Críticas por Pablo Villaça

Poster: Maria Cheia de Graça
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
08/04/2005 02/04/2004
Distribuidora

 

 

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Maria Cheia de Graça
Maria Full of Grace

Maria Cheia de Graça

Dirigido por Joshua Marston. Com: Catalina Sandino Moreno, Yenny Paola Vega, Guilied Lopez, Patricia Rae, Virgina Ariza, John Álex Toro, Wilson Guerrero, Orlando Tobon, Fernando Velasquez, Jaime Osorio Gómez.

Maria Alvarez é uma jovem colombiana que trabalha arrancando espinhos de rosas que serão exportadas por seu miserável patrão. Dividindo uma casa com a mãe, a irmã e o sobrinho ainda bebê, Maria leva uma existência humilde e sem perspectivas de um futuro melhor. Quando descobre estar grávida do namorado (cuja situação financeira é ainda pior, já que mora com dez parentes), a garota percebe que sua vida se tornará ainda mais complicada – e é então que alguém lhe oferece uma pequena fortuna caso ela aceite trabalhar como `mula`.

Em um filme tipicamente hollywoodiano, Maria responderia o convite indagando o significado da palavra `mula`, numa forma rasteira de apresentar o conceito para o espectador. Felizmente, o diretor-roteirista estreante Joshua Marston demonstra inteligência ao compreender que, no universo da moça, todos sabem o que uma `mula` faz: contrabandear drogas utilizando, como esconderijo, o próprio aparelho digestivo. Aliás, esta é uma das grandes forças de Maria Cheia de Graça: na maior parte do tempo, seus personagens se comportam e conversam como pessoas reais que enfrentam situações morais complexas. E, no caso específico da protagonista, a questão-chave é: ela pode se dar ao luxo de ser escrupulosa? Para Maria, esta não é uma decisão que envolve princípios, mas necessidades.

Buscando sempre a autenticidade, Marston dedica um bom tempo do filme ao objetivo de retratar cada detalhe da atividade de `mula`, desde o processo de preparação dos pequenos sacos contendo a droga até a `liberação` do material do outro lado da fronteira, passando até mesmo pela dificuldade da novata em engolir os mais de 60 pacotinhos que irá transportar em seu estômago (uma `refeição` mais exaustiva do que os 50 ovos engolidos por Paul Newman em Rebeldia Indomável). E o mais assustador: não há a menor garantia de que um dos pacotes não vá arrebentar depois de ingerido – e basta que um estoure para que a `mula` esteja imediatamente condenada à morte por overdose.

Aliás, o melhor momento de Maria Cheia de Graça é justamente a longa seqüência que acompanha a viagem de Maria e suas companheiras: tensa e dramática, a jornada das garotas é marcada por contratempos – e devo admitir que, quando uma das moças expeliu alguns saquinhos de droga ainda no avião, fui surpreendido pela solução encontrada para o problema (apesar de lógica, a medida simplesmente não me passou pela cabeça, por razões que você compreenderá ao assistir ao filme). A eficácia da seqüência, diga-se de passagem, transforma Marston em um dos diretores mais promissores dos últimos anos – e espero que seu próximo trabalho comprove seu talento. Observem, por exemplo, a forma com que ele mantém a câmera próxima de seus atores, atingindo um resultado que, mesmo pouco elegante, funciona maravilhosamente bem ao conferir um ar inequívoco de realismo cru à narrativa.

Mas não é só: o cineasta também exibe imensa sensibilidade ao dirigir o elenco surpreendentemente homogêneo, e no qual se destacam Jaime Osorio Gomez, que consegue a proeza de viver o traficante Javier como um homem que, apesar de visivelmente ameaçador, exibe uma curiosa aura de bondade (Gomez também é co-produtor do filme; e Patrícia Rae, como a sofrida imigrante que construiu um lar nos Estados Unidos mas não consegue superar a distância da família. No entanto, o grande nome de Maria Cheia de Graça é mesmo o da estreante Catalina Sandino Moreno, que, além de incrivelmente bonita, revela seu talento ao transformar Maria em uma jovem real e cativante. Adotando um estilo de interpretação contido, que muitas vezes acaba sendo subestimado pela crítica e pelo público, Moreno é uma daquelas atrizes que prendem o olhar do espectador, que, fascinado, mal percebe o sutil trabalho de construção de personagem que está sendo desenvolvido – e somente quando constatamos o amadurecimento da personagem é que percebemos a impressionante jornada interior retratada por sua intérprete.

Pecando apenas por traçar um painel irritantemente romantizado do `sonho americano`, Maria Cheia de Graça perde um pouco de sua força justamente em seus minutos finais, que apresentam como solução algo que, honestamente, provavelmente representará apenas mais um tropeço na trajetória conturbada da personagem-título.
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07 de Abril de 2005

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.