Críticas por Pablo Villaça

Poster: Náufrago
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
23/01/2001 22/12/2000
Distribuidora

Direção

Robert Zemeckis

Elenco

Tom Hanks , Helen Hunt , Nick Searcy , Chris Noth , Lari White

Roteiro

William Broyles Jr.

Produção

Robert Zemeckis

Fotografia

Don Burgess

Música

Alan Silvestri

Montagem

Arthur Schmidt

Design de Produção

Rick Carter

Figurino

Joanna Johnston

Direção de Arte

Elizabeth Lapp

 

 

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Náufrago
Cast Away

Náufrago

Dirigido por Robert Zemeckis. Com: Tom Hanks, Helen Hunt, Nick Searcy, Christopher Noth e Lari White.

Há um filme belíssimo escondido em Náufrago. Infelizmente, ele está enterrado no meio de duas extremidades que deixam muito a desejar. Caso o primeiro e o terceiro atos desta produção fizessem jus ao brilho do segundo (ambientando na ilha), Náufrago certamente se tornaria um clássico instantâneo, provavelmente um novo A Felicidade Não Se Compra - e, todos os anos, famílias se reuniriam em volta da TV para assisti-lo em época de festividades.

Pois o fato é que há uma mensagem tocante a ser aprendida aqui: o que nos faz felizes? Qual é o objetivo final de nossas vidas? Dinheiro? Realização profissional? Amor? Ou seguimos vivendo de maneira tão automática (e automatizada) que nem prestamos atenção ao que está acontecendo ao nosso redor? `Nós vivemos e morremos segundo o relógio`, afirma o protagonista de Náufrago em certo momento - e, infelizmente, ele tem toda a razão. Assim, é realmente interessante quando vemos Chuck Noland (Hanks), um homem que pode ser encarado como um cronômetro ambulante, preso em uma ilha deserta depois de um acidente de avião e longe dos compromissos, do trabalho, das pessoas amadas e dos relógios (excetuando-se um, que não funciona e é mantido por puro valor sentimental, já que foi um presente de sua noiva. Aliás, há um maravilhoso simbolismo neste objeto, já que ele traz a foto da garota: afinal, foi a obsessão de Chuck com o tempo que o fez perdê-la).

Sem ter como escapar da ilha em que foi `aprisionado`, Chuck é obrigado a reavaliar suas prioridades e descobre que, ao contrário do que imaginava, seu absoluto controle sobre os acontecimentos era apenas ilusório: o tempo, que sempre lhe pareceu curto, é tudo o que ele tem agora. Perdido em um ambiente hostil, ele volta ao terror da infância, onde qualquer barulho estranho pode representar um perigo e tudo o que acontece é, de certa forma, uma descoberta. Aos poucos, ele vai se adaptando a esta nova realidade e percebe que pode sobreviver (há algo de comovente - e primitivo - na alegria demonstrada por ele ao conseguir criar uma fogueira). No entanto, agora que já garantiu sua sobrevivência, o que fazer com sua vida? Acordar, pescar, comer e dormir - e só?

Como forma de diminuir um pouco a solidão, Chuck começa a conversar com uma bola-de-vôlei que estava em um dos pacotes localizados em seu avião. Do ponto-de-vista narrativo, Wilson (como ele batiza a bola) é o melhor achado de Náufrago: além de permitir que o espectador descubra o que está passando pela cabeça de Chuck (sem ter que apelar para o artificial recurso do Narrador), este novo `personagem` acaba funcionando como uma espécie de `termômetro` para o desespero e a solidão do sujeito. Assim, não ficamos espantados quando Chuck passa a imaginar que a bola também participa de suas conversas. No entanto, Wilson não é apenas um bom recurso narrativo; é, também, um fantástico recurso dramático: aos poucos, passamos a nos importar com a bola como se ela tivesse vida e sentimentos (na verdade, fiquei mais interessado no relacionamento entre Wilson e Chuck do que naquele entre Chuck e sua noiva).

É claro que boa parte de nosso `apego` à bola deve-se à excepcional atuação de Tom Hanks: é sua ligação com Wilson que nos leva a acreditar na importância deste (ou desta, não sei). Além disso, o ator preenche a tela com sua presença - e seu desespero e sua solidão são palpáveis como uma pedra. Hanks perdeu mais de trinta quilos a fim de evidenciar o sofrimento físico imposto ao seu personagem ao longo dos anos, mas sua atuação não se restringe à alteração de peso: seus olhos também transmitem com propriedade a desesperança e o cansaço de Chuck. Sozinho em cena durante a maior parte da projeção, Hanks sustenta o filme com facilidade - e, não hesito em dizer, produz a melhor atuação de sua carreira.

Já a direção de Robert Zemeckis é incrivelmente instável: apesar de fazer todas as escolhas corretas na longa seqüência situada na ilha deserta, ele se perde visivelmente na conclusão da trama, como se já não tivesse interesse no que está para acontecer (o que é compreensível, pois o desfecho criado pelo roteirista William Broyles é, na melhor das hipóteses, medíocre). Seja como for, Zemeckis deve ser aplaudido por sua inteligente (e corajosa) decisão de não complementar o segundo ato de Náufrago com trilha sonora - algo que qualquer outro cineasta acabaria fazendo (e o que é pior: possivelmente a tal trilha acabaria sendo premiada). Ao acompanhar silenciosamente as desventuras de Chuck, o diretor intensifica ainda mais a sensação de solidão transmitida pelo filme, o que demonstra sua inteligência. Aliás, também devo destacar a ótima fotografia de Don Burgess, que realça com precisão a beleza da ilha em que a história foi rodada.

É realmente uma pena que o terceiro ato de Náufrago seja tão decepcionante e que William Broyles tenha comprometido seu bom trabalho no intuito de fazer o espectador sair do cinema com uma sensação de `final feliz` (o que nem sempre é sinônimo de um bom filme). Ao tentar `amarrar` a história de maneira excessiva (chegando a utilizar o velho recurso de ligar a primeira cena à última), ele sacrifica boa parte do impacto provocado pelo segundo ato da trama e, com isso, comete um pecado ainda maior: transforma Chuck Noland, que praticamente se tornara uma pessoa de carne-e-osso, em mais um simples personagem criado pelas lentes unidimensionais de Hollywood.
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27 de Janeiro de 2001

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.