O Espetacular Homem-Aranha
Dirigido por Marc Webb. Com: Andrew Garfield, Emma Stone, Rhys Ifans, Martin Sheen, Sally Field, Denis Leary, Irrfan Khan, Campbell Scott, Embeth Davidtz, C. Thomas Howell.
Dez anos. Foi esse o tempo necessário para que o Homem-Aranha chegasse aos cinemas, rendesse três filmes, esgotasse a fórmula decepcionando com um terceiro capítulo patético e finalmente ganhasse uma “reimaginação” nas mãos de outro realizador e estrelada por outro ator. Mesmo numa época dominada pelo déficit absoluto de atenção dos espectadores, chega a assustar que uma obra seja descartada pelo próprio estúdio com tamanha rapidez – e pior do que isso é só perceber que a nova versão acaba cometendo alguns dos mesmos erros que condenaram Homem-Aranha 3 ao fracasso, potencializando o lado “emo” de Peter Parker e criando uma historinha de amor que poderia facilmente render ao longa o rótulo de “Homem-Aranha para crepusculetes”.
Escrito pelos experientes James Vanderbilt (Zodíaco), Alvin Sargent (O Homem-Aranha 2) e Steve Kloves (a série Harry Potter), o roteiro demonstra claramente ter sofrido graças aos diferentes tratamentos dos três profissionais e se mostra uma colcha de retalhos que raramente consegue definir o tom ou mesmo a abordagem da narrativa. Aparentemente julgando ser necessário recontar toda a origem do herói, mesmo que já tenhamos visto tudo isso há apenas uma década, o trio gasta metade do filme nesta empreitada, acrescentando ou mudando detalhes para conferir algum ar de novidade a algo que já nasceu envelhecido. Para piorar, até mesmo a dinâmica estabelecida para alguns personagens do original é reutilizada aqui – e se o Duende Verde de Willem Dafoe mantinha discussões esquizofrênicas com seu alter-ego, o mesmo ocorre aqui com o Lagarto/Curt Connors encarnado por Rhys Ifans. Da mesma maneira, o jantar com Norman Osborne ganha uma versão familiar com a refeição feita ao lado da família Stacy, o que se torna ainda mais curioso quando consideramos as semelhanças físicas entre Dafoe e Denis Leary. E se em 2002 Parker parecia saltar de uma figura paterna a outra, aqui isto volta a ocorrer sem qualquer sutileza, demonstrando que esta “reimaginação” está mais para a velha e batida “refilmagem”.
Apelando com frequência para coincidências que ajudam a tornar a narrativa inverossímil mesmo se considerarmos os personagens fantásticos, o filme coloca Peter Parker como centro de todos os acontecimentos - e, assim, Gwen não é apenas seu interesse amoroso, mas também filha do hostil capitão Stacy e estagiária do vilão Connors – que, por sua vez, foi parceiro do pai do herói. Se todas estas ligações vieram dos quadrinhos, não sei dizer (e não importa), mas aqui soam implausíveis e tornam o herói não uma figura humana diante de situações incríveis (o que o aproximava do espectador), mas em uma espécie de “Escolhido” pelo destino para lidar com tudo aquilo. Enquanto isso, a morte de tio Ben (Sheen) é praticamente castrada de qualquer potencial dramático graças à encenação distante e fria do diretor Marc Webb, o que se revela um erro grave.
Mais irritante, porém, é constatar a falta de preocupação dos realizadores em criar uma trama minimamente coesa ou lógica: de estudantes do ensino médio sendo contratados como estagiários de uma empresa que lida com complexa biotecnologia (e que assumem grandes responsabilidades no trabalho) até a informação de que um importante equipamento capaz de disseminar gases na atmosfera encontra-se acumulando poeira no meio do laboratório, em vez de ser desmontado e guardado depois de mais de uma década sem utilização, O Espetacular Homem-Aranha parece desafiar o espectador a aceitar seus absurdos. Isto, claro, quando não está tratando o público como imbecil completo ao incluir animaçõezinhas que trazem vários Lagartos surgindo em uma tela para ilustrar o plano do vilão ou quando vemos uma aranha desenhada no quadro negro do pai de Peter Parker para entendermos a ligação entre o sujeito e o que ocorrerá ao filho anos depois. E o que dizer da recepcionista que pergunta duas vezes se o protagonista está “tentando se achar”, numa metáfora pedestre que se torna ainda mais podre ao ser repetida? (A repetição, aliás, parece estratégia do roteiro, já que o capitão Stacy logo depois fará duas piadas comparando a aparição do Lagarto aos ataques de Godzilla em Tóquio.)
Assim, considerando o imenso tempo gasto para recontar a origem do Aranha e para repetir piadas e metáforas vazias, é incrível como o filme jamais consegue tornar os personagens minimamente complexos. Quem, por exemplo, é o doutor Connors? Trata-se de um cientista íntegro ou de um maluco sádico? Por que ele ataca Parker em um instante para protegê-lo em outro? O Lagarto, afinal, é apenas um monstro descontrolado ou Connors consegue pensar sob suas escamas? Estas perguntas, porém, empalidecem diante daquelas despertadas pelo herói: perdendo a aura de adolescente comum, tímido e inseguro que o tornava tão intrigante, Peter Parker aqui é um sujeito que já surge definido e decidido – e se antes apanhava do Flash apenas por ser uma vítima fácil, aqui ganha contornos de estoicismo desde o princípio ao se ofertar para uma surra ao defender um garoto menor. Dono de uma personalidade obviamente deprimida desde sua primeira aparição no filme, quando, ainda criança, protagoniza a brincadeira de esconde-esconde mais triste e desanimada da história do planeta, Parker oscila entre o choro e a chatice – a não ser, claro, quando veste a máscara de herói, quando subitamente se revela um piadista nato (embora até mesmo as piadas sejam descartadas depois de um tempo).
Dirigido por Webb com um ritmo terrivelmente irregular, O Espetacular Homem-Aranha é uma experiência aborrecida como seu personagem-título: em vários momentos, paramos para ver Parker e Gwen (Stone, linda, mas no piloto automático) conversando desajeitadamente em meio a longas e entediantes pausas; em outros, somos mergulhados em batalhas burocráticas dominadas por efeitos digitais e que poderiam perfeitamente ter saído do clímax de qualquer um dos demais capítulos da série. E se o 3D empregado pela produção é autêntico em vez de convertido, isso acaba não fazendo diferença alguma, já que é mal utilizado por Webb, que se limita no máximo a incluir alguns planos subjetivos que, além de destoarem de todo o restante de sua abordagem narrativa, ainda soam como protótipos da inevitável atração a ser construída em algum parque temático da Marvel.
Com uma trilha sonora pouco inspirada de James Horner (ouçam as pancadas no piano quando o Lagarto procura Gwen e sintam o embaraço), O Espetacular Homem-Aranha ainda comete o mesmo erro do recente Prometheus ao deixar uma série de pontas soltas que supostamente serão amarradas apenas em uma eventual continuação – incluindo a história dos pais de Parker. Como se não bastasse, o filme segue a lógica do “meu sacrifício só vale a pena se for reconhecido” (que discuti na segunda parte de meu texto sobre Batman Begins), o que leva o herói a ter sua verdadeira identidade reconhecida por praticamente todos os demais personagens com certa relevância – e até mesmo a promessa feita por Parker é logo adivinhada por alguém a fim de validar a dor de seu esforço.
Ocasionalmente oferecendo alguma imagem mais surpreendente (como a teia que o Aranha tece no esgoto) e divertindo graças a uma ou outra tirada, O Espetacular Homem-Aranha falha ao não se diferenciar de seus antecessores (algo que Nolan fez com seus Batmans), revelando-se, assim, apenas um caça-níqueis feito sob encomenda para atender as necessidades consumistas de fãs que já se mostravam determinados a amá-lo e defendê-lo antes mesmo de entrarem no cinema.
E estimulando, com isso, que o estúdio continue a não fazer o menor esforço para fazer jus ao excelente personagem que tem em mãos.
Observação: Há uma cena adicional durante os créditos finais.
10 de Julho de 2012

Enquanto lida com os mistérios da adolescência, Peter Parker descobre um segredo que seu pai manteve por anos... Um segredo que irá definir seu futuro como o Homem-Aranha.