Críticas por Pablo Villaça

Poster: Enrolados
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
07/01/2011 Unknown
Distribuidora

Direção

Nathan Greno , Byron Howard

Elenco

Mandy Moore , Zachary Levi , Donna Murphy , Ron Perlman , M.C. Gainey , Jeffrey Tambor , Brad Garrett , Richard Kiel

Roteiro

Dan Fogelman

Produção

Roy Conli

Música

Alan Menken

Montagem

Tim Mertens

Design de Produção

Douglas Rogers

Direção de Arte

David Goetz

 

 

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Enrolados
Tangled

Enrolados

Dirigido por Nathan Greno e Byron Howard. Com as vozes de Mandy Moore, Zachary Levi, Donna Murphy, Ron Perlman, M.C. Gainey, Jeffrey Tambor, Brad Garrett, Richard Kiel.

Enrolados é a 50. animação produzida pelos estúdios Disney – um número expressivo que é apropriadamente homenageado por uma vinheta especial no início da projeção. Aliás, também é mais do que apropriado que o filme seja protagonizado por uma princesa, já que a empresa se tornou ícone justamente ao retratar personagens do tipo na tela, de Branca de Neve à recente (e fraca) Tiana de A Princesa e o Sapo, passando por Bella, Ariel, Cinderela e, claro, a Aurora de A Bela Adormecida. A boa notícia é que Rapunzel se une às irmãs de título sem passar vergonha, já que surge como uma personagem divertida, interessante e moderna; a má é que o longa que ela ocupa não consegue realizar a mesma façanha.

Escrito por Dan Fogelman (Bolt) a partir da fábula dos irmãos Grimm, o roteiro se mantém fiel a vários dos elementos da história original ao mesmo tempo em que investe em reviravoltas novas que se encaixam de maneira orgânica à narrativa – especialmente no que diz respeito à atualização da própria princesa, que abandona a postura passiva habitual e se apresenta como uma jovem que, confrontada pela impossibilidade de abandonar a torre na qual cresceu, assume o controle da situação ao obrigar o ladrão Flynn Ryder a levá-la para admirar as luzes flutuantes lançadas pelo reino uma vez ao ano. Para isso, ela enfrenta a fúria da cruel Gothel, que a sequestrou na infância e a criou como filha apenas para se manter jovem através do poder contido em seus longos cabelos.

Embora já houvesse tentado investir nas animações computadorizadas no passado (especialmente na época em que a Pixar ameaçou não renovar o contrato de distribuição com o estúdio), a Disney jamais havia alcançado um padrão técnico similar ao da empresa de John Lasseter - e, neste sentido, O Galinho Chicken Little representou um tropeço monumental com seu design de produção rasteiro e animação de personagens trôpega. Começando com A Família do Futuro e Bolt, porém, Lasseter passou gradualmente a imprimir seu rigor técnico aos projetos da empresa, que agora claramente colhe os frutos, já que somente a direção de arte de Enrolados já mereceria fartos aplausos. Concebendo o reino dos pais de Rapunzel como um charmoso e harmônico amontoado de edificações em uma ilha cujo estilo remete aos backgrounds em 2D que o estúdio sempre dominou (e que é apresentado num belíssimo plano plongé), o filme ainda conta com uma excelente fotografia que atinge seu ponto alto numa cena tocante em um lago, à noite, quando as centenas de lanternas voadoras são refletidas na superfície da água ao redor da protagonista. Além disso, a animação de fluidos, sempre um relativo desafio, comprova a evolução técnica da Disney em uma seqüência envolvendo o rompimento de uma represa.

Povoado por personagens expressivos e carismáticos, Enrolados traz Rapunzel como uma jovem de olhos grandes e oblíquos que se tornou capaz de usar seu imenso cabelo como arma e escudo, movendo-se de forma ágil, mas sempre graciosa. Enquanto isso, Flynn (Errol?) surge como um galã trapalhão que, julgando-se muito mais esperto do que é na realidade, conta com uma expressividade que, infelizmente, é completamente sabotada pela patética dublagem em português de Luciano Huck (mais sobre isso em um momento). Por sorte, o filme traz também dois coadjuvantes inspirados: o pequeno camaleão que acompanha Rapunzel e, claro, o cavalo Maximus, que, visualmente devendo muito ao Buck de Nem que a Vaca Tussa, rouba todas as cenas nas quais se encontra. Mas talvez o momento que melhor indique o cuidado dos animadores seja aquele em que a heroína, já no terceiro ato, tenta esboçar um sorriso em meio à tristeza, logo abandonando-o por perceber a futilidade do esforço, e que comunica ao espectador uma infinidade de emoções em um milissegundo.

Aliás, a complexidade das relações entre os personagens é um dos grandes atrativos de Enrolados: a cruel e maniqueísta Gothel, por exemplo, mostra-se especialista em diminuir e oprimir Rapunzel através de ações que, na superfície, parecem indicar intenções opostas, bem-intencionadas (“Só digo isso porque te amo” é uma espécie de mantra do pai cruel). Insistindo em afirmar que ama a garota enquanto suas expressões faciais se mantêm vazias de carinho, a vilã inspira uma curiosa devoção por parte da moça, que chega a se torturar numa divertida seqüência por ter fugido da torre sem a autorização da “mãe”. Da mesma maneira, o filme exibe força dramática em uma curta mas delicada cena envolvendo os pais da princesa e a dor que sentem em função de sua ausência.

Com um roteiro que trapaceia sem necessidade já em sua narração inicial (aliás, toda a narração de Flynn revela-se desnecessária, tendo sido incluída obviamente apenas para não deixar o filme “feminino” em excesso), Enrolados desaponta ainda em sua trilha sonora, já que o veterano Alan Menken, responsável por várias das músicas mais memoráveis da história do estúdio, desta vez não consegue apresentar um único número realmente digno de seus talentos, embora ajudem a mover a história para frente e tenham seu caráter pouco inspirado despistado pela mise-en-scène que os acompanha.

Apesar dos tropeços, porém, esta 50ª. animação da Disney até poderia surgir como um exemplar razoavelmente competente, mesmo que longe de ser um clássico instantâneo, caso não contasse, no Brasil, com um problema incontornável que se tornou ainda mais trágico em função da recusa da Disney em lançar cópias legendadas: a dublagem de Luciano Huck.

Pois o fato é que se o amor tudo conquista (ao menos nas fábulas do estúdio), aqui encontrou um obstáculo intransponível no trabalho de voz de um apresentador de um programa de variedades – e quem poderia imaginar que o sucesso dos vilões Disney estaria não numa maçã envenenada ou numa lâmpada mágica, mas na dublagem de um brasileiro despreparado para a função?

Sua associação com um caldeirão deveria ter alertado os responsáveis pela decisão.

 

Parte 2: Dublagem para os Dubladores

Imaginem A Bela e a Fera se comunicando com as vozes de Doris Giesse e Conrado. Ou Woody e Buzz Lightyear soando como Luiz Thunderbird e Max Fivelinha. Considerando a óbvia motivação por trás da escalação do apresentador Luciano Huck para a dublagem do galã Flynn Ryder em Enrolados, estes cenários seriam perfeitamente plausíveis, já que os quatro nomes citados se encontravam em grande evidência na época do lançamento daqueles belíssimos filmes. (E se não conseguiu se lembrar de nenhum deles, isto indica que você tem menos de 30 anos de idade ou uma memória seletiva como a de Sherlock Holmes, que se orgulhava de não guardar nenhum fato irrelevante na mente.)

Felizmente, porém, o bom senso prevaleceu e profissionais competentes em dublagem responderam pela tarefa fundamental de conferir vida e personalidade a personagens tão importantes (Ju Cassou, Garcia Jr., Alexandre Lippiani e Guilherme Briggs, respectivamente) – e se normalmente sou contra a dublagem de produções com atores de carne-e-osso, sempre abracei sem reservas as vozes brasileiras das animações por acreditar que, afinal, estávamos substituindo o trabalho de um ator por outro (em vez de apenas parte deste trabalho, o que considero um absurdo) e que a seleção destes intérpretes era feita com cuidado e levava em consideração as exigências específicas de cada papel. Até que Bussunda dublou Shrek, Paulo Vilhena protagonizou O Espanta Tubarões, o Pânico na TV chacinou Asterix e os Vikings e a coisa se perdeu de vez – e se não chamo a dublagem de Luciano Huck em Enrolados de “pavorosa” é por não querer ofender o adjetivo em época de reforma ortográfica.

Porque o que os executivos responsáveis pela decisão parecem não perceber é que dublar é muito mais do que dizer as falas traduzidas para o português; até mesmo atores veteranos e talentosos enfrentam dificuldades com a tarefa, já que, além de serem obrigados a conferir espontaneidade e significado aos diálogos, ainda devem recitá-los em sincronia perfeita com os movimentos dos lábios dos personagens – e o que dizer então de não-atores como Bussunda, equipe do Pânico e Huck, que já teriam dificuldade apenas com a composição de seus personagens? Com isso, o que se vê em Enrolados é um Flynn Ryder cujas expressões corporais e faciais denotam uma vivacidade e um dinamismo que simplesmente não encontram reflexo nas palavras sem personalidade que saem de sua boca – e com isso Huck consegue a proeza de desperdiçar todas as piadas e gags protagonizadas pelo sujeito, que se torna um vácuo de carisma na tela.

Mas não culpo o apresentador pelo desastre absoluto representado pela dublagem de Enrolados e que compromete de forma irremediável a versão brasileira, já que isto seria o mesmo que culpar a faca usada por um psicopata para apunhalar alguém (e como pai de filhos pequenos, entendo perfeitamente a tentação de ganhar pontos com a prole ao surgir como (anti-)herói de um filme da Disney). Não, os responsáveis por este crime são aqueles que o convidaram a assumir uma função para a qual não tinha o menor talento, competência ou mínima experiência – e que deveriam ter seguido o exemplo de seus colegas em outros países: basta dizer que se na França o escalado foi Romain Duris, três vezes indicado ao César Awards (o Oscar francês), aqui ficamos presos ao apresentador do “Lata Velha”.

E acreditem: eu gostaria muito de estar exagerando. Aliás, se julgasse possível baixar as expectativas do público a ponto de levá-lo a considerar o trabalho de Huck até razoável, eu afirmaria até mesmo que a dublagem do sujeito é potencialmente letal e capaz de destruir todos os sonhos e esperanças dos espectadores que a testemunhassem – mas, em vez de exagero, creio que isto representaria apenas uma meia-inverdade. (Eu não me surpreenderia caso ela provocasse distúrbios genéticos, por exemplo.)

Mas o mais triste é saber que dentro de 50 anos, quando o nome de Luciano Huck for apenas uma vaga lembrança na mente de meia dúzia de fanáticos pela história da televisão brasileira, tornando inválida até mesmo a motivação para escalá-lo, o filme continuará a existir e a ser prejudicado por sua voz. E quando meus bisnetos perguntarem por que aquele namorado da Rapunzel conversa de forma tão mecânica, artificial e sem graça, responderei apenas: “Não faço idéia. Agora troquem minha fralda”.

E esta será uma tarefa mais agradável para meus descendentes do que continuar a escutar a tortura que é Enrolados em português.

Observação: Clique aqui para conferir um especial sobre as 50 animações da história da Disney.

07 de Janeiro de 2011

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.