Poster: Loki – Arnaldo Baptista

 

 

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Banner: Loki – Arnaldo Baptista

Datas de Estréia: Notas:
Brasil Exterior Crítico Assinante Distribuidora
19/06/2009 Não Disponível

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Dirigido por Paulo Henrique Fontenelle.

A trajetória do músico Arnaldo Baptista, um dos fundadores (e, de acordo com este documentário, líder inconteste) dos Mutantes, é cinematográfica: juntando-se a alguns amigos para formar uma banda que seguisse os passos dos adorados Beatles, Baptista deu início ao autêntico rock brasileiro, combinando as sensibilidades e raízes de nossa cultura ao ritmo internacional para se tornar um dos principais expoentes do nascente Tropicalismo. Com sua separação de Rita Lee e a saída desta do grupo, porém, o músico mergulhou numa longa crise depressiva que provocou internações e uma tentativa de suicídio que o jogou no coma por dois meses. Recuperado, mas com seqüelas, Baptista seguiu com suas tentativas de voltar ao cenário musical nacional e hoje é considerado por muitos como um artista verdadeiramente genial. 

Dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, Loki (título do celebrado álbum solo de Baptista) não só é um resgate-homenagem importantíssimo de um homem constantemente subestimado como também um exercício contagiante de nostalgia. Contando com maravilhosas imagens de arquivo (fotos, trechos de shows, passagens dos grandes festivais de música da década de 60 e entrevistas), o filme estabelece a importância de Baptista e dos Mutantes como força de mudança durante o negro período da Ditadura Militar, quando eram considerados, por parte do movimento estudantil, como artistas alienados que não se preocupam com a situação política do país (quando, na realidade, a própria postura de livre anarquia do grupo funcionava, ao seu próprio modo, como um tapa no conservadorismo vigente). 

Figura encantadora graças à maneira doce e quase infantil com que se expressa (algo que se deve, em parte, ao “acidente” sofrido, mas que também pode ser observado em suas entrevistas no início da carreira), Arnaldo Baptista exibe uma doçura tocante ao manifestar suas doídas lembranças e seus esperançosos sonhos: ao falar de sua separação de Rita Lee, por exemplo, ele diz que não compreendia por que ela “o havia abandonado” (o tom triste, magoado, com que ele usa a expressão é revelador; já ao comentar o show que fará em Londres com os “novos” Mutantes (em 2007), ele confessa com a euforia de uma criança: “Estou com uma esperança enorme de acontecer alguma coisa boa comigo aqui”. Como não se deixar conquistar por alguém assim? 

Infelizmente, porém, Loki exibe uma lacuna que se faz sentir durante toda a projeção: a própria Rita Lee, que aparentemente se recusa a falar sobre seu tempo nos Mutantes e seu casamento com Baptista. Com isso, o filme pode apenas especular o que de fato ocorreu entre os dois: por um lado, é óbvio que o protagonista se sente – como ele mesmo diz – “abandonado”. Por outro, algo muito sério deve ter ocorrido para gerar tanta mágoa em sua ex-esposa – e como, no confessional Loki, Baptista pede “desculpas” a ela, é justo supor que, de fato, ele desempenhou algum papel grave no processo. Mas a ausência de Rita Lee impede que o filme se debruce nesta questão, que, mais do que uma simples “fofoca” sobre astros, se apresenta como um incidente crucial para que compreendamos a decadência do protagonista nas décadas seguintes. De todo modo, culpar o longa por isso pode ser injusto, já que não havia muito a ser feito diante das negativas de Rita – e, devo salientar, Fontenelle faz o melhor que pode ao cobrir aquele obscuro período com depoimentos de várias outras testemunhas da época. 

Prejudicado também pelo uso de drogas (especialmente LSD), Baptista é, ao mesmo tempo, um gênio com trajetória admirável e um talento desperdiçado, já que certamente poderia ter produzido muito mais caso seus problemas psíquicos e físicos não tivessem lhe cobrado um preço tão alto. Resta o consolo de saber que, com este excepcional documentário, há a esperança de que ele possa ser (re)descoberto pelas novas e velhas gerações. 

E todos sairíamos ganhando com isso. 

Crítica originalmente publicada como parte da cobertura da 32ª. Mostra de SP. 

27 de Outubro de 2008

 

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