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Fim dos Tempos

★☆☆☆☆1/5 estrelas
12 min

Dirigido por M. Night Shyamalan. Com: Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo, Betty Buckley, Ashlyn Sanchez, Spencer Breslin, Robert Bailey Jr, Alan Ruck, Frank Collison, Jeremy Strong, Victoria Clark.

M. Night Shyamalan é, ao lado dos irmãos Wachowski (Matrix), uma das grandes revelações de 1999.O Sexto Sentido, 13 de Outubro de 1999.

A prova definitiva de que O Sexto Sentido não foi um mero golpe de sorte. M. Night Shyamalan veio mesmo para ficar.” – Corpo Fechado, 20 de Janeiro de 2001.

Se em seus filmes anteriores (...) cada enquadramento e movimento de câmera eram os ideais para suas respectivas tomadas, desta vez tive a impressão de estar assistindo a um mero exercício de estilo, como se o cineasta empregasse suas velhas técnicas sem ter exatamente certeza de que estas se aplicariam a todos os casos.” – Sinais, 19 de Setembro de 2002.

 Shyamalan deveria abandonar a carreira de roteirista e dedicar-se apenas à de diretor: seu talento é grande demais para ser desperdiçado em tramas cada vez piores.” – A Vila, 03 de Setembro de 2004.

Além de um roteiro pedestre (para dizer o mínimo), o filme conta com uma direção corriqueira que não faz jus àquele que alguns cismaram de batizar como ‘o novo Hitchcock’.” - A Dama na Água, 31 de Agosto de 2006.

Os trechos acima foram retirados dos textos que escrevi ao longo dos anos acerca de cada novo projeto do diretor de origem indiana M. Night Shyamalan – e se é triste constatar a queda drástica da qualidade de seus trabalhos em um espaço tão curto de tempo, ainda pior é perceber que, atingido o fundo do poço, é lá que o cineasta permanece com este seu desastroso Fim dos Tempos.

Voltando ao cenário apocalíptico que ensaiou inicialmente em Sinais, Shyamalan inicia a narrativa com uma inexplicável série de suicídios em Nova York que logo é atribuída pela mídia a um possível ataque químico terrorista. Porém, embora a causa das mortes acabe mesmo sendo associada a uma neurotoxina que “inativa o instinto de auto-preservação das vítimas, levando-as ao suicídio” (oh, Deus...), as autoridades rapidamente descartam a hipótese de terrorismo ao observarem que a escala dos ataques é grande demais para que estes sejam provocados por humanos. Isto leva ao surgimento de uma hipótese que, de acordo com o próprio diretor, dá origem a um filme que combina Os Pássaros e O Exorcista.

Hein? Uma comparação mais apropriada seria uma mistura de O Terror Veio do Espaço e Os Espartalhões, já que o simples conceito das toxinas que destroem o instinto de auto-preservação é ridículo o bastante para funcionar como comédia. Infelizmente, Shyamalan vai além, investindo em seqüências cujo grau de estupidez acaba denunciando um desespero crescente do diretor-roteirista de resgatar um pouco do invencionismo que marcou o início de sua carreira – mas ver um grupo de personagens tentando fugir do vento é absurdo demais para não despertar risos de incredulidade. Por outro lado, é irônico que estes risos simplesmente não venham quando Shyamalan realmente tenta provocá-los, como na constrangedora cena em que o personagem de Mark Wahlberg conversa com uma planta.

Outro problema grave de Fim dos Tempos diz respeito à artificialidade da direção, que, assim como ocorria no pavoroso A Dama na Água, revela uma solenidade excessiva na composição dos quadros, expondo as intenções por trás da encenação. Beirando a auto-paródia, a tendência de Shyamalan de trazer os atores para o centro do quadro, olhando para a câmera (ou quase), é rivalizada apenas pela maneira cada vez mais pausada, lenta, com que ele obriga todos a dizerem suas falas – e se isto funcionava bem em O Sexto Sentido e Corpo Fechado, criando uma atmosfera inquietante, desta vez temos a nítida impressão de que o cineasta simplesmente não consegue se livrar de seus vícios, revelando-se incapaz de se adaptar às necessidades narrativas de cada projeto. Como se não bastasse, ele chega a demonstrar incompetência ao criar alguns planos simplesmente ilógicos, como na cena em que Wahlberg confunde uma boneca com uma pessoa (ele precisaria ser cego para não perceber imediatamente seu erro) ou ao tentar criar suspense ao incluir uma tomada sem propósito de um balanço de madeira oscilando ao vento.

Enquanto isso, seu roteiro igualmente incompetente insiste em martelar suas idéias trôpegas através da repetição, como no instante em que Wahlberg diz ser melhor que se mantenham em pequenos grupos e sua esposa imediatamente repete achar mais conveniente “se afastar das outras pessoas”. Além disso, a falta de polimento dos diálogos denuncia uma preguiça monumental do cineasta, o que fica claro quando uma personagem oferece, sem a menor justificativa, uma longa explicação sobre um tubo que liga dois aposentos de sua casa, permitindo que as pessoas conversem à distância – e imediatamente concluímos que Shyamalan atirou aquela fala na cena apenas para preparar o espectador para uma cena posterior. E se a longa (e dispensável) explicação oferecida por um comentarista de tevê no desfecho da projeção apenas comprova a falta de confiança do roteiro em sua própria competência (e na do espectador), tudo empalidece diante do instante absolutamente ridículo em que o pobre John Leguizamo é obrigado a dizer “Vou te propor um enigma matemático” – uma fala que se torna ainda mais pavorosa graças ao contexto no qual é dita (e a burrice da moça que supostamente deveria resolver o tal enigma provavelmente representa a maneira com que Shyamalan enxerga seu público).

Encabeçando um elenco homogeneamente ruim, Mark Wahlberg é o único que quase escapa incólume da direção excessivamente rígida do cineasta, que consegue arrancar uma performance particularmente ruim da bela Zooey Deschanel, cuja personagem oscila entre a caricatura e o Framboesa de Ouro (em certo momento, ela fala para a garotinha interpretada pela péssima Ashlyn Sanchez: “Nós somos parecidas. Eu também não gosto de mostrar minhas emoções” – aparentemente sem perceber que esta frase reveladora contradiz o que ela acabara de dizer). Ainda assim, o troféu “Devorei o cenário e vomitei Nicolas Cage” pertence à atriz Betty Buckley, que, em sua curta participação, cria uma personagem tão absurda que quase nos esquecemos de que o filme é sobre toxinas transmitidas pelo vento e não sobre a tia-avó desaparecida da família de Leatherface.

Toda a seqüência na cabana da sra. Jones, diga-se de passagem, serve como prova máxima da decadência absoluta de um roteirista que, ao perceber a necessidade de prolongar um pouco mais sua diluída narrativa, encaixa um desvio na trama que não tem absolutamente nada a ver com a história que pretendia contar – e que já havia sido suficientemente estendida por uma subtrama envolvendo a esposa desaparecida do personagem do desperdiçado John Leguizamo (algo que logo é abandonado) e inúmeras e despropositadas referências a um “anel de humor” que não levam a nada.

Ou melhor: levam, sim. Levam à lamentável constatação de que só podemos deduzir que o próximo projeto de Shyamalan será melhor do que este Fim dos Tempos porque sabemos que ele (ou qualquer outro cineasta) dificilmente seria capaz de fazer algo pior. Pelo menos, é o que espero.

Observação: Shyamalan faz sua participação especial “hitchcockiana” como a voz de Joey, com quem a personagem de Deschanel conversa brevemente pelo telefone.

13 de Junho de 2008

 

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
1.0
★☆☆☆☆

O filme é descrito como um thriller paranóico sobre uma família tentando sobreviver a uma crise ambiental que representa um enorme risco para a humanidade.

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Avaliações dos Usuários

Richardor
Richardor1 de nov. de 2015

Pablo, Revendo o filme, fui procurar uma crítica, e, por curiosidade, fui reler a tua. Nela pude constatar um certo exageros nas suas explicações, por exemplo, dizes que a explicação das mortes por uma toxina que “inativa o instinto de auto-preservação das vítimas, levando-as ao suicídio” é sem fundamento (interpretei teu "oh Deus", diz isso). Bem, pesquisas no campo celular mostram que alterações nas células apresentam um mecanismo de suicídio programado, ou autodestruição, chamado apoptose, que é disparado por agentes internos ou externos. Logo, o instinto de autopreservação pode ser afetado, por mais exagerada que possa ser a explicação no campo de organismos complexos. A parte que o personagem de Mark Wahlberg conversa com as plantas é uma das melhores do filme e, com todo respeito, devo dizer que entendi, porém discordo de teu argumento. Falo isto, pois as cenas com os objetos é mais do que uma ontologia dos objetos, porque, para além das suas respectivas naturezas e finalidades, cada um deles agrega novas possibilidades, funções, cadeias de ações e sentidos. Por exemplo, a cena entre Mark Wahlberg e a jovem Ashlyn Sanchez, logo após a menina mergulhar na apreensão da perda definitiva dos pais, há o anel do protagonista, cuja pedra que o enfeita acredita-se capaz de expressar os sentimentos, mas que aqui, antes de diagnosticar, produz um estado de espírito. O professor de ciência (Wahlberg) arranca um sorriso à criança em meio ao terror, pura e exclusivamente graças a esse apetrecho. Estamos no domínio da metáfora e o que é mais belo: ela ainda é possível no cinema. Sobre o clímax, que ocorre quando Elliot e Alma Moore decidem por juntos do que separados. Esse clímax não seria um anticlímax nas mãos de Steven Spielberg, por exemplo. Não seria o clímax de um filme de gênero tradicional, com a humanidade indo para a cucuia ou virando o jogo contra a mãe natureza, mas seria um clímax sentimentalista para nos levar as lágrimas (coisa tão comum em Spielberg de hoje, vide Ponte dos Espiões). De certo modo, pode-se dizer que é exatamente isso em “Fim dos Tempos”, contudo, apenas em tese, não na execução, pois, visualizamos personagens que se emocionam com seus dramas particulares, mas não somos chamados a nos emocionar com o drama deles (penso que daí que tanta gente critica as interpretações). Penso que Shyamalan não quer que o espectador se emocione com os personagens, assim como não quer que o espectador sinta medo do vento, quer que o espectador seja capaz de entender as emoções que movem os personagens e de “ver” o vento como um portador do medo. O mesmo vale para os suicidas, que se arremessam de um edifício em obras, que se oferecem como refeição para leões, que se deitam sob cortadores de gramas. São cenas que mostram um mundo apocalíptico, mas não inserem o espectador no apocalipse. São emblemáticas, assim como a emoção dos personagens é emblemática. Assim como o medo é emblemático. Enfim, quando penso em “Fim dos Tempos”, penso em Hitchcock e em filmes de revolta da natureza dos anos 70, mas também em Robert Bresson e Apichatpong Weerasethakul. A mistura do emblemático com o sensorial, sem abandonar as convenções do filme de gênero. Sinceramente, eu só tenho a agradecer por essa confusão. As viúvas de “O Sexto Sentido” deveriam parar de esperar finais surpresas em filmes de Shyamalan. Para mim, “Fim dos Tempos” é uma surpresa do começo ao fim. Abraços!