Críticas por Pablo Villaça

Poster: Extermínio
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
25/07/2003 Unknown
Distribuidora

 

 

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Extermínio
28 Days Later

Extermínio

Dirigido por Danny Boyle. Com: Cillian Murphy, Naomie Harris, Megan Burns, Christopher Eccleston, Noah Huntley, Marvin Campbell e Brendan Gleeson.

Poucas coisas são tão assustadoras quanto a imagem de uma grande cidade completamente abandonada. Visto recentemente em filmes como O Advogado do Diabo, Preso na Escuridão e Resident Evil – O Hóspede Maldito, este cenário é justamente o que o protagonista de Extermínio encontra depois de sair de um coma prolongado. Andando pelas ruas vazias de Londres, Jim (Cillian Murphy) percebe que algo de terrível ocorreu enquanto estava inconsciente, já que há carros abandonados (e capotados) por toda a cidade e corpos jogados no meio da rua. E o que é pior: as únicas pessoas vivas que ele encontra comportam-se como verdadeiros zumbis, perseguindo-o com o propósito de, aparentemente, devorá-lo (na verdade, elas foram infectadas por um vírus que se espalha rapidamente). Para manter-se com vida, Jim acaba se unindo a três outros sobreviventes sadios enquanto procura encontrar uma saída para aquela situação enlouquecedora.

Apesar de possuir uma premissa que lembra, em parte, a de filmes como Mortos que Matam e sua refilmagem, A Última Esperança da Terra, Extermínio demonstra ser uma produção ambiciosa ao se concentrar menos no ataque dos `zumbis` e mais no efeito que a devastação do mundo provoca em seus personagens. Em certo momento, por exemplo, os heróis experimentam uma imensa felicidade ao avistarem alguns cavalos galopando ao longe, recobrando as esperanças de sobrevivência simplesmente em função da presença de um outro organismo vivo no planeta. Da mesma forma, a narrativa faz pausas constantes para criar momentos mais intimistas, como ao enfocar o prazer infantil de Jim e seus companheiros enquanto percorrem um supermercado abandonado. Em cenas como esta, os protagonistas discutem de forma inteligente os problemas que enfrentam, questionando o valor de uma vida que não pode ser aproveitada inteiramente, já que o medo e a superioridade numérica dos zumbis representam uma sombra constante no cotidiano de todos. Além disso, há a trágica constatação do fim da evolução de nossa espécie – algo que alguém lamenta ao dizer: `Você jamais lerá um livro que já não tenha sido escrito ou verá um filme que já não tenha sido rodado`.

Curiosamente, Extermínio também explora um tema que o diretor Danny Boyle já havia estudado em seu trabalho anterior, o regular A Praia: como as pessoas se comportam em uma sociedade sem um governo claramente estabelecido? Será que, na ausência de leis e de autoridades, nós retornaríamos a um estado de primitivismo, ignorando todas as condutas básicas de civilidade com as quais já nos acostumamos? Nos dois filmes, a anarquia acaba conduzindo a um `regime` totalitarista e cruel: se, em A Praia, nós víamos um sujeito que era abandonado para morrer no meio da selva, em Extermínio vemos a degradação moral de vários personagens que usam a força para conseguir o que querem (é só o que posso dizer, já que não pretendo revelar detalhes importantes sobre a trama). Assim, não é coincidência perceber que o roteiro deste filme foi escrito justamente por Alex Garland – autor do livro que deu origem ao projeto estrelado por Leonardo DiCaprio. Aliás, Extermínio também procura demonstrar que os seres humanos, em determinadas situações, podem se comportar de forma mais animalesca do que os `zumbis devoradores de carne`, mas, infelizmente, o roteiro acaba se tornando óbvio demais em sua pregação, impedindo que tiremos nossas próprias conclusões.

Mas não pense que, por se concentrar em temas mais sérios, o filme falha como autêntico exemplar do gênero `terror` – ao contrário: justamente por desenvolver melhor seus personagens, Extermínio se torna ainda mais tenso, mantendo o espectador constantemente preocupado com o destino dos heróis. Algumas seqüências, aliás, nada deixam a desejar com relação ao apavorante A Noite dos Mortos Vivos – com a diferença que, ao contrário do clássico dirigido por George A. Romero, os zumbis deste trabalho de Danny Boyle se movem com uma incrível rapidez (o que dá origem a um cena sensacional que se passa no interior de um túnel).

Rodado com câmeras digitais (o que confere um tom ainda mais realista e sombrio à história), este é um `filme de zumbis` mais do que apropriado para este novo milênio. Em um mundo ameaçado por guerras estúpidas (perdoem-me pelo pleonasmo), epidemias aterrorizantes (como AIDS e SARS) e bandidos cada vez mais cruéis, Extermínio acaba funcionando não apenas como `terror`, mas também como triste alegoria de nossa realidade atual.
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26 de Junho de 2003

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.