sonho. Buscando convencer Saito a confiar seus segredos a ele, Cobb explica o conceito dos invasores de sonhos e se apresenta como um especialista capaz de treinar o executivo para que este seja capaz de se defender de espiões como ele. Segundos depois, no entanto, descobrimos que Cobb e Arthur já se encontram em um sonho, que acaba entrando em colapso quando Saito percebe a armação. Com a ação aparentemente frustrada, todos despertam em um pequeno apartamento e o japonês se mostra desapontado com a obviedade da estratégia dos ladrões – até que, ao observar um detalhe do cenário, percebe estar em outro sonho.

É assim, portanto, que Nolan estabelece um dos conceitos principais de seu filme – e a pergunta que os espectadores mais curiosos irão fazer é: mas, afinal, quem eram os responsáveis por cada “nível” de sonho?

Neste primeiro exemplo, a resposta é relativamente simples: Cobb, Arthur e Nash (Haas) se encontram em um trem-bala ao lado de Saito no mundo real. Quando todos adormecem, o “sonhador” que abriga o ambiente onírico é Nash, o arquiteto – e este primeiro nível de sonho é justamente o apartamento. A partir daí, Arthur e Cobb voltam a mergulhar em sedação ao lado de Saito, criando um segundo nível no qual o “sonhador” é Arthur – e descobrimos isso quando este é “morto” e volta ao primeiro nível, quando, então, o segundo sonho passa a entrar em colapso graças à sua ausência. Nesta seqüência, aliás, também descobrimos uma informação importante: o “sonhador” responsável por cada nível deve permanecer no ambiente que está hospedando enquanto os demais mergulham em camadas mais profundas – exatamente como Nash permaneceu no “apartamento”.

A partir destas informações acerca do mecanismo dos sonhos, podemos mapear com mais facilidade a complexa seqüência que surge como clímax da narrativa: no mundo real, Cobb, Arthur, Ariadne, Saito, Eames (o excelente Tom Hardy) e Yusuf (Rao) sedam o bilionário Fischer no avião – e todos entram em um sonho abrigado pelo especialista em sedação, Yusuf (sabemos disso por dois motivos: como ele está com a bexiga cheia, o sonho envolve chuva; e, mais tarde, quando todos mergulham em um nível mais profundo, ele permanece ali para manter o sonho estável). Nesta camada, o propósito da equipe é plantar o início da idéia na mente de Fischer, que deve ser levado a dividir o império deixado pelo pai.

Para isso, a equipe “seqüestra” o sujeito e Eames assume a identidade de Browning (Berenger), um homem no qual a vítima confia completamente. O propósito final, lembrem-se, é levar Fischer a abrir um cofre no nível mais profundo de seu inconsciente, descobrindo a semente de uma idéia que deverá acreditar ser sua. No entanto, para isso é fundamental que o rapaz acredite estar abrindo um cofre inviolável, sem desconfiar que a tal “semente” (um testamento que, assumindo a forma de um cata-vento, reforça sua ligação com a própria infância) foi plantada ali pelos invasores. É por esta razão que “Browning” (na realidade, Eames) revela a existência do tal testamento e Cobb obriga Fischer a dizer os primeiros números que surgirem em sua mente.

De posse destes números, todos (com exceção de Yusuf, que permanece no primeiro nível) voltam a se sedar, mergulhando num sonho que desta vez é abrigado por Arthur – reparem que o design básico do hotel remete às cores do sonho que abre o filme, também hospedado pelo personagem – e percebam que é ele quem ficará para trás quando todos descerem para o terceiro nível. Ali, Cobb se reapresenta a Fischer (que já esqueceu o sonho anterior) e explica que estão num sonho ameaçado por invasores, pedindo que este tente se “lembrar” do que estão buscando os ladrões – e é aí que os números anteriormente “plantados” são novamente reapresentados ao rapaz na forma de um número de telefone. Convencido de que aquele telefone foi originado por seu próprio inconsciente, Fischer é convencido de que eles representam o número de um quarto de hotel, sendo levado para lá por Cobb e sua equipe.

O bilionário encontra-se, então, plenamente convencido de estar sendo guiado por projeções de seu próprio inconsciente, sem desconfiar de que Cobb, Ariadne e os demais são invasores reais. É então que Eames volta a assumir a aparência de Browning e se apresenta como traidor ao rapaz, que fica atordoado com a revelação. Cobb, aproveitando a vulnerabilidade provocada na vítima, sugere que todos entrem no sonho de “Browning” para descobrir o que este tramava – e Fischer prontamente aceita, sem saber que, na realidade, estará entrando na mente de Eames.

Que, portanto, abriga o terceiro nível dos sonhos. É ali que se encontra o cofre que, aberto com os números que Fischer agora julga serem criação sua, revelará a semente da idéia encomendada por Saito – e que o pobre rapaz acreditará ter sido originada em sua própria mente.

Contudo, as coisas se complicam: Fischer e Saito são mortos antes do cofre ser aberto (na realidade, Saito vinha ferido desde o primeiro nível). Normalmente, a morte nos sonhos apenas levaria a vítima a despertar, mas a forte sedação, impedindo que isto ocorra, arremessa o sonhador a um nível mais profundo que Cobb batiza de “limbo”. Sem um ambiente planejado por um arquiteto, este limbo surgiria como um espaço vazio no qual seus ocupantes compartilhariam seus inconscientes – isto se Cobb e sua falecida esposa não tivessem passado o equivalente a 50 anos naquele nível, preenchendo-o com suas memórias e fantasias. É ali que Fischer é encontrado por Cobb e Ariadne depois que estes voltam a se sedar no terceiro nível (deixando Eames para trás, logicamente).

A esta altura, Nolan já levou o espectador a conhecer cinco níveis de realidade que apresentam ações paralelas: o mundo real e as camadas sonhadas por Yusuf, Arthur e Eames, além, claro, do limbo. E estabeleceu, também, que o tempo tem durações diferentes nestes “andares”: dez horas de sono no mundo real equivalem a uma semana no primeiro nível, alguns meses no segundo e dez anos no terceiro – um conceito fundamental para o despertar dos personagens, que só podem abandonar cada nível com a utilização de um “chute” (algo que provoque um grande choque, como uma queda ou a sensação de mergulhar em água gelada).

Reencontrando Fischer, Ariadne agora deve levá-lo de volta ao terceiro nível e, para isso, sincroniza um “chute” com a ressuscitação feita por Eames no andar superior – e quando este usa o desfibrilador no “corpo” do rapaz, a arquiteta atira-o de uma grande altura, no limbo, levando-o a despertar novamente diante do cofre. (Caso não tivesse sido simultaneamente ressuscitado por Eames no terceiro andar, Fischer simplesmente voltaria a morrer e retornaria ao limbo.) Em seguida, Ariadne também se atira do prédio e, com o “chute”, volta ao nível superior.

E é neste momento que Christopher Nolan e o montador Lee Smith orquestram um momento tão magnífico que, confesso, fui levado às lágrimas durante a projeção simplesmente por admirar a beleza da carpintaria dramática da seqüência: para que possam retornar ao primeiro nível dos sonhos (e, daí, para o mundo “real”), os heróis são obrigados a sincronizar os “chutes” em cada andar para que estes ocorram milissegundos antes dos “chutes” que virão no nível seguinte, levando-os, assim, de volta ao início. Para isso, usam a música cantada por Piaf como aviso sonoro que penetra em todas as camadas, permitindo que coordenem suas ações – e vê-los despertando em seqüência em cada “andar” foi algo que me comoveu de maneira inesperada justamente em função da inteligência e da elegância da estrutura da narrativa.

Uma estrutura que, claro, ainda precisaria de mais algum tempo para se completar de vez, já que, afinal, ainda deveria lidar com Cobb e Saito, que permaneciam presos no limbo.

 

O Fim da Origem

O que descobrimos, quase no desfecho do longa, é que Cobb já havia plantado uma idéia que resultara em desastre: depois de permanecer o equivalente a décadas no limbo ao lado de Mal (Cotillard), ele se apossara de seu totem para convencê-la de que aquilo era apenas um sonho.

(Um totem é um objeto que o “sonhador” deve escolher no mundo real e que apenas ele deve tocar; assim, ao manipulá-lo – e por ser a única a conhecer suas características -, a pessoa saberá se está sonhando ou não.)

Assim, depois de ser perseguido pela projeção das lembranças da esposa (que se matara no mundo real por julgar ainda estar em um sonho), Cobb finalmente a confronta no limbo e é apunhalado enquanto Ariadne retorna com Fischer para o terceiro nível. Isto, porém, é o ideal, já que, ao voltar a morrer – e ainda sob forte sedação -, o sujeito simplesmente retorna ao limbo, o que lhe permite encontrar Saito, que, tendo chegado ali antes (e em função do tempo dilatado nos níveis mais profundos), agora é um velho que beira a insanidade. O protagonista então busca alertar o outro sobre a realidade daquele lugar, tentando convencê-lo a se matar – já que, com o fim da sedação, a morte agora levaria ambos de volta ao mundo consciente.

Saito parece mover a mão em direção à arma que se encontra à sua frente e... Cobb e Saito despertam no avião. Inocentado graças à interferência do japonês, o herói retorna à sua casa e reencontra os filhos, finalmente sendo capaz de enxergar seus rostos (algo que o afligia durante toda a projeção). Nos segundos finais do filme, porém, ele gira seu totem sobre uma mesa, para certificar-se de que não está sonhando, mas abandona o aposento antes que o objeto pare de rodar – o que comprovaria estar no mundo real. Nolan, sádico, enfoca o totem por mais algum tempo, mas corta para os créditos finais antes que este finalmente interrompa o movimento, deixando o público inseguro acerca do que acabou de ver.

Afinal, Cobb voltou realmente a se encontrar com os filhos ou ainda permanece sonhando?

É uma questão intrigante que permite respostas múltiplas: em primeiro lugar, seria possível até mesmo que Mal estivesse correta em sua percepção e que tudo o que vimos ao longo de A Origem fosse apenas um sonho de Cobb. Neste caso, ao se matar ela teria retornado de fato ao mundo consciente, deixando o marido preso nos sonhos embora este acreditasse justamente no oposto. Há alguns elementos ao longo da narrativa que poderiam indicar esta alternativa, desde a cena no porão de Yusuf, quando um velhinho que ministra sedação afirma que, para seus clientes, “o sonho se tornou realidade”, até o instante em que, sendo perseguido por alguns capangas, Cobb se espreme em um bequinho durante sua fuga – numa imagem típica de sonhos. Além disso, como o sujeito pegou o totem que pertencia à esposa, é possível que as cenas nas quais ele manipula o objeto para se certificar da realidade à sua volta sejam mentirosas justamente graças a algum tipo de falsificação feita pela dona original do brinquedo.

Esta explicação, no entanto, envolveria uma imensa desonestidade por parte de Nolan, que, afinal, gasta um tempo precioso explicando a função do totem – e seria impensável que, depois de tudo isso, o tal objeto simplesmente não desempenhasse função alguma. Assim, devo dizer que rejeito esta alternativa.

O que nos deixa, então, com a opção de que toda a ação do filme tenha de fato ocorrido e que apenas o destino final de Cobb se mantenha dúbio: ele conseguiu, afinal, abandonar o limbo depois de encontrar Saito ou não?

Por um lado, bastaria que Saito baleasse Cobb e se matasse em seguida para que tudo se resolvesse – e mesmo que o japonês se recusasse a fazê-lo, Cobb poderia matá-lo e cometer “suicídio”. No mínimo, ao tentar atacar Saito, Cobb provavelmente seria morto, retornando à realidade (é difícil acreditar que o outro o manteria prisioneiro no limbo e sob constante supervisão para impedir sua “morte”) – e como ambos surgem despertando no avião, é razoável acreditar que tudo tenha funcionado bem.

Por outro lado, isto seria funcionar bem demais. Afinal, com um telefonema Saito parece livrar Cobb da perseguição da justiça norte-americana e, pouco depois, o herói já se encontra reunido à família, o que é excessivamente conveniente. Além disso, é no mínimo estranho que seus filhos usem roupas praticamente idênticas àquelas que vestiam em seus sonhos, que façam movimentos estranhamente similares e – mais do que isso – que não pareçam ter envelhecido um segundo desde a última lembrança do protagonista, já que este parece ter ficado no mínimo um ou dois anos longe delas.

E há, claro, o totem. Ao ser girado nos sonhos, o objeto mantinha um movimento impecável, sem oscilações visíveis, ao passo que, na cena final, ele claramente oscila. Além disso, exatamente no instante em que Nolan corta para os créditos, há um som que poderia indicar o início da queda do objeto.

Que, contudo, poderia perfeitamente ter continuado a girar, indicado se tratar de um sonho.

Em outras palavras: cada espectador poderá chegar a uma conclusão perfeitamente legítima a partir de suas próprias inclinações. Aqueles que apreciam um final feliz podem defender com convicção o reencontro de Cobb com os filhos, ao passo que os céticos não estarão errados em afirmar que o protagonista jamais despertou dos sonhos (ou, no mínimo, que ainda não voltou à realidade).

Minha percepção particular? Jamais poderemos ter certeza – e acredito que Nolan plantou esta dúvida por um motivo importante: o próprio Cobb, depois de ter vivenciado tudo aquilo, tampouco poderá sentir conforto na realidade. Ele sabe que seu totem pertencia a Mal e, assim, poderia ser manipulado em sonhos; ele sabe que a permanência no limbo acaba levando o sonhador a acreditar que aquele é o mundo real; e ele sabe que, da mesma forma que plantou a idéia em Mal de que tudo não passava de um sonho, ele mesmo pode ter sido vítima desta semente – como aponta a última conversa que mantém com a esposa diante de Ariadne, antes de ser esfaqueado.

Assim, a incerteza do espectador diante do final reflete apenas a dúvida do próprio protagonista acerca de sua própria realidade. Uma solução que, confesso, me encanta pela elegância e simetria e que, portanto, passo a defender como a definitiva.

05 de Agosto de 2010

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