Poster: O Plano Perfeito

 

 

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Banner: O Plano Perfeito

Datas de Estréia: Notas:
Brasil Exterior Crítico Assinante Distribuidora
24/03/2006 16/03/2006

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Dirigido por Spike Lee. Com: Denzel Washington, Clive Owen, Jodie Foster, Christopher Plummer, Chiwetel Ejiofor, Willem Dafoe, Jason Manuel Olazabal, James Ransone, Ashlie Atkinson.

O Plano Perfeito é um filme tenso e intrigante que, além de contar com personagens interessantes, confere cores novas ao surrado subgênero “assalto a banco” através de uma estrutura narrativa curiosa que, embora falhe em alguns aspectos, ao menos demonstra que ainda é possível atirar conceitos novos em meio a uma proposta mais do que batida. Além disso, o longa, um dos projetos mais comerciais do cineasta Spike Lee (ao lado do hilário documentário The Original Kings of Comedy), também adquire conotações sociais graças ao olhar sempre afiado que o diretor lança sobre a sociedade norte-americana contemporânea.

 Escrito pelo estreante Russell Gewirtz, O Plano Perfeito traz Clive Owen como o confiante Dalton Russell, que abre a narrativa olhando diretamente para a câmera e afirmando que cometeu o roubo perfeito. A partir daí, acompanhamos o sujeito e seus três comparsas enquanto invadem um grande banco situado em Manhattan (e que certamente conta com uma segurança lastimável) e tomam cerca de 50 pessoas como reféns. Aliás, a ação do grupo é tão ostentosa que a atenção da polícia é atraída em questão de minutos – algo que aparentemente contradiz a afirmação inicial feita pelo assaltante. Ou não? De um modo ou de outro, o prédio logo é cercado e a negociação com os bandidos passa a ser encabeçada por Keith Frazier (Washington), um detetive de segundo escalão que é obrigado a assumir o caso em função das férias do principal negociador de seu departamento. Enquanto isso, o dono do banco assaltado, Arthur Case (Plummer), decide contratar os serviços de uma influente e misteriosa mulher, Madeline White (Foster), a fim de garantir que o conteúdo de uma caixa-forte particular não seja descoberto.

Embora boa parte do charme de O Plano Perfeito venha da dinâmica entre todos estes personagens, Spike Lee também manifesta um interesse particular em acompanhar os procedimentos policiais durante uma situação potencialmente explosiva, desde o estabelecimento de um perímetro em torno do banco até detalhes normalmente pouco vistos em filmes do gênero, como a preocupação do capitão Darius (Dafoe) em incluir a chegada de Frazier e seu parceiro Bill Mitchell (Ejiofor) no livro de relatório do caso. Da mesma forma, o diretor busca ilustrar a estratégia dos assaltantes a fim de confundir os reféns com relação às identidades uns dos outros: para isso, eles obrigam todos a vestirem roupas idênticas e os dividem em várias salas, trocando um ou outro de aposento de tempos em tempos.

Demonstrando divertir-se ao compor seu personagem, Denzel Washington encarna Frazier como um sujeito que não costuma se levar a sério: além das constantes brincadeiras feitas com as testemunhas durante as cenas de interrogatório, o policial adota um estilo de se vestir que não apenas ilustra sua irreverência diante das convenções como sugere um elemento importante de seu caráter: apesar do bom humor, ali se encontra um homem com princípios rígidos (“ultrapassados”, sugere o filme e o figurino), que encara seu trabalho com firmeza e ética inabaláveis. Sob investigação interna em função do desaparecimento de uma alta quantia, Frazier enxerga, em seu novo caso, uma oportunidade fundamental de provar seu valor profissional e sua honra pessoal.

Enquanto isso, Clive Owen cria um contraponto à altura do protagonista, transformando seu personagem em um homem inteligente e excepcionalmente bem preparado que, mesmo acurralado, parece estar sempre no comando da situação – e é impressionante que Owen, mesmo com o rosto coberto por uma máscara durante a maior parte do tempo, consiga exalar segurança, frieza e tranqüilidade em todos os instantes, além de revelar uma forte presença em cena. Jodie Foster, por sua vez, interpreta a figura mais enigmática do filme: qual é a linha de trabalho de Madeline? Aliás, quem é essa mulher que, mesmo odiada pelo prefeito de Nova York, obriga-o a fazer exatamente o que ela deseja? Exibindo firmeza em todas as suas ações e diálogos, Madeline deixa claro para o espectador que é, sem dúvida alguma, o elemento mais imprevisível e perigoso em cena – e que tê-la como inimiga não é algo desejável. Em suma: eu gostaria de ver mais filmes sobre esta personagem.

Mas O Plano Perfeito é mais do que um longa policial; engana-se quem acredita que Spike Lee abandonaria seus comentários sociais simplesmente para dirigir um projeto comercial – basta observar, por exemplo, a cena em que um refém sikh é libertado pelos assaltantes e cercado por policiais que, ao se depararem com sua longa barba e seu turbante, o confundem com um árabe, o que imediatamente desperta o receio de um ataque terrorista. (E é curioso perceber como o capitão vivido por Willem Dafoe logo procura evitar complicações políticas ao tentar convencer o sujeito de que este se enganou ao ouvir a palavra “árabe”.) E não há como ignorar a crítica feita pelo cineasta ao mostrar um garotinho que se diverte com um jogo que obviamente glorifica a violência e o desrespeito à Lei.

Além disso, é impossível atribuir ao acaso o fato da personagem de Foster ter o sobrenome “White” – principalmente ao percebermos que se trata de uma pessoa arrogante que exerce o poder de forma quase brutal, recorrendo ao suborno e ao tráfico de influência sempre que necessário. Ainda assim, talvez a crítica mais pesada feita por Spike Lee em O Plano Perfeito venha a passar desapercebida pela maioria dos espectadores: quando Madeline entra no banco para conversar com os assaltantes, é obrigada a abrir os braços enquanto é revistada – e, neste instante, sua sombra projetada no chão surge assustadoramente parecida com a infame fotografia do prisioneiro iraquiano que, com a cabeça coberta por um capuz negro, surgia em pé sobre uma cadeira enquanto era torturado por militares norte-americanos com choques transmitidos por fios elétricos ligados ao seu corpo. Um toque de mestre de um cineasta muitas vezes condenado pela falta de sutileza de suas declarações políticas.

Prejudicado por alguns problemas em sua trama, O Plano Perfeito é um filme interessante, mas que tropeça vez por outra: sua estrutura, por exemplo, elimina boa parte da surpresa ao incluir flashforwards que revelam o desconcerto da polícia com relação à identidade de bandidos e reféns. Para piorar, há a questão óbvia do conteúdo da caixa-forte do personagem de Plummer: se o que está ali dentro é tão embaraçoso, por que o banqueiro o mantém intacto em vez de simplesmente destruí-lo? Como se não bastasse, o longa parece se arrastar por uns dez minutos a mais do que o ideal, como se o roteirista não soubesse exatamente como encerrar sua história.

De todo modo, este novo trabalho de Spike Lee é suficientemente inteligente e ágil para nos fazer esquecer de seus equívocos esporádicos.

24 de Março de 2006

 

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