Poster: Piratas do Caribe - O Baú da Morte

 

 

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Banner: Piratas do Caribe - O Baú da Morte

Datas de Estréia: Notas:
Brasil Exterior Crítico Assinante Distribuidora
21/07/2006 24/06/2006

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Dirigido por Gore Verbinski. Com: Johnny Depp, Orlando Bloom, Keira Knightley, Bill Nighy, Stellan Skarsgård, Jonathan Pryce, Jack Davenport, Kevin McNally, Tom Hollander, Naomie Harris, Mackenzie Crook, Lee Arenberg.

 

Com exceção de uma pequena ponta “sentimental” em A Hora do Pesadelo 6, Johnny Depp jamais havia participado de uma continuação para algum de seus filmes – mas, particularmente, duvido que alguém tenha lhe oferecido a oportunidade de protagonizar um Medo e Delírio 2 ou Edward Mãos-de-Tesoura: Perdido em Nova York. O fato é que, até 2003 (e apesar de seus vários sucessos de crítica), Depp jamais havia estrelado uma produção que tivesse alcançado um sucesso inquestionável de bilheteria – e foi somente com Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra que o ator finalmente tornou-se sinônimo de dinheiro em caixa.

           

Este êxito, aliás, foi mais do que merecido, já que grande parte do charme daquele longa residia justamente na composição corajosamente atípica de Depp, o que me levou, ainda em agosto daquele ano, a prever a possibilidade de uma surpreendente indicação ao Oscar para o ator. Somando-se os sucessos de crítica e público, portanto, era inevitável que uma continuação logo se tornasse realidade – e a boa notícia é que, apesar de claramente motivada por interesses financeiros, Piratas do Caribe: O Baú da Morte é uma aventura deliciosamente divertida que faz jus ao original. Escrito pelos mesmos Ted Elliott e Terry Rossio do primeiro filme, o roteiro já demonstra sua inteligência ao evitar um erro que poderia ter sido facilmente provocado pela repercussão provocada pela performance de Depp em A Maldição do Pérola Negra: transformar o capitão Jack Sparrow no centro do filme. Embora isto pudesse parecer interessante, Sparrow é um personagem que funciona melhor em doses homeopáticas, divertindo justamente por servir a uma trama em vez de se revelar o núcleo da mesma. Aqui, por exemplo, ele é apenas mais um entre os vários personagens que perseguem o cobiçado e misterioso baú do subtítulo, cujo conteúdo pode trazer ao seu detentor um poder inigualável: enquanto procura descobrir o paradeiro do baú (e de sua chave), Sparrow deve lidar com o assustador capitão Davy Jones (Nighy), que alega ter direitos sobre sua alma; com seu velho conhecido Will Turner (Bloom), que precisa do auxílio do pirata para libertar sua amada Elizabeth (Knightley; com o vingativo ex-comodoro Norrington (Davenport), que atribui seu declínio ao fato de não ter conseguido executar Sparrow; e, é claro, com sua própria tripulação, que nem sempre parece estar disposta a seguir cegamente suas ordens.

           

Trazendo diversas subtramas que vão se encontrando gradualmente ao longo da projeção, O Baú da Morte resgata o mesmo clima bem-humorado que transformou o original em uma experiência tão agradável, conseguindo, ainda, incluir um eficiente toque de melancolia através do trágico personagem Bootstrap Bill, pai do mocinho vivido por Orlando Bloom e que, beneficiado pela intensa presença dramática de Stellan Skarsgård, desempenha a importante função de equilibrar um pouco da leveza da trama. Além disso, os ótimos vilões concebidos por Elliott e Rossio levam o espectador a realmente temer pelo destino dos heróis, o que contribui para adicionar uma certa tensão ao processo. O grande trunfo do roteiro, no entanto, reside em sua natureza imaginativa, já que não se contenta apenas em surpreender o público com situações e criaturas fascinantes, preocupando-se, também, em explorá-las ao máximo: quando o gigantesco Kraken aparece pela segunda vez no filme, atacando mais um navio, poderíamos facilmente concluir que a dupla de roteiristas esgotou sua fonte de idéias e passou a repeti-las, mas é então que um determinado personagem, que já havia presenciado o primeiro ataque, utiliza sua experiência para tentar prever o que a criatura fará em seguida, tornando a seqüência mais interessante - e quando o próprio Kraken demonstra rapidez ao lidar com as novas estratégias de suas potenciais vítimas, percebemos que O Baú da Morte está mesmo disposto a manter o espectador sempre incerto sobre o que acontecerá em seguida, o que é ótimo.

           

Boa parte desta incerteza, diga-se de passagem, diz respeito à própria natureza de seu protagonista: egoísta, manipulador e com uma tendência inegável ao mau-caratismo, Jack Sparrow é ainda menos confiável do que o cruel Davy Jones, já que, ao menos, conhecemos as intenções deste último. Irreverente e dono de uma auto-confiança aparentemente inesgotável, Sparrow não pensa duas vezes antes de arriscar o pescoço de quem quer que seja caso isto possa lhe trazer benefícios. “Se, por acaso, for capturado, diga que foi enviado por Jack Sparrow para quitar sua dívida. Isto poderá salvar sua vida.”, ele sugere a alguém, em certo momento – e, por mais maldosa que seja sua intenção, não podemos deixar de rir do charme e, claro, da cara-de-pau com que ele se expressa. E mesmo que a caracterização de Johnny Depp já não conte com o frescor da novidade, é impossível não se deixar encantar pela afetação de seus maneirismos e por sua dicção trôpega, que transformam Sparrow em um tipo único de pirata.

           

Já o casal formado por Keira Knightley e Orlando Bloom se apresenta, desta vez, como um elemento mais integral à trama, tornando-se bem mais interessante do que no original, quando era claramente ofuscado por seus colegas de elenco (que, é preciso reconhecer, trabalhavam com figuras infinitamente mais curiosas). Knightley, em especial, cresce bastante ao longo da projeção, já que sua interação com o pirata de Depp lhe oferece oportunidades dramáticas mais promissoras, ao passo que Bloom, como de hábito, é prejudicado por sua própria inexpressividade. Enquanto isso, os demais personagens prendem a atenção do público em função de suas naturezas fantásticas, como, por exemplo, a enigmática Tia Dalma (Harris) e, é claro, toda a tripulação de Davy Jones. Estas criaturas, por sinal, jamais deixam de impressionar: condenadas a um século de servidão sob o comando do ameaçador capitão, elas gradualmente assumem as características dos seres que habitam o mar, originando desde marinheiros cobertos por algas marinhas e pequenas conchas até o imediato cuja cabeça tem o formato de um tubarão-martelo, passando pelo amaldiçoado Boostrap Bill, que traz a pele carcomida e uma estrela-do-mar eternamente grudada na face (e não devemos nos esquecer do tripulante que, de tão velho, já se tornou parte do próprio navio, integrando seu casco).

           

Mas ninguém é mais fascinante do que o próprio capitão Davy Jones: totalmente criado por computadores a partir da interpretação do ator Bill Nighy (através da técnica de motion capture, responsável por transformar Andy Serkis em Gollum), o pirata estabelece um novo patamar de realismo entre os personagens digitais. Contando com uma pinça de caranguejo no lugar de um dos braços e uma longa barba formada por tentáculos de um polvo, Jones exibe uma presença imponente e palpável, reagindo aos elementos do ambiente, como luzes e fluidos, como se fosse uma criatura de carne-e-osso. Observem, por exemplo, a textura de sua `barba`, os reflexos em sua pele e a forma com que esta responde ao brilho do sol ou simplesmente como se enruga durante os movimentos faciais do vilão. Aliás, os detratores do motion capture, que resistem em reconhecer o valor do trabalho dos atores que se prestam a esta técnica, serão inevitavelmente obrigados a uma retratação depois que assistirem a O Baú da Morte, já que a inconfundível persona de Bill Nighy é claramente reconhecível por baixo da superfície digital de Davy Jones: estão lá todos os seus maneirismos de atuação, como seu constante franzir de sobrancelhas, seus gestos inquietos e, principalmente, seus estranhos movimentos de pescoço, que o levam a menear a cabeça com estranha freqüência. Serkis certamente desapareceu ao criar Gollum e King Kong, mas Nighy, com suas participações em longas como Simplesmente Amor, Anjos da Noite – Underworld, O Guia do Mochileiro das Galáxias e O Jardineiro Fiel, tem trejeitos suficientemente conhecidos do público para que nos surpreendamos com a eficiência da “atuação digital” (e o mais impressionante: o intenso brilho dos olhos de Davy Jones nada tem a ver com a aparência sem vida, vazia, dos olhares das criaturas virtuais de O Homem-Aranha, Final Fantasy e O Expresso Polar). Em um filme recheado de efeitos visuais espetaculares, somente a realização deste vilão já seria o bastante para garantir todos os prêmios técnicos do setor.

           

No entanto, as virtudes técnicas de O Baú da Morte não param por aí: com um design de produção riquíssimo, o filme cria um universo absolutamente sensacional, dos figurinos repletos de detalhes à direção de arte grandiosa, com seus barcos bizarros (o Pérola Negra encontra um rival à altura no navio comandado por Davy Jones, que conta até mesmo com poderosos “canhões triplos”) e fortalezas sinistras. Além disso, o diretor de fotografia polonês Dariusz Wolski mais uma vez coloca em prática sua especialidade e cria um visual sombrio que ressalta a brutalidade da trama conduzida pelo cineasta Gore Verbinski, que combina com segurança invejável a violência daquele mundo com o bom humor do roteiro de Elliott e Rossio. Sempre transitando com destreza por vários gêneros (algo que comentei em meu texto sobre O Sol de Cada Manhã), Verbinski mantém a narrativa sempre em movimento, coreografando as seqüências de ação de forma intensa e inventiva, merecendo destaque o duelo triplo entre Sparrow, Norrington e Turner, que começa como um confronto digno de John Woo (mas com espadas no lugar de armas automáticas) e culmina em uma batalha envolvendo uma gigantesca roda de moinho (!) rolando em uma ilha.

           

É claro que Piratas do Caribe: O Baú da Morte poderia ser mais curto - assim como seu antecessor, ele se tornaria mais enxuto e eficaz com uns 20 minutos a menos -, mas, apesar das “gordurinhas”, o filme jamais se torna entediante ou cansativo. E como foi rodada simultaneamente à terceira parte, esta continuação ainda se dá ao luxo de enviar o espectador para fora do cinema com uma gostosa sensação de curiosidade e expectativa com relação ao próximo capítulo (confesso até mesmo que o último plano do longa despertou lembranças agradáveis do desfecho de De Volta para o Futuro 2). Só espero que Jack Sparrow continue a ser o canalha adorável de sempre.

 

Observação: Assim como em A Maldição do Pérola Negra, há uma pequena cena adicional após os créditos finais. Ela não é realmente importante, mas é engraçadinha.

 

19 de Julho de 2006

 

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