Críticas por Pablo Villaça

Poster: Todos os Homens do Presidente
Datas de Estreia: Nota:
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Todos os Homens do Presidente
All the President`s Men

Todos os Homens do Presidente

Série Jovens Clássicos #02

 

Dirigido por Alan J. Pakula. Com: Robert Redford, Dustin Hoffman, Jason Robards, Jack Warden, Martin Balsam, Ned Beatty, Hal Holbrook, Jane Alexander, Meredith Baxter, Stephen Collins, F. Murray Abraham e a voz de John Randolph.

 

Não sou ingênuo a ponto de acreditar que, em algum momento da História, a cobertura política feita pela imprensa (nacional ou internacional) foi, de fato, totalmente imparcial. Afinal, comandando as máquinas datilográficas e, posteriormente, os teclados de computador estavam seres humanos com paixões e ideologias próprias – e é claro que, por mais que buscassem ser objetivos (aqueles que buscavam, pelo menos), estes indivíduos dificilmente poderiam deixar de filtrar um ou outro fato de acordo com suas visões particulares. Infelizmente, por mais que isto ocorresse, duvido que o grau de maniqueísmo exibido pelo jornalismo profissional no decorrer dos tempos tenha atingido o nível alarmante de proselitismo que testemunhamos nos anos mais recentes: enquanto nos Estados Unidos o 11 de Setembro transformou a mídia em porta-voz oficial do governo Bush, permitindo que este conduzisse o país a uma guerra baseada em mentiras (algo para o qual muitos acordaram há pouco tempo), no Brasil os grandes veículos há muito adotaram lados claros na política nacional, sem qualquer tentativa de mascarar suas intenções partidárias (e somente isto permitiria que uma revista antes respeitada como VEJA cedesse espaço a aberrações como Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo).

 

Esta destruição da credibilidade do assim chamado “Quarto Poder” (uma expressão que trocou seu caráter nobre de “fiscalizadora” pelo desprezível de “manipuladora”) representa um dos muitos fatores que contribuem para que Todos os Homens do Presidente, realizado em 1976 por Alan J. Pakula, permaneça uma obra atual apesar de girar em torno de um incidente histórico marcante: a investigação conduzida pelos jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, do “Washington Post”, que levou à renúncia de Richard Nixon à Presidência dos Estados Unidos. Em um clima político explosivo, em nenhum momento os repórteres ou seus editores discutem suas ideologias, dedicando-se exclusivamente à apuração precisa dos fatos – e mesmo que o editor-chefe Benjamin Bradlee tenha uma foto de Kennedy em seu escritório e Woodward seja um republicano registrado (revelação que provoca espanto em seu parceiro), a Verdade parece ser a única coisa que interessa de fato ao jornal, que certamente teria se poupado de muitas dores de cabeça caso houvesse simplesmente esquecido o assunto.

 

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Iniciando sua narrativa com a notória invasão ao escritório democrata no hotel Watergate (numa seqüência que traz o vigia Frank Willis interpretando a si mesmo), o belíssimo roteiro escrito por William Goldman a partir do livro de Bernstein e Woodward logo explica como este último, um repórter do caderno policial, veio a se envolver numa investigação mais apropriada à editoria de assuntos nacionais ou de política: surpreso ao constatar que os invasores portavam grande quantidade de dinheiro e contavam com o auxílio de caros advogados, Woodward imediatamente fareja uma história maior por trás do incidente – e é quase por acaso que passa a ser auxiliado por Bernstein, que, embora estivesse mais perto da demissão do que poderia supor, possuía um número razoável de fontes para se tornar fundamental no processo. Ainda assim, é admirável que dois jornalistas relativamente inexperientes viessem a levar Nixon a se tornar o único Presidente norte-americano a renunciar ao cargo (auxiliados, obviamente, pelo misterioso informante “Garganta Profunda”, que direcionou os repórteres aos alvos corretos com seu notório conselho para que estes “seguissem o dinheiro” e que teve sua identidade mantida em segredo por mais de 30 anos, revelando-se apenas em 2005 como William Mark Felt, na época Diretor-adjunto do FBI).

 

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Sem contar com as facilidades oferecidas pelo distanciamento histórico, Todos os Homens do Presidente foi rodado apenas quatro anos depois do escândalo de Watergate e sob uma atmosfera política ainda carregada. Viabilizado principalmente graças à influência de Robert Redford (que por esta razão, num caso raríssimo, surge ao lado do diretor no crédito “Um Filme de”), o filme conta com uma narrativa extremamente complexa, já que apresenta ao espectador dezenas de personagens importantes e uma infinidade de fatos apurados gradualmente pelos dois jornalistas a partir de inúmeras fontes – e tudo com uma clareza impressionante: ao final do longa, podemos até não lembrar dos detalhes da trajetória, mas compreendemos perfeitamente como Woodward e Bernstein chegaram às suas conclusões.

 

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Considerado um dos filmes que melhor retrataram o cotidiano de uma grande redação, Todos os Homens do Presidente ilustra com perfeição o prazer experimentado por aqueles profissionais ao realizarem com competência um trabalho desafiador, mas também a natureza extenuante da tarefa: ao entrevistar alguém, Woodward (Redford) não hesita em fazer as perguntas mais difíceis e tampouco se deixa afastar facilmente, insistindo em suas indagações e cutucando os pontos mais fracos de suas fontes com o objetivo de obter os fatos, chegando mesmo a esperar várias horas entediantes para conseguir trocar algumas palavras com um possível informante. Da mesma maneira, Bernstein (Hoffman) pode ser visto continuamente ao telefone – e quando um novo nome é mencionado, ficamos espantados com a visão de seu bloco de anotações já atulhado de datas, nomes e dados. E se a espetacular montagem de Robert L. Wolfe espelha perfeitamente a frustração de tentar conseguir novas informações na seqüência em que vemos os protagonistas tendo várias portas fechadas à sua frente, a persistência da dupla também é enfocada na cena em que Woodward, de posse de um nome importante sobre o qual não sabe mais nada, vasculha os catálogos telefônicos de dezenas de cidades em busca de um endereço. Mas não só isso: ciente de que a elaboração das matérias é igualmente importante no processo, o filme acompanha até mesmo uma conversa na qual Bernstein aconselha o colega a reestruturar um artigo, trazendo um dado importante para o primeiro parágrafo a fim de salientá-lo.

 

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Buscando conferir ainda mais verossimilhança à narrativa, o diretor Alan J. Pakula realizou, aqui, o melhor trabalho de sua irregular carreira, criando longos planos que se limitam a observar a ação dos personagens na redação, incluindo travellings que percorrem o espaço ao lado dos jornalistas enquanto o barulho ensurdecedor das máquinas datilográficas ao fundo compõem o cenário. Neste sentido, é particularmente digno de nota o plano em que Bernstein tenta extrair informações de uma bibliotecária pelo telefone e que inclui uma longa pausa durante a qual a mulher se mantém em silêncio – algo fundamental para que percebamos que aqueles poucos segundos foram o bastante para que ela sofresse pressão de algum superior para manter-se calada. Além disso, Pakula é hábil ao construir um tom crescente de tensão à medida que os personagens vão percebendo a dimensão assustadora da conspiração que estão expondo.

 

Outro acerto do cineasta reside na utilização eficaz das locações, como na cena que se passa em um terraço e traz Washington ao fundo ou mesmo no plano plongé impressionante que descortina o interior da Biblioteca do Congresso – e a garagem na qual Woodward mantém seus encontros com o “Garganta Profunda” também prima pelo emprego preciso das sombras. Aliás, todo o design de produção de Todos os Homens do Presidente merece aplausos: a recriação da redação do “Washington Post” é fabulosa (e, como já dito, explorada ao máximo pelos travellings de Pakula) e demonstra imensa atenção aos detalhes, desde as manchas na usada máquina de escrever de Bernstein à roda de bicicleta situada ao lado de sua mesa e que ajuda a estabelecer o personagem como uma figura pouco convencional naquele meio.

 

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O desafio enfrentado por Hoffman e Redford nesta produção, vale notar, é imenso, já que a vida pessoal de seus personagens jamais entra na equação: o que importa para o filme é a atuação profissional de Bernstein e Woodward e, assim, as únicas pistas que temos sobre suas personalidades residem nos detalhes das composições dos dois atores. Observem, por exemplo, como Bernstein sempre caminha velozmente, mantendo-se à frente de Woodward, e imediatamente constatarão que aquele é o mais afobado e ansioso dos dois – algo que podemos confirmar no instante sutil em que o segundo rapidamente limpa as cinzas de cigarro derrubadas no sofá de um informante pelo primeiro. Da mesma maneira, ao passo em que Bernstein exibe pouca hesitação ao pressionar suas fontes, Woodward se mostra sempre mais cauteloso e até mesmo respeitoso – e a dinâmica perfeita estabelecida pelas diferenças entre os dois jornalistas pode ser constatada pela maneira com que trocam observações e até mesmo simulam discussões diante dos entrevistados com o objetivo de extraírem mais informações.

 

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Mais importante do que isso, porém, é o fato de que os atores conseguem criar retratos incrivelmente realistas do que significa ser um bom jornalista: Woodward, por exemplo, tem o hábito de perguntar tudo o que lhe vem à mente, mesmo que isto pareça irrelevante (como ao indagar se a casa que um informante tem na Flórida fica em Boca Ratón), ao passo que a habilidade de Bernstein em conseguir novas fontes é ilustrada na cena em que ele visita uma mulher relutante em lhe fornecer quaisquer informações e gradualmente a leva a falar – e quando ela percebe, o repórter já está copiosamente tomando notas (aliás, a atriz Jane Alexander foi indicada ao Oscar de Atriz Coadjuvante basicamente por sua bela atuação nesta única cena). Enquanto isso, Jason Robards converte o editor-chefe do “Washington Post”, Benjamin Bradlee, em um verdadeiro herói ao retratá-lo como o tipo de profissional que toda publicação deveria ter como comandante: quando tem alguma dúvida sobre a solidez das informações fornecidas por seus repórteres, Bradlee não hesita em impedir sua publicação (incentivando-os a fortalecer o trabalho) e, quando confia no que lê, surge como um chefe que sente prazer em guiar seus subordinados rumo à perfeição, cortando e reescrevendo frases, fazendo observações sobre a estrutura da história e tornando-a mais coesa. E é por esta razão – e não por arrogância ou interesses políticos – que ele se sente seguro o bastante para apoiar sua equipe diante da pressão dos poderosos.

 

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E esta deveria ser a base de qualquer bom Jornalismo: a certeza de estar publicando algo factualmente correto em vez de esforçar-se para adequar a verdade aos interesses políticos dos editores e donos das publicações. A função investigativa da imprensa resulta, também, num papel fiscalizador – mas, para isto, a credibilidade do veículo deve ser intocada; o leitor tem que ter certeza de estar lendo um relato preciso e não uma ficção “inspirada em fatos reais”. Se é fato que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades” (uma frase eternizada por Stan Lee ao criar o Homem-Aranha e que foi inspirada por outra dita por Winston Churchill), isto é particularmente verdadeiro no que diz respeito a um Quarto Poder cuja liderança encontra-se dividida entre dezenas de figuras com interesses próprios – e a influência da mídia é simbolizada por dois planos magníficos de Todos os Homens do Presidente, quando vemos Woodward escrevendo ao fundo enquanto, no primeiro plano, um aparelho de tevê nos lembra das repercussões reais que as palavras do jornalista terão sobre o mundo (e tampouco é à toa que Pakula acrescenta sons de tiros e canhões sobre as imagens em que vemos palavras surgirem numa máquina de escrever e no cabograma que encerra o longa, tamanho o peso que aquelas frases carregam).

 

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Sim, é fato que toda sociedade inclui uma boa parcela de alienados (e alguém menciona, durante o filme, que “metade do país diz nunca ter ouvido a palavra Watergate”), mas isto somente aumenta o dever do bom Jornalismo de respaldar suas histórias com a verdade, com fatos – e o uso crescente de fontes “anônimas” é algo terrivelmente preocupante (e Todos os Homens do Presidente oferece mais uma ótima aula de ética neste sentido, já que todas as informações fornecidas por “Garganta Profunda” são corroboradas por mais duas ou três fontes antes de serem publicadas).

 

Influente também do ponto de vista cinematográfico, o longa de Alan J. Pakula viria a inspirar a complexa estrutura narrativa de obras admiráveis como Zodíaco e O Informante, comprovando que, além de contribuir como registro histórico e reflexão sobre a mídia e a ética, Todos os Homens do Presidente é, também, um magnífico exemplar do melhor do Cinema.

 

26 de Novembro de 2007

 

A série Jovens Clássicos tem, como objetivo, homenagear filmes que, apesar de produzidos apenas nos últimos 30 anos, já podem ser considerados como parte fundamental da História do Cinema. Mas se abri a série ferindo minhas próprias regras (Serpico tem 34 anos de existência), agora começo a me aproximar do estipulado, já que Todos os Homens do Presidente tem 31 anos.

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.