Críticas por Pablo Villaça

Poster: 007 - Cassino Royale
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
15/12/2006 Unknown
Distribuidora

 

 


007 - Cassino Royale
Casino Royale

007 - Cassino Royale

Dirigido por Martin Campbell. Com: Daniel Craig, Eva Green, Jeffrey Wright, Giancarlo Giannini, Mads Mikkelsen, Isaach De Bankolé, Jesper Christensen, Ivana Milicevik, Caterina Murino, Judi Dench, Sebastien Foucan.

Pierce Brosnan poderia ter sido um ótimo James Bond. Com um tipo físico imponente e carisma suficiente para encarnar o espião britânico que sobreviveu à Guerra Fria, o ator se saiu bem em suas duas primeiras experiências na série, 007 Contra Goldeneye e 007 – O Amanhã Nunca Morre. Infelizmente, a promessa morreu aí, já que, em seus dois filmes seguintes, Brosnan foi boicotado pela decadência brutal da franquia, culminando no pavoroso 007 – Um Novo Dia para Morrer – indubitavelmente, o pior de todos os longas protagonizados pelo personagem. A esta altura, a série já havia ultrapassado a fronteira do ridículo, incluindo vilões incapazes de sentir dor, fortalezas de gelo, carros invisíveis e até mesmo um Bond surfista gerado por computador. Com isso, os fãs adultos do gênero espionagem migraram sem remorsos para as aventuras de um personagem que lembrava muito o 007 dos tempos de Sean Connery: Jason Bourne, vivido por Matt Damon nos ótimos A Identidade Bourne e A Supremacia Bourne.

Felizmente, 007 – Cassino Royale representa um novo começo (literalmente) para James Bond, esforçando-se, com sucesso, para torná-lo menos absurdo e mais adulto. Escrito pela dupla Neal Purvis e Robert Wade (estranhamente responsáveis pelos dois últimos exemplares da franquia) ao lado do excelente Paul Haggis (Menina de Ouro e Crash), o filme traz o personagem em começo de carreira, desde sua promoção a agente 00 (o que exige que elimine duas pessoas) até sua primeira grande missão. Evitando vilões megalomaníacos que só querem conquistar o mundo e aqueles mecanismos mirabolantes criados pelo setor Q, os roteiristas mergulham Bond em uma aventura que exige principalmente a coragem, a inteligência e a força bruta do herói – e jamais o espião sofreu tanto e esteve tão perto da morte como neste filme (algo curioso, já que sua missão, a princípio, parece inofensiva: derrotar o vilão Le Chiffre num jogo de pôquer, tomando o dinheiro que o sujeito recebera de terroristas internacionais).

A diferença no tom deste novo longa, diga-se de passagem, já pode ser observada durante os elaborados créditos iniciais: se normalmente estes traziam as silhuetas sensuais de mulheres nuas dançando em volta de símbolos fálicos, desta vez as imagens se concentram em lutas e tiroteios. Já a seqüência pré-créditos, que habitualmente retratava Bond em ações espetaculares e explosivas, é substituída por duas cenas discretas que, em preto e branco (e uma delas com uma fotografia crua e granulada), mostram o herói assumindo a fachada fria e cruel que o transformará em um agente tão eficaz. Além disso, o já clássico tiro em direção à câmera surge em um lugar diferente pela primeira vez em 44 anos – e a mudança é bem-vinda justamente por se adequar perfeitamente à lógica da introdução (os preciosistas não devem se preocupar; ele provavelmente voltará à posição original no próximo filme).

Chegando ao seu 21º. capítulo, a série, como não poderia deixar de ser, tem uma cronologia suficientemente bagunçada – e, embora represente a primeira aventura de 007, a história se passa nos dias de hoje. Assim, tentar estabelecer uma lógica interna na franquia é um exercício de futilidade, afinal, como Judi Dench poderia interpretar M no início da carreira do espião se este só viria a ser comandado por uma mulher em sua 17ª. aventura, 007 Contra Goldeneye? E por que Bond ainda não conhece Felix Leiter, já que ambos já haviam trabalhado juntos, por exemplo, em 1962, em O Satânico Dr. No (e, vale lembrar, o agente britânico vingou o atentado à vida de seu colega norte-americano em 007 – Permissão para Matar)? E onde estão Moneypenny e Q, duas figuras sempre presentes no quartel-general do MI6? Nada disso deve ser levado em consideração; incoerências deste tipo são mais do que esperadas (aliás, são inevitáveis) em séries longas como esta e, portanto, exigem nossa compreensão.

E o que realmente importa é que 007 – Cassino Royale é uma aventura espetacular: repleto de seqüências de ação fabulosas, o filme consegue até mesmo a proeza de transformar uma perseguição a pé em algo surpreendente graças às técnicas do parkour, esporte moderno que também rendeu momentos geniais em B13 – 13º Distrito e Ong Bak: O Guerreiro Muay Thai. Da mesma forma, os confrontos no aeroporto e em Veneza são intensos e montados com energia – e até mesmo a luta entre Bond e dois terroristas na escadaria de um hotel funciona muito bem, embora tenha sido incluída claramente com o propósito de agitar um pouco a trama depois de várias cenas envolvendo uma partida de pôquer (e já que mencionei o jogo, devo dizer que o recurso de trazer Giancarlo Giannini explicando o que está acontecendo para a mocinha – e, claro, para o espectador – é artificial, embora, reconheçamos, inevitável).

Voltando à série depois de comandar 007 Contra Goldeneye, o cineasta Martin Campbell jamais permite que o ritmo da narrativa diminua e faz questão absoluta de ressaltar as conseqüências dos riscos assumidos por todos: assim, ele inclui um close angustiante de um homem enquanto este morre nas mãos do herói e também valoriza a tensão da cena absurda, mas eficaz, na qual o próprio Bond quase sucumbe a uma tentativa contra sua vida. Além disso, o diretor dedica boa parte da projeção para desenvolver a personalidade e retratar os métodos investigativos do protagonista, buscando, no processo, demonstrar que 007 é também um ótimo detetive. Enquanto isso, o compositor David Arnold, em sua quarta participação na série, cria uma trilha que demonstra coragem e discernimento ao guardar o clássico tema criado por Monty Norman para momentos que ilustram o surgimento de características marcantes do personagem, como, por exemplo, a primeira cena na qual este surge usando smoking.

Mas Cassino Royale também não decepciona no que diz respeito ao seu elenco: evitando as caricaturas dos últimos filmes, Mads Mikkelsen encarna um vilão que jamais se esforça para provar que é mau; em vez disso, é a covardia que determina suas ações (e transformar Le Chiffre em asmático é um toque interessante que ajuda a tornar o personagem mais real). Já Eva Green transforma Vesper Lynd em uma bondgirl que consegue desafiar a segurança habitual de Bond graças à sua inteligência, ajudando a estabelecer uma dinâmica repleta de química entre o casal e levando o público a acreditar que aquela mulher seria realmente capaz de encantar o herói com mais intensidade do que suas demais amantes.

O que nos traz, finalmente, a Daniel Craig: embora não conte com uma beleza tradicional como a de seus antecessores, o ator confere a James Bond um ar de virilidade inegável: surgindo sempre suado (mesmo em cenas mais calmas), Craig é um 007 violento que encara suas missões com intensidade e persistência – algo que já fica evidente na perseguição que citei há pouco. Impulsivo e temperamental, este novo Bond é um homem calcado no mundo real e dotado de um cinismo que elimina qualquer aspecto fantasioso que o personagem pudesse ter (uma abordagem também adotada por Christian Bale em Batman Begins). Mas o mais importante é que, pela primeira vez desde que Sean Connery matou friamente o desarmado professor Dent em O Satânico Dr. No, um intérprete de 007 demonstra não ter medo de encarnar as facetas menos atraentes do personagem: há algo de psicótico nas ações do agente de Daniel Craig – e também algo de masoquista, como podemos observar em uma cena-chave do longa (durante a qual ele também demonstra bravura e um senso de humor admiráveis).

E isto, afinal de contas, é mais do que apropriado, já que estas são características que também ajudam a torná-lo tão competente como agente secreto. Aliás, há uma conversa entre Bond e Lynd, a bordo de um trem, que resulta numa das cenas mais reveladoras de toda a série no que diz respeito à personalidade do protagonista: ao discutir o passado do espião, a garota comenta que o MI6 normalmente busca recrutar jovens desajustados e solitários que não hesitariam em sacrificar quem quer que fosse para proteger “a Rainha e o país”.

Alongando-se um pouco mais do que o ideal em seu ato final, 007 – Cassino Royale é, ainda assim, um dos melhores exemplares da série, ao lado de Moscou Contra 007 (ainda o melhor), 007 – A Serviço Secreto de Sua Majestade (que, apesar do desengonçado George Lazenby, desenvolve maravilhosamente o personagem) e 007 – Permissão para Matar (no qual Bond volta temporariamente a exibir a frieza dos velhos tempos). E não duvido que, caso a franquia mantenha o tom deste 21º. filme, finalmente teremos um ator capaz de desafiar a posição que Sean Connery manteve com facilidade nas últimas quatro décadas: a de melhor intérprete de James Bond.

13 de Dezembro de 2006

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.