Críticas por Pablo Villaça

Poster: A Princesa e o Sapo
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
11/12/2009 Unknown
Distribuidora

 

 


A Princesa e o Sapo
The Princess and the Frog

A Princesa e o Sapo

Dirigido por Ron Clements e John Musker. Com as vozes de Anika Noni Rose, Bruno Campos, Keith David, Michael-Leon Wooley, Jennifer Cody, Jim Cummings, Peter Bartlett, Jenifer Lewis, Terrence Howard, John Goodman, Oprah Winfrey.

Assumindo o posto de diretor criativo da Disney Animation depois que o estúdio do velho Walt comprou sua Pixar, o cineasta John Lasseter anunciou, como uma de suas primeiras decisões no cargo, que a empresa iria retomar a produção de longas desenhados à mão – algo que havia sido abandonado em 2004, depois do fraco Nem que a Vaca Tussa. Assim, o cineasta passou a supervisionar a realização deste A Princesa e o Sapo, trazendo algumas de suas tradições na Pixar, como a listagem dos “bebês da produção” (os filhos de membros da equipe nascidos durante o projeto) e as composições de Randy Newman, além de inovar com o anúncio de que pela primeira vez em sua História a Disney iria apresentar uma princesa negra como protagonista. Infelizmente, porém, Lasseter não conseguiu transferir para esta nova empreitada o toque mágico, até agora infalível, da Pixar – e, assim, o filme, embora tecnicamente admirável, revela-se tão decepcionante quanto aquele último trabalho que encerrara o ciclo em 2004.

Isto, no entanto, talvez não devesse vir como uma surpresa, já que os diretores e co-roteiristas Ron Clements e John Musker têm uma filmografia no mínimo decepcionante: depois de estrearem com o mediano O Ratinho Detetive, eles realizaram os ótimos (mas não perfeitos) A Pequena Sereia e Aladdin, finalmente retornando à mediocridade com Hércules e Planeta do Tesouro, dois dos piores longas da história recente da Disney – e aqui eles voltam a atacar embora contassem com uma ótima oportunidade, já que a New Orleans da década de 20, com sua arquitetura típica e sua cultura que inspirou o nascimento do jazz, tinha tudo para se estabelecer como um rico cenário para uma narrativa envolvente e mergulhada em um estilo marcante. Em vez disso, os cineastas desperdiçam a oportunidade ao optar por ambientar boa parte da trama em um pântano e ao criarem personagens sem qualquer personalidade ou atrativos.

Dublada por Anika Noni Rose, a protagonista Tiana é uma jovem que sonha em abrir seu restaurante e, para isso, acaba beijando um sapo que, apresentando-se como um príncipe amaldiçoado (o brasileiro Bruno Campos), promete recompensá-la por um beijo que desfaça o feitiço. Ao beijá-lo, contudo, Tiana se transforma numa rã e a dupla passa a enfrentar vários perigos enquanto é perseguida pelo malicioso Dr. Facilier (David), responsável pela maldição. No caminho, Tiana e o príncipe Naveen se tornam amigos do crocodilo Louis (Wooley), que sonha em tocar jazz com os humanos, do desdentado vagalume Ray (Cummings), que se encontra apaixonado pela brilhante Evangeline sem perceber que esta é uma estrela.

Já de cara é possível perceber que o fato de Tiana ser negra, embora anunciado com grande fanfarra pela Disney, não faz a menor diferença, já que: a) ela passa a maior parte da projeção como rã; e b) a raça não desempenha papel algum na trama, nem mesmo tangencialmente – e acho difícil acreditar que uma garota fútil como sua rica amiga Charlotte (Cody) fosse realmente se tornar tão próxima de uma jovem como a heroína, considerando sua classe social, sua etnia e a época em que o filme se passa. Assim, resta a impressão de que a cultura e as origens de Tiana foram mais uma jogada de marketing da Disney do que fruto de um interesse real em explorar o conceito de uma princesa negra, o que confere uma triste aura de cinismo ao projeto. Para piorar, a personagem é desenvolvida de maneira unidimensional, deixando que sua obsessão pelo trabalho e pelo sucesso alcançado com suor se torne praticamente o único traço a definir sua personalidade.

Por outro lado, Naveen, com seu jeito arrogante e preguiçoso, ao menos consegue divertir moderadamente, ao passo que o crocodilo músico surge mais como um coadjuvante engraçadinho para vender bonecos do que como uma figura realmente integral à narrativa. Ainda assim, ele ao menos é mais interessante que o vagalume Ray e que o subvilão Lawrence (cujo visual, vale apontar, foi claramente inspirado no ator Timothy Spall). E se o Dr. Facilier demonstra potencial para surgir como um grande vilão, protagonizando a única seqüência musical memorável do filme e enriquecendo a paleta da produção com seu universo envolvido em roxo e verde, isto logo se revela uma promessa não cumprida em função da decisão do roteiro de mantê-lo sempre à margem e de não se preocupar em ressaltar suas motivações. Assim, é apenas natural que os personagens mais divertidos do longa sejam os três caçadores que, praticamente figurantes, roubam o filme com sua curta aparição (e reparem, por exemplo, como o piscar de olhos fora de sincronia do maior deles acaba representando uma gag por si só).  

De todo modo, tecnicamente, A Princesa e o Sapo faz jus à tradição do estúdio, já que não só a animação é impecável como a direção de arte é rica em cores e detalhes – incluindo-se, aí, os figurinos, que não só ajudam a recriar a época como também são eficazes no estabelecimento da personalidade daqueles personagens. E já que mencionei a animação, é importante observar como os artistas da Disney sempre demonstram um cuidado extremo com a fluidez dos movimentos e a expressividade de suas criações – e dois momentos que exemplificam bem estas características podem ser vistos no momento em que Charlotte ajeita os seios dentro de seu vestido de festa e naquele em que Facilier, depois de um ato de particular crueldade, passa os dedos casualmente pelo nariz como quem descarta a seriedade do que acaba de ocorrer.

Fragilizado pelas canções pouco inspiradas de Randy Newman (que também demonstra uma preocupante tendência à auto-repetição em sua trilha instrumental, que remete bastante à de Toy Story), A Princesa e o Sapo tem sua ineficácia comprovada através do instante em que certo personagem encontra um fim trágico – um incidente que num filme melhor teria provocado lágrimas certeiras, mas que aqui surge como um recurso artificial e gratuito.

Embora seja ótimo ver as animações tradicionais, em 2D, de volta ao cronograma de produção da Disney, ainda não foi desta vez que John Lasseter conseguiu se estabelecer como um gênio também neste departamento.

Mas não duvido que isso venha a acontecer em breve.

12 de Dezembro de 2009

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.