Críticas por Pablo Villaça

Poster: Irmão Urso
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
12/12/2003 01/11/2003
Distribuidora

 

 

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Irmão Urso
Brother Bear

Irmão Urso

Dirigido por Aaron Blaise e Robert Walker. Com as vozes (no original) de Joaquin Phoenix, Jeremy Suarez, Rick Moranis, Dave Thomas, D.B. Sweeney, Joan Copeland, Michael Clarke Duncan, Harold Gould, Brian Posehn e (em português) de Selton Mello, Luiz Fernando Guimarães e Marco Nanini.

Em anúncio recente, a Disney revelou que irá encerrar (ao menos temporariamente) as atividades de seu estúdio de animação tradicional (ou seja: 2D), já que os resultados nas bilheterias não têm sido satisfatórios – ao contrário das produções em 3D realizadas pela Pixar. O que o estúdio responsável por clássicos como Branca de Neve e os Sete Anões, Fantasia e O Rei Leão parece não ter percebido é que o problema não reside na técnica adotada para criar os filmes, mas sim na qualidade de seus projetos. Toy Story 2, Monstros S.A. e Procurando Nemo não se tornaram fenômenos comerciais por terem sido realizados em 3D, mas sim porque respeitavam o público ao narrar histórias inteligentes e divertidas. Atribuir o fracasso de Atlantis: O Reino Perdido à sua técnica é como responsabilizar o diretor de fotografia de Débi e Lóide 2 pela tragédia que aquele longa representa.

Mesmo que a decisão da Disney seja revertida (e estou certo de que será), o fato é que as animações lançadas anualmente pelo estúdio farão falta – e este belo Irmão Urso é prova disso. Dirigido pelos estreantes Aaron Blaise e Robert Walker, o filme se passa na pré-história e conta a história de Kenai, um adolescente que está prestes a passar por uma importante cerimônia de sua aldeia e durante a qual receberá seu totem pessoal (um símbolo de que se tornou um Homem). Porém, depois de descobrir que seu totem é um Urso que representa o Amor, o rapaz fica chateado, já que se torna alvo das gozações de um de seus irmãos, Denahi, enquanto o mais velho da família, Sitka, procura convencê-lo de que Amor é algo tão importante quanto Sabedoria ou Valentia. Quando Sitka é morto ao tentar defender os irmãos de um urso, Kenai resolve matar o animal – um crime grave para sua tribo e pelo qual o jovem recebe um estranho castigo, sendo transformado na criatura. O problema é que agora é Denahi quem decide se vingar, já que julga que o caçula foi morto pelo mesmo urso – e Kenai dá início a uma longa e perigosa jornada para tentar reverter o encantamento.

Um dos elementos mais curiosos de Irmão Urso é a drástica mudança no tom da narrativa a partir do segundo ato: inicialmente, o filme se revela sombrio, triste e pesado, podendo até mesmo incomodar algumas das crianças mais jovens. No entanto, assim que o protagonista se transforma em urso, o próprio esquema de cores da produção é alterado, e a história se torna incrivelmente mais leve e divertida (aliás, até mesmo a razão de aspecto do longa muda - de 1.66:1 para 2.35:1 -, permitindo que o espectador `respire` melhor). E é claro que, a partir daí, o protagonista conhece uma série de personagens engraçadinhos que farão grande sucesso com as crianças (e com os adultos também, por que não?). Entre estes personagens, encontra-se Koda, um adorável ursinho que se torna companheiro de Kenai e pede que este o acompanhe até uma certa `corrida do salmão`. (`Quando eu encontro um caçador, fico muito macho!`, gaba-se o divertido ursinho.)

Sempre experientes em sugerir violência sem, necessariamente, colocá-la na tela, os animadores da Disney fazem mais um trabalho excepcional e repleto de preciosismos, como na cena em que um personagem, frustrado por algum motivo, caminha nervosamente de um lado para outro, e na belíssima seqüência que ilustra a transformação de Kenai (a fluidez das cores é espantosa). Da mesma forma, a dupla de diretores imprime maior tensão nas seqüências em que o herói enfrenta algum perigo através do interessante recurso de simular uma forte movimentação de câmera – algo comum nas produções de ação, mas raro em animações.

E é óbvio que, como toda produção Disney, Irmão Urso aproveita para lançar algumas lições que os pais podem discutir posteriormente com seus filhos, como o preconceito (Homens e Ursos se odeiam) e a importância de se aceitar as diferenças entre as pessoas. Além disso, Kenai é o típico herói das animações do estúdio, já que se sente deslocado entre os amigos e a família e sente necessidade de provar seu valor para estes. Bacana, também, é perceber que o filme não possui vilões: Denahi não é um sujeito ruim; apenas toma uma decisão equivocada em função da própria raiva (outro bom tópico para discussões).

Contando com a boa dublagem de Selton Mello (que, assim como em A Nova Onda do Imperador, empresta sua voz a um personagem que precisa se transformar em animal para reconhecer os próprios erros), Irmão Urso combina comédia e drama de forma eficiente – e muitos dos risos provocados pelo filme se devem ao ótimo trabalho de Luis Fernando Guimarães e Marco Nanin, que conferem dinamismo e irreverência à dupla de alces que cruza o caminho do herói.

É uma pena, portanto, que o estúdio criado por Walt Disney e seu irmão Roy tenha optado por desprezar a animação tradicional justamente depois de realizar mais um excelente trabalho neste formato. E se o nível das produções em 3D da Disney for semelhante ao de Dinossauro (primeira grande tentativa da empresa neste sentido), aposto que o estúdio perceberá seu equívoco mais cedo do que o imaginado.

Observação: Não deixe de conferir a divertida cena que surge depois dos créditos finais.
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12 de Dezembro de 2003

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.