Críticas por Pablo Villaça

Poster: As Duas Faces De Um Crime
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
31/05/1996 03/04/1996
Distribuidora

 

 


As Duas Faces De Um Crime
Primal Fear

As Duas Faces De Um Crime

Dirigido por Gregory Hoblit. Com Richard Gere, Laura Linney, Edward Norton, Frances McDormand, John Mahoney, Alfre Woodward.

Existem vários ingredientes importantes (mas não indispensáveis) para se fazer um bom filme: uma trilha sonora adequada; uma edição inteligente; uma bela fotografia; um diretor razoável. Muitas vezes até o roteiro é `dispensável` (Debi e Lóide é uma comédia excelente e, no entanto, não tem história alguma). Mas um dos `ingredientes` mais importantes é um elenco certo nos papéis certos (Debi e Lóide novamente cabe como exemplo). E As Duas Faces de um Crime tem, justamente no elenco, sua maior arma.

Richard Gere interpreta Martin Vail, um advogado narcisista e arrogante. Ele tem certeza absoluta de que é o máximo, e age de acordo com esta crença em si mesmo. Para ele, o mais importante em uma causa não é o cliente, mas sua própria performance no tribunal (`Eu falo. Você, não. Tudo o que tem a fazer é ficar sentado e parecer inocente.`, diz ele em certo momento). Eis aí um dos maiores trunfos do filme: Richard Gere fazendo o que melhor sabe fazer - personagens confiantes, totalmente certos de que, a um piscar de olhos, todas as mulheres do aposento irão cair por ele. Alguns dizem que, neste filme, Gere tem uma `inspirada atuação`. Eu, confesso, vi apenas um Lancelot de cabelos curtos e paletó. Mas tudo bem: coube como uma luva para o personagem.

Continuando: Martin Vail não perde uma oportunidade de aparecer. Seja concedendo extensas entrevistas, seja pegando casos polêmicos - a verdade é que ele adora estar sob os holofotes. E mais uma oportunidade para tanto surge quando um arcebispo bastante querido na comunidade é brutalmente assassinado com 78 facadas e um jovem coroinha que estava sob os cuidados da vítima é acusado do crime. Assim que percebe o potencial publicitário da causa, Vail se oferece para defender o rapaz pro bono, isto é, gratuitamente.

Aaron Stampler, o jovem coroinha, é um rapaz tímido, gago, e que passa a confiar total e cegamente no advogado. Tem um olhar franco e quer a todo custo fazer com que Vail acredite que é inocente. `Eu não tenho que acreditar em você!`, é a resposta irritada do advogado. `Eu não me importo se você é inocente. Eu sou sua mãe, seu pai e seu confessor.` No entanto, à medida em que se aprofunda no caso, Vail começa a acreditar que o jovem realmente diz a verdade.

E aqui falta o toque de um bom diretor. Em nenhum momento o espectador é informado do que leva o advogado a mudar sua opinião. É uma alteração brusca e inverossímil de comportamento, e um dos pontos fracos do filme. Mas tudo bem, novamente: esta alteração era fundamental para que o nosso herói pudesse passar a investigar profundamente o crime, fazendo as vezes de detetive, o que, afinal, é o objetivo principal da história.

Um outro ponto fraco do filme é o envolvimento, totalmente desnecessário para o desenvolvimento da trama, entre Vail e a promotora Janet Venable (Linney). Mais uma vez vence um velho clichê de Hollywood: se um homem e uma mulher são obrigados a se enfrentar (seja em um tribunal, seja em uma corrida de sacos), eles inevitavelmente já foram amantes no passado ou então serão amantes no futuro. Mas tudo bem, mais uma vez: os roteiristas (Steve Shagan e Ann Biderman) não perdem muito tempo com este subtema, se preocupando mais com a batalha travada no tribunal.

Mas o ponto mais forte do filme, o detalhe que salva toda a estrutura da trama é a interpretação (esta sim `inspirada`) de Edward Norton, como o réu Aaron Stampler. Não posso dizer muita coisa, sob o risco de estragar a surpresa, então limito-me a comentar o que a Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood já se encarregou de observar: Norton é um jovem promissor de quem devemos ouvir falar bastante. Frances McDormand (de Fargo) também está ótima como a psiquiatra Molly Arrington, assim como John Mahoney faz de seu John Shaughnessy um `vilão` à altura (o que não faz dele necessariamente um assassino, devo acrescentar).

Em suma: As Duas Faces... é mais um filme de tribunal repleto de reviravoltas, testemunhas-surpresa, diálogos fortes e advogados brilhantes. Não chega a ser um Testemunha de Acusação (que, aliás, lembra ligeiramente), mas também não decepciona nem um pouco - a trama é inteligente, e o fraco diretor não compromete o resultado final, que é muito envolvente. Vale a pena dar uma conferida, sem dúvida.
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5 de Maio de 1998

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.