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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
24/09/2004 23/07/2004 4 / 5 4 / 5
Distribuidora
Duração do filme
108 minuto(s)

A Supremacia Bourne
The Bourne Supremacy

Dirigido por Paul Greengrass. Com: Matt Damon, Franka Potente, Joan Allen, Brian Cox, Julia Stiles, Karl Urban, Gabriel Mann, Karel Roden, Marton Csokas, Oksana Akinshina.

Já se foi o tempo em que James Bond representava o protótipo do espião internacional. Nos últimos anos, 007 transformou-se em apenas mais um herói de ação capaz de desafiar todas as leis da física com suas proezas. Afinal, onde está aquele sujeito inteligente e frio que agia de maneira calculada (mas impiedosa) e parecia realmente se esforçar física e emocionalmente para alcançar seus objetivos? A resposta: em outra série do Cinema. Ele agora se chama Jason Bourne e é vivido pelo jovem Matt Damon.


Criado pelo escritor Robert Ludlum, Bourne apareceu em um filme pela primeira em 1988, numa produção (que não vi) realizada para a tevê americana, sendo interpretado por Richard Chamberlain. Em 2002, ele ganhou o rosto de Damon no ótimo A Identidade Bourne, no qual buscava, ao lado de Marie (Franka Potente), descobrir mais sobre seu passado enquanto era perseguido pela CIA. Passados dois anos, o ex-espião encontra-se na Índia, depois da `trégua` estabelecida com seus antigos chefes no capítulo anterior. Apesar de atormentado por estranhos pesadelos, Bourne leva uma existência pacífica ao lado de Marie – até que, depois do assassinato de um agente da CIA em Berlim, a agência volta a persegui-lo.

Durão e perigoso, o personagem-título de A Supremacia Bourne fascina por sua competência: sempre preparado para agir, ele parece calcular com incrível rapidez os melhores meios para contornar os obstáculos que insistem em surgir em seu caminho; é como se seus sentidos e sua capacidade de observação tomassem conta de sua consciência, funcionando sem que a mente precisasse ser consultada – e a performance intensa de Damon nos ajuda a acreditar neste improvável `super-homem`. Antecipando os movimentos de seus adversários, Bourne jamais apela para equipamentos mirabolantes ou façanhas que só poderiam acontecer nos filmes: sua melhor arma é estar sempre atento e pronto para entrar em ação.

Ao mesmo tempo, sua expressão concentrada permite que o espectador compreenda que ali está um homem que não deixa nada ao acaso; e, quando percebemos que por trás de suas feições cerradas se encontra um oceano de amargura e remorsos, chegamos à assustadora constatação de que Bourne é mais perigoso do que imaginávamos – e é realmente surpreendente que um rosto tão jovem quanto o de Damon seja capaz de assumir um peso tão grande. Além disso, a curiosa ambigüidade do caráter do personagem dá origem a interessantes perguntas: se tem tanto remorso do que fez no passado, por que tornou-se matador profissional, para início de conversa? Até que ponto sua amnésia representou uma mudança brutal em seu modo de enxergar o mundo? Será que, a partir do momento em que recuperar a memória, Bourne voltará a pensar como um assassino que vê justificativas para todos os seus atos? E, se assim for, será que vale a pena continuar em sua busca por sua antiga identidade?

O melhor da brincadeira é que tais questionamentos vêm embalados em um pacote repleto de ação, tornando tudo ainda mais emocionante e urgente: simultaneamente perseguido pela CIA e por bandidos russos, Jason Bourne jamais encontra um segundo de paz, onde quer que esteja – e quando digo `onde quer que esteja`, pode acreditar: seguindo a melhor tradição das produções estreladas por 007, A Supremacia Bourne inclui cenas rodadas em nada menos que cinco países: Índia, Holanda, Itália, Alemanha e Rússia, conferindo uma atração adicional às aventuras do espião.

Dirigida por Paul Greengrass (uma escolha ainda mais surpreendente do que a de Doug Liman, que comandou o primeiro filme), esta continuação segue a proposta de seu antecessor de manter suas cenas de ação no `mundo real`: aqui, nenhuma luta foi rodada com o auxílio de fios de arame ou `turbinada` através de computadores. Quando Bourne parte para a briga, os golpes soam reais e dolorosos – e a estupenda perseguição de carros que ocorre no terceiro ato da trama consegue o paradoxo de ser perfeitamente crível ao mesmo tempo em que nos leva a pensar: `Incrível!`. (Ainda assim, Greengrass revela possuir o mesmo vício que acomete tantos cineastas atuais, movimentando sua câmera de forma histérica e apostando em uma montagem que, excessivamente frenética, torna algumas seqüências confusas e irritantes.)

Trazendo um ótimo elenco (Joan Allen, em especial, cria uma agente da CIA cuja eficiência nos leva a temer pelo destino do herói), A Supremacia Bourne é um `filme de espiões para adultos` – um gênero que James Bond dominou por muito tempo até que as pesquisas feitas pelo estúdio revelassem que, financeiramente, seria melhor transformá-lo em um herói que atraísse a geração MTV.

Só espero que Bourne também não se renda aos VJs.

23 de Setembro de 2004

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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