Críticas por Pablo Villaça

Poster: O Código Da Vinci
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
19/05/2006 19/05/2006
Distribuidora

 

 


O Código Da Vinci
The Da Vinci Code

O Código Da Vinci

Dirigido por Ron Howard. Com: Tom Hanks, Audrey Tautou, Ian McKellen, Jean Reno, Paul Bettany, Alfred Molina, Jürgen Prochnow, Jean-Yves Berteloot, Etienne Chicot, Jean-Pierre Marielle.

 

Do ponto de vista estilístico, Dan Brown não é dos melhores escritores: seu texto é desajeitado, repetitivo e pouco elegante. No entanto, seu sucesso editorial não é de todo injusto, já que ele certamente tem talento para conceber tramas intrigantes (mesmo que inverossímeis) e estruturas narrativas rápidas que mantém o leitor sempre curioso para saber o que acontecerá no capítulo seguinte. Assim, ainda que descartável, seu livro O Código Da Vinci (assim como Anjos e Demônios) funciona como um passatempo agradável – e não teria passado desta categoria caso não tivesse despertado a ira de imbecis fundamentalistas que, sempre em busca de uma boa polêmica que lhes traga exposição na mídia, auxiliaram na divulgação justamente de um texto que deveriam ter todo o interesse em enterrar. Com isso, O Código Da Vinci se transformou em fenômeno, embora não tenha sido nem a primeira nem a melhor obra a abordar os temas considerados tabus pela Igreja.

           

Infelizmente, em vez de escalar um roteirista talentoso que fosse capaz de reconhecer as pedras preciosas espalhadas no texto de Brown e descartar o lixo, o cineasta Ron Howard, responsável por esta adaptação para o Cinema, decidiu convidar o picareta Akiva Goldsman para a tarefa, entregando ao autor de Batman & Robin e A Luta pela Esperança (o último e desastroso filme do diretor) a tarefa de condensar um livro repleto de informações em um roteiro de pouco mais de 120 páginas. O resultado é o esperado: O Código Da Vinci revela-se uma produção prolixa e confusa que provavelmente representará um desafio particular para os pobres espectadores que entrarem na sala de projeção sem algum conhecimento prévio do material original. Atiradas de forma quase aleatória ao longo da projeção, as idéias de Brown soam confusas e frágeis, já que Goldsman não se preocupa sequer em amarrar as pontas soltas de sua adaptação, criando buracos que não existiam no livro e, portanto, enfraquecem o filme (como Sophie Neveu (Tautou) descobriu que deveria ir ao Louvre, no início da história?). E, ainda que acerte ao simplificar certos elementos (como ignorar o segundo críptex), o roteirista mantém diversas passagens que deveriam ter sido descartadas já no primeiro tratamento, como a boba conversa entre Langdon (Hanks) e Sir Leigh (McKellen) através do interfone – minutos preciosos que poderiam ter sido investidos em outras áreas da história.

           

Sem saber direito como lidar com um roteiro tão carregado de diálogos, o diretor Ron Howard procura compensar o falatório com as seqüências de ação pontuais, mas até mesmo estas se revelam burocráticas e pouco imaginativas, limitando-se às velhas perseguições de carro e a tiros que passam raspando pelas cabeças dos heróis. Em alguns momentos, o desespero do cineasta para conferir alguma agilidade às longas cenas de exposição chega a despertar pena: observem, por exemplo, como Tom Hanks se levanta durante uma conversa e vai até o canto da sala sem razão alguma a não ser permitir que algum movimento ocorra na tela. Em contrapartida, Howard acerta ao reutilizar alguns dos truques visuais que empregara em Uma Mente Brilhante para ilustrar o raciocínio e as explicações de seu protagonista, como ao destacar letras em uma frase ou ao acrescentar figuras do passado no fundo do quadro.

           

Da mesma maneira, os montadores Daniel Hanley e Mike Hill (colaboradores habituais do diretor) procuram conferir algum ritmo à narrativa através de flashbacks que surgem quase como flashes durante a projeção, oferecendo, em poucos segundos, informações que visam tornar os personagens mais complexos (sem sucesso, como discutirei adiante). No entanto, o máximo que conseguem fazer é criar uma lamentável poluição visual, já que os inúmeros flashbacks (dessaturados e granulados) cruzam o filme desordenadamente sem alcançarem seu objetivo, já que são sintéticos demais para cumprirem seus propósitos. Além disso, Hanley e Hill tropeçam feio ao incluírem uma conversa telefônica em um ponto da trama no qual esta não poderia ter acontecido de forma alguma, resultando em mais um furo da adaptação.

           

Porém, o grande problema de O Código Da Vinci é mesmo o excesso de explicações: todo personagem que surge em cena parece abrir a boca apenas para fornecer mais dados para o espectador. Não há conversas casuais que possibilitem um maior desenvolvimento psicológico daquelas figuras - e, conseqüentemente, estas jamais se tornam pessoais reais, mas apenas bancos de dados. Quem é Robert Langdon, por exemplo? Com exceção de sua claustrofobia, o herói não exibe traço particular algum que o transforme em indivíduo e, com isso, Tom Hanks (embora sempre carismático) torna-se impossibilitado de fazer seu belo trabalho habitual de construção de personagem. Enquanto isso, Audrey Tautou é ainda mais prejudicada pela natureza de sua Sophie, que acaba sendo obrigada a assumir o papel de ligação entre a trama e o espectador, fazendo as perguntas que este faria naquela situação (e a maior parte de suas falas é embaraçosamente artificial, como no instante em que pergunta: “Você tem memória fotográfica?”). E, apesar de Ian McKellen se divertir à beça como o excêntrico Sir Leigh, o único integrante do elenco que consegue realmente criar um personagem com traços mais complexos é Paul Bettany, cujo Silas torna-se uma figura trágica em sua fé irrestrita.

           

E já que estou falando de Fé, é inevitável constatar que o roteiro de Akiva Goldsman, certamente temendo a possibilidade de despertar polêmica similar à gerada pelo livro de Dan Brown, acovarda-se no desenvolvimento de seu tema central e converte o herói (com toda a autoridade que Tom Hanks lhe confere) em um quase defensor da Igreja Católica. Enquanto, no livro, Langdon fazia apenas algumas ressalvas durante as explicações apaixonadas de Sir Leigh, aqui o protagonista chega a se exaltar com os ataques do colega à História do Cristianismo – e, mais tarde, ao conversar com Sophie sobre a natureza de Jesus (Divino ou Humano?), aproveita para tentar minimizar qualquer mal-estar que os acontecimentos precedentes possam ter trazido aos espectadores cristãos (e poderíamos mesmo concluir que ele manipula descaradamente a garota para que esta tome uma determinada – e importante – decisão a respeito do Graal, não?). Como se não bastasse, Goldsman diminui terrivelmente a participação de Sophie durante o filme, transferindo para Langdon várias das ações que, no livro, eram realizadas pela garota – algo no mínimo irônico, se considerarmos que O Código Da Vinci procura resgatar a importância do “sagrado feminino”.

           

Mas a maior e mais nojenta concessão do medíocre Goldsman aos detratores do livro reside na ridícula insinuação de que determinado personagem pode, na realidade, ter poderes sobrenaturais, divinos, miraculosos. É uma idéia que, se normalmente já seria estúpida, torna-se verdadeiramente ofensiva quando aplicada a um conceito que a rebate frontalmente. Não digo, com isso, que acredito na tese defendida por Brown; mas, por uma questão de coerência com o material original, esta deveria ter sido respeitada.

           

Por que assumir um projeto que se tornou célebre justamente por despertar uma enorme polêmica se você não terá coragem de abraçá-la?

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19 de Maio de 2006<-----

 

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.