Críticas por Pablo Villaça

Poster: Atirador
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
23/03/2007 Unknown
Distribuidora

 

 

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Atirador
Shooter

Atirador

Dirigido por Antoine Fuqua. Com: Mark Wahlberg, Michael Peña, Danny Glover, Kate Mara, Rhona Mitra, Elias Koteas, Rade Serbedzija, Ned Beatty.

Como filme de ação ou thriller sobre conspirações, Atirador não oferece absolutamente nada de novo. Sob o ponto de vista político, no entanto, este trabalho de Antoine Fuqua é um indicador inequívoco de uma importante alteração na postura de Hollywood com relação à gestão de George W. Bush: se há três ou quatro anos seria impensável que uma superprodução dos grandes estúdios adotasse uma postura crítica com relação ao governo dos republicanos – algo que seria considerado impatriota ou mesmo como “apoio aos terroristas” -, Atirador deixa claro que a complacência (ou receio) da classe artística chegou ao fim, já que o filme chega a se prejudicar (como discutirei adiante) por sua insistência em criticar o quadro político atual dos Estados Unidos.

Escrito por Jonathan Lemkin a partir do livro de Stephen Hunter, o roteiro tem início com uma ação feita por uma agência norte-americana em um país estrangeiro. Atuando como cobertura para os agentes em retirada, o atirador Bob Lee Swagger (Wahlberg) evita que estes sejam interceptados, mas acaba sendo atacado e testemunhando a morte de seu parceiro depois de ser propositalmente deixado para trás pelo líder da missão. Três anos depois (ou “36 meses”, como prefere informar a legenda), Swagger vive em uma cabana isolada do mundo e evita qualquer tipo de contato social. É então que é procurado pelo coronel Isaac Johnson (Glover), que solicita sua ajuda para tentar evitar um atentado à vida do presidente do país – e, depois de aceitar a tarefa com relutância, o atirador descobre que foi vítima de uma armadilha, passando a ser perseguido pelas autoridades sob a acusação de realmente ter planejado o atentado.

Exatamente como no recente Sentinela, que colocava Michael Douglas em uma situação similar e interessante apenas para perder a força ao desenvolver a trama de maneira implausível, este Atirador funciona muito bem durante o primeiro ato, enquanto apresenta seus personagens e sua premissa, enfraquecendo-se gradualmente ao tornar-se cada vez mais absurdo. Quando o personagem de Wahlberg percebe que foi enganado e passa a ser perseguido, o filme parece prestes a engrenar de vez, mas é então que a preguiça dos realizadores é revelada, retratando a fuga inicial do herói de maneira ofensivamente frágil (ora, devemos aceitar que ninguém iria interceptar uma barca que passou em um rio justamente no momento em que um criminoso se atirou na água?). Assim, à medida que Swagger se transforma em MacGyver, a paciência do espectador vai sendo levada ao limite, já que basta o sujeito entrar em uma caminhonete qualquer e sumir embaixo do painel para que, um segundo depois, o motor comece a funcionar sem maiores explicações – e isto é apenas o exemplo menos absurdo de suas habilidades.

Para sorte do filme, no entanto, durante um bom tempo encaramos as proezas de Swagger como aceitáveis em função da seriedade de Mark Wahlberg ao executá-las: com uma expressão sempre fechada, o ator nos convence da competência e da inteligência de seu personagem, que também se revela um matador impiedoso que não hesita em atirar mesmo nos inimigos já desarmados. Infelizmente, o roteiro insiste em colocá-lo em situações cada vez mais impossíveis, até que finalmente somos forçados a perceber a falta de verossimilhança do que estamos vendo.

E se Wahlberg ao menos procura tornar o protagonista mais interessante, Ned Beatty e Elias Koteas se entregam sem reservas às caricaturas do político inescrupuloso e do psicopata, respectivamente, enquanto Danny Glover – um ator geralmente confiável – adota uma dicção estranha, como se tivesse a língua presa, que acaba distraindo o público e fragilizando seu vilão. Já Michael Peña faz o possível como o “ajudante do mocinho”, mas não consegue se destacar, ao passo que Rhona Mitra comprova mais uma vez seu mau gosto ao escolher projetos, já que tem uma carreira composta quase exclusivamente de bombas (aliás, ela também está em Número 23, que chega aos cinemas brasileiros ao lado de Atirador). Fechando o elenco vem Kate Mara, que, apesar de linda, pouco tem a fazer a não ser assumir o ingrato papel de “donzela em perigo”.

Esquemático do início ao fim, Atirador parece desconhecer o conceito de sutileza – um problema que, ao ser aplicado ao seu discurso político, acaba por enfraquecê-lo de vez. A princípio, quando Mark Wahlberg caminha em direção à câmera tendo uma bandeira dos Estados Unidos ao fundo, cobrindo-a com o corpo ao dominar o quadro, o filme até dá indícios de uma bem-vinda inteligência, como se usasse aquele plano como metáfora da grandeza do personagem diante da pequenez dos dirigentes; infelizmente, esta impressão logo se desfaz, já que o roteiro insiste em martelar suas mensagens na cabeça do espectador, fazendo menções a praticamente todos os tópicos possíveis: a prisão de Abu Ghraib, a hipocrisia flagrante de Donald Rumsfeld, o interesse norte-americano no petróleo do Iraque, e assim por diante – e se há algo que imediatamente boicota qualquer tentativa de educar o público politicamente é permitir que este perceba estar ouvindo um discurso, já que ninguém gosta de ser “doutrinado”. Aliás, esta obviedade de Atirador aplica-se até mesmo à sua referência histórica mais clara, o assassinato de John F. Kennedy: quando vemos os homens do coronel Isaac montando a cena do crime, percebemos que esta lembra bastante o depósito de livros no qual Lee Harvey Oswald supostamente se encontrava ao disparar contra o presidente. Não satisfeito com a discreta referência, porém, o filme logo trata de citar nominalmente Oswald e seu assassino Jack Ruby.

Mas o mais decepcionante é perceber que, depois de se esforçar tanto (até exageradamente) para demonstrar sua maturidade política, Atirador sucumbe a uma conclusão terrivelmente ingênua, contradizendo até mesmo sua própria afirmação de que, num governo corrupto, não há uma “cabeça” a ser cortada – e ao forçar um desfecho dramaticamente “satisfatório”, o filme revela que por trás de toda sua ambição política escondia-se sua verdadeira natureza de diversão puramente escapista.

24 de Março de 2007

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.