Críticas por Pablo Villaça

Poster: Todos Dizem Eu Te Amo
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
27/03/1997 03/01/1997
Distribuidora

 

 


Todos Dizem Eu Te Amo
Everyone Says I Love You

Todos Dizem Eu Te Amo

Dirigido por Woody Allen. Com: Alan Alda, Goldie Hawn, Woody Allen, Julia Roberts, Edward Norton, Drew Barrymore, Nathalie Portman, Lukas Haas e Tim Roth.

É impressionante a capacidade que Woody Allen tem de surpreender até seus fãs mais fiéis. Apesar de fazer sempre o mesmo tipo como ator, parece não haver fronteiras que limitem sua imaginação de roteirista ou seu invencionismo como diretor.

Em Todos Dizem Eu Te Amo, Allen faz uma bela e divertida homenagem aos musicais. Seus personagens são pessoas comuns que têm a estranha mania de cantar nas horas mais impróprias (exatamente como nos musicais tradicionais). A diferença, aqui, é que muitos deles não sabem cantar.

Bob (Alda) é o chefe de uma família da classe alta de Nova York. Sua esposa, Steffi (Hawn), sente culpa por ter tanto dinheiro e passa a vida inventando novos meios de fazer caridade, como, por exemplo, conseguir a liberdade condicional de um perigoso bandido (Roth). Bob é um sujeito liberal, simpático e, assim sendo, tem grande amizade pelo ex-marido de sua esposa, o complicado Joe (Allen), um homem que é sistematicamente abandonado por todas as suas namoradas.

É quando Bob e Steffi resolvem arranjar uma nova namorada para Joe. Depois de várias idas e vindas, este resolve conquistar a bela Von (Roberts), numa das melhores seqüências do filme. Aliás, este personagem (Joe) me lembrou muito um outro personagem interpretado por Woody Allen em Sonhos de um Sedutor: Allan Felix, um crítico de cinema que também estava sempre em busca do amor.

As cenas musicais são o ponto alto do filme, como não poderiam deixar de ser. É extremamente divertido ver atores que, sem nenhum talento musical, se põem a cantar como se fossem Gene Kelly ou Barbra Streisand. É como na vida real: os personagens não conseguem conter suas emoções e as traduzem em forma de música. As coreografias também são hilárias: os atores, atrapalhados, tentam seguir os passos de dançarinos profissionais que compõem as cenas.

Duas cenas em particular me impressionaram (o fator surpresa que mencionei antes): a seqüência em que vários fantasmas dançam, enquanto cantam as virtudes em aproveitarmos a vida enquanto podemos; e a dança de Woody Allen e Goldie Hawn em Paris.

A primeira me espantou por ser a primeira vez que Allen cria uma cena em que os efeitos digitais são a atração. É certo que, em Zelig, ele utilizou alguns efeitos para mixar imagens suas com as de celebridades (como em Forrest Gump), mas grande parte do mérito de Zelig cabe à edição. Já em Todos Dizem..., ele utiliza efeitos criados em computador para criar uma seqüência fantástica, com resultados cômicos. É como Chaplin em O Grande Ditador: o gênio cede à tecnologia e a utiliza como nenhum outro a utilizara antes.

Já a segunda seqüência, a da dança de Allen e Hawn, me impressionou pela sensibilidade e precisão com que foi dirigida. Os dois personagens saem, meio embriagados, e acabam encontrando um local que foi importante para ambos no passado. Emocionados, cantam e dançam, enquanto Hawn flutua, leve e feliz. Allen sempre se mostrou um diretor sensível, mas aqui ele se supera.

As atuações são de primeiro nível, como em todo o filme deste brilhante diretor. Porém, Goldie Hawn e Alan Alda se destacam um pouco mais do que o restante, especialmente este último. O roteiro é leve, divertido, e, seguindo a marca `Woody Allen`, trata de neuroses e inseguranças que já são presença obrigatória em seus filmes: a busca pelo parceiro ideal; as constantes decepções amorosas; a morte, etc.

Todos Dizem Eu Te Amo traz, ainda, uma homenagem a um dos melhores humoristas da história do cinema: Groucho Marx. Aliás, já era de se esperar que Allen tivesse como ídolo o irreverente líder dos irmãos Marx (algo que ele já demonstrou em vários de seus trabalhos). E não duvido que, se Groucho anda vivesse, bateria palmas de pé para este que é um dos melhores filmes de Woody Allen. 
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27 de Outubro de 1997

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.