Críticas por Pablo Villaça

Poster: Kung-Fusão
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
15/07/2005 23/12/2004
Distribuidora

Direção

Stephen Chow

Elenco

Stephen Chow , Wah Yuen , Qiu Yuen , Zhi Hua Dong , Yu Xing , Kwok-Kwan Chan , Tze Chung Lam , Kai Man Tin , Xiaogang Feng

Roteiro

Stephen Chow

Produção

Stephen Chow

Fotografia

Hang-Sang Poon

Música

Stephen Chow

Montagem

Angie Lam

Design de Produção

Oliver Wong

Figurino

Shirley Chan

Direção de Arte

Second Chan

 

 

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Kung-Fusão
Gong Fu ou Kung Fu

Kung-Fusão

Dirigido por Stephen Chow. Com: Stephen Chow, Wah Yuen, Qiu Yuen, Hsiao Liang, Zhi Hua Dong, Chiu Chi Ling, Yu Xing, Kwok Kuen Chan, Chi Chung Lam, Kai Man Tin, Kang Xi Jia, Hak On Fung, Xiaogang Feng.

Além de Kung-fusão, assisti a apenas um filme do diretor-ator Stephen Chow: o sensacional Shaolin Soccer, no qual ele comandava um grupo de ninjas aposentados em um time de futebol desajeitado, mas bem sucedido. Ainda assim, creio não estar equivocado ao dizer que Chow tem tudo para se tornar o sucessor natural de Jackie Chan no cenário mundial – afinal, ambos utilizam as artes marciais de maneira cômica em histórias simples, mas recheadas de momentos de humor inspirado. A diferença é que, enquanto Chan insiste em realizar suas proezas físicas com um grau mínimo de realidade, Chow não hesita em utilizar efeitos visuais de forma constante, conferindo uma atmosfera muito mais fantasiosa e absurda aos seus projetos.

Em Kung-fusão, por exemplo, o cineasta (e co-autor do roteiro) conta uma história que se passa em Xangai durante a década de 30: dominada pela Gangue do Machado, a cidade encontra-se quase toda sob a tensão da violência, excetuando-se seus bairros mais pobres, que não apresentam atrativos para os bandidos. No entanto, depois que uma dupla de pequenos marginais tenta extorquir dinheiro dos moradores do miserável Beco do Chiqueiro, uma verdadeira guerra tem início entre a Gangue do Machado e os habitantes do local, entre os quais se encontram três antigos `mestres` de uma poderosa seita. A partir daí, os conflitos vão se acirrando com o surgimento de personagens cada vez mais fabulosos e surpreendentes.

Adotando um tom de fábula praticamente desde o início da narrativa, Stephen Chow cria um daqueles universos nos quais as pessoas podem despencar de alturas incríveis sem que, com isso, quebrem um osso sequer – embora obviamente sintam dor. Aliás, Kung-fusão segue a lógica particular dos desenhos animados do genial Chuck Jones, trazendo personagens que correm tão rapidamente que suas pernas se transformam em um borrão de movimento e subvertendo as leis da física para fins cômicos, como ao mostrar uma mulher que, depois de trombar em um outdoor, permanece paralisada por alguns segundos até deslizar lentamente em direção ao chão. Neste sentido, até mesmo os efeitos visuais acompanham essa idéia, assumindo um estilo semi-cartunesco bastante parecido com aquele adotado pelas versões recentes de Asterix produzidas na França.

Dono de um senso de humor interessantíssimo, Stephen Chow recorre constantemente ao absurdo para provocar o riso do espectador. Para o cineasta, não há limites ao buscar a piada mais eficiente: do grosseiro ao sutil, Kung-fusão é repleto de gags visuais que constantemente surpreendem o público – principalmente em função da clara preferência de Chow pelo contraste ao criar sua comédia. Não é à toa que a própria aparência dos `mestres` vistos ao longo da história destoa radicalmente de qualquer imagem prévia que pudéssemos ter de figuras míticas como estas. O diretor sabe que tendemos a achar graça do inesperado, e investe nisso.

Mas não é só no humor que reside a força do filme; as seqüências de ação, coreografadas pelo veterano Woo-ping Yuen (O Tigre e o Dragão, trilogia Matrix, Kill Bill Vol. 1 e Vol. 2), também se revelam brilhantes, tornando-se ainda mais espetaculares graças à ajuda dos efeitos visuais. Mergulhando de forma inequívoca na fantasia do gênero wuxia pian, as batalhas retratadas ao longo de Kung-fusão tornam-se ainda mais intensas graças à falta de limites para o que pode ou não ser feito – e até mesmo um grito pode se tornar arma mortal neste mundo.

Além de repleto de referências a filmes como O Iluminado, Os Intocáveis e Forrest Gump, entre vários outros, este Kung-fusão parece estabelecer outra diferença entre as abordagens de Jackie Chan e Stephen Chow com relação às histórias que os atraem: enquanto Chan aposta sempre no herói solitário (ou naquele que conta, no máximo, com o apoio de um único parceiro), Chow parece mais inclinado a apostar na força coletiva, já que, assim como em Shaolin Soccer, seus heróis agem sempre em equipe.

Inventivo e irreverente, Kung-fusão só não atinge o mesmo nível de seu antecessor em função de seu ritmo irregular, que em alguns momentos parece paralisar a narrativa, e por não conseguir ser tão consistentemente engraçado quanto Shaolin Soccer. Ainda assim, é um filme que surpreende e diverte, o que já é mais do que suficiente para garantir uma recomendação.

14 de Julho de 2005

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.