Poster: Kick-Ass - Quebrando Tudo

 

 

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Banner: Kick-Ass - Quebrando Tudo

Datas de Estréia: Notas:
Brasil Exterior Crítico Assinante Distribuidora
18/06/2010 Não Disponível

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Dirigido por Matthew Vaughn. Com: Aaron Johnson, Nicolas Cage, Chloë Grace Moretz, Mark Strong, Christopher Mintz-Plasse, Lyndsy Fonseca, Michael Rispoli, Jason Flemyng, Elizabeth McGovern.

Há cerca de dez anos (uau, estou ficando velho), escrevi sobre a frustrante comédia Heróis Muito Loucos, que investia no conceito de personagens comuns que, empolgados com o conceito de levarem a vida como super-heróis, formavam um grupo que incluía indivíduos com poderes inúteis como “ser capaz de ficar muito zangado” e “tornar-se invisível... apenas quando não há ninguém olhando”. Infelizmente, graças à incompetência do cineasta Kinka  Usher (que, não por coincidência, jamais voltou a dirigir) e a um roteiro pedestre, o filme desperdiçou a ótima premissa e acabou sendo relegado ao esquecimento. Pois agora, investindo numa idéia relativamente parecida, o diretor Matthew Vaughn (Nem Tudo é o que Parece, Stardust) finalmente conseguiu explorar de maneira competente um universo que combina os absurdos gratificantes dos filmes protagonizados por super-heróis e o constrangimento cômico de obras como Superbad.

Inspirado na ótima graphic novel de John Romita Jr. e Mark Millar (este último responsável pelos quadrinhos que geraram O Procurado), o roteiro de Jane Goldman e do próprio Vaughn gira em torno do adolescente Dave Lizewski (Johnson), que, frustrado com a própria vida (“Eu apenas existia.”), é tão inseguro que decide se passar por gay para poder ficar próximo à garota de seus sonhos. Leitor ávido de quadrinhos, ele resolve criar um alter ego que lhe permita assumir uma postura mais determinada e é então que se apresenta ao mundo como Kick-Ass, um vigilante mascarado que logo descobre que a realidade não é tão simples quanto a ficção. Enquanto isso, somos apresentados também ao ex-policial Damon Macready (Cage) e à sua jovem filha de 11 anos, Mindy (Moretz), que, como Dave, encarnam uma dupla de justiceiros: Big Daddy e Hit-Girl, que se dedicam a combater a quadrilha comandada pelo poderoso gângster Frank D’Amico (Strong).

Abraçando sem reservas as origens do material, Matthew Vaughn transforma Kick-Ass em um interessante exercício de metalinguagem: em certo instante, por exemplo, Big Daddy desenha o rosto de um vilão apenas para que a imagem seja substituída pelo rosto real de Mark Strong – e a própria origem do “herói” é explicada num dinâmico formato de quadrinhos. Da mesma maneira, se o cineasta remete até mesmo às elipses típicas das graphic novels ao empregar letreiros como “Enquanto isso...”, tampouco hesita em fazer referências ao próprio Cinema, como no divertido momento em que o herói-narrador alerta o espectador para que este não o considere imbatível apenas por estar ouvindo sua voz em off, já que, como comprovam filmes como Beleza Americana e Crepúsculo dos Deuses, isto pode não significar nada.

Além disso, o diretor de fotografia Ben Davis investe em cores intensas e contrastadas que estabelecem uma paleta claramente inspirada em HQs, embora, aqui e ali, também invista, ao lado de Vaughn, em rápidas citações aos games (como na câmera subjetiva que explora o olhar de Hit-Girl em determinada seqüência de ação). Mas não é só: trabalhando ao lado de três montadores – algo pouco comum, diga-se de passagem -, o cineasta estabelece uma dinâmica invejável em sua narrativa, criando ainda algumas transições particularmente elegantes (como aquela em que uma caixa de cereal é substituída por uma lápide). No entanto, talvez a decisão mais corajosa de Vaughn seja a de se manter fiel ao tom do material original - embora tome várias liberdades em relação à sua história -, não abrindo mão da violência gráfica ali presente. Assim, é comum, ao longo dos 117 minutos de projeção, que vejamos cabeças explodindo sob o impacto de balas e membros abandonando o conforto de suas articulações graças aos golpes da espada de Hit-Girl.

E por que esta opção seria “corajosa”? Porque Kick-Ass se passa num universo essencialmente fantasioso e tem o bom humor como centro fundamental de sua narrativa – e, assim, o excesso de sangue e vísceras poderia facilmente neutralizar os esforços satíricos do filme, que ficaria preso entre a comédia e a ação sem concessões, falhando em ambos. Assim, é admirável que Vaughn encontre um equilíbrio perfeito entre a leveza de seu herói e o peso das conseqüências da violência – e parte importante deste equilíbrio reside na eficiência das seqüências de ação, que investem em coreografias inventivas que, ao mesmo tempo em que funcionam no contexto do filme, ainda lembram o espectador de que, afinal, tudo aquilo não passa de uma fantasia absurda (e aqui mais uma vez o cineasta usa a metalinguagem para dar o tom ideal ao longa, empregando a fantástica trilha de Por uns Dólares a Mais composta por Ennio Morricone para enfocar certa ação de Hit-Girl).

Com um elenco afinadíssimo, Kick-Ass é beneficiado por um protagonista relativamente desconhecido que, assim, funciona como uma tela em branco na qual o espectador pode facilmente se projetar – e seu jeito inseguro e sua voz trêmula de adolescente certamente contribuem para que, no mínimo, nos identifiquemos com sua vulnerabilidade constante diante de todas aquelas ameaças. Enquanto isso, Christopher Mintz-Plasse, que surgiu como a grande revelação do excelente Superbad, usa boa parte de sua persona de “McLovin” para compor o vilão Red Mist, que, ao contrário do que ocorria nos quadrinhos, aqui já expõe seus planos malignos desde o princípio, mas com o tocante/divertido objetivo de chamar a atenção do pai, Frank D’Amico (Mark Strong, que, com Sherlock Holmes e Robin Hood, parece determinado a limitar sua carreira aos papéis de antagonista).

Nicolas Cage, por sua vez, continua a investir na recuperação de sua carreira, que depois de atingir o fundo do poço com Motoqueiro Fantasma, Perigo em Bangkok e O Vidente, deu uma guinada graças a Presságio e Vício Frenético (além da dublagem de Astro Boy): aqui, o ator encarna o pai de Hit-Girl como um sujeito excêntrico que, com um senso de humor bastante particular (reparem em sua risadinha estranha ao fazer um trocadilho bobo), ainda emprega uma cadência divertidamente artificial ao falar – e sua dedicação à filha é apenas rivalizada pela maneira absurda com que se manifesta. E por falar na garota, qualquer crítica sobre Kick-Ass que deixe de mencionar Hit-Girl deverá ser imediatamente descartada, já que a menina, vivida pela excelente Chloë Grace Moretz, é o destaque indiscutível do projeto: usando uma peruca que a transforma numa mistura de Natalie Portman em O Profissional e da Stephanie da série LazyTown (ei, sou pai de duas crianças!), Hit-Girl é a Noiva de Kill Bill no corpo da Pequena Miss Sunshine – e o simples contraste entre suas ações e sua aparência inocente já seria o bastante para tornar a personagem fascinante. Ainda assim, a atuação de Moretz é fundamental ao convencer o espectador de que a força e a habilidade daquela menininha poderiam ser plausíveis mesmo naquele mundo absurdo – e se não “comprássemos” esta idéia, o confronto violento entre Hit-Girl e o vilão Frank D’Amico certamente levaria o público a repudiar o filme por completo.

Com um desfecho mais otimista e doce que a graphic novel (mas que funciona perfeitamente no longa), Kick-Ass é uma diversão atípica: choca e provoca o riso na mesma medida, conseguindo também privilegiar seus personagens sem jamais sacrificar a história. É, em suma, tudo o que Heróis Muito Loucos tentou ser e não conseguiu – e, apenas por isso, já mereceria gerar sua própria franquia. Hit-Girl merece voltar às telas.

17 de Junho de 2010

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