Críticas por Pablo Villaça

Poster: Cidadão Kane
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
19/06/1941 Unknown
Distribuidora

 

 

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Cidadão Kane
Citizen Kane

Cidadão Kane

Dirigido por Orson Welles. Com: Orson Welles, Joseph Cotten, Everett Sloane, Dorothy Comingore, Ray Collins.

O que alguém mais pode dizer sobre Cidadão Kane? Este tem sido um dos filmes mais discutidos nos últimos 50 anos. Todos já conhecem os principais fatos acerca desta produção que, de tempos em tempos, é julgado o melhor filme da história do cinema: como um jovem de apenas 24 anos recebeu carta branca da RKO para realizar o filme que quisesse; como este jovem dirigiu, escreveu, atuou e produziu uma obra-prima, se tornando uma das maiores lendas de Hollywood; como o magnata da imprensa William Randolph Hearst se reconheceu na figura de Kane; como Hearst iniciou uma campanha a fim de proibir (e até destruir) todas as cópias do filme; como Welles lutou por sua obra prejudicando, de certa forma, sua própria carreira; como o recurso do deep focus (através do qual todos os objetos em cena ficam dentro do foco da câmera, não importando a distância em que dela estejam) foi soberbamente utilizado, criando cenas memoráveis; como o filme foi injustiçado na entrega do Oscar, sendo premiado em apenas uma das nove categorias em que concorreu; como Gregg Toland realizou um trabalho tão memorável de fotografia que o próprio Welles, em reconhecimento, permitiu que seu nome aparecesse junto com o dele nos créditos finais; e por aí afora.

Kane já começa com uma cena clássica: a visão de um palácio através das grades de uma cerca que tem a inicial `K` exibida no alto. Logo em seguida somos enganados pela primeira vez pelo talento de Welles, quando uma casa no meio de uma tempestade de neve revela ser, apenas, um peso de papel. Ouvimos a primeira frase deste clássico, e a mais famosa, ser pronunciada por lábios grossos sob um bigode grisalho: `Rosebud`. Em seguida, Charles Foster Kane, que acabou de murmurá-la, morre. O que vemos a seguir é um noticiário de cerca de 10 minutos que conta toda a vida de Kane, explicando como ele, de menino pobre, passou a ser um dos maiores magnatas da imprensa americana.

No entanto, um dos repórteres que assiste o noticiário não fica totalmente satisfeito com o resultado. Ele acha que a última palavra pronunciada por Kane, `Rosebud`, deve ter um significado extremamente importante na vida do grande homem. E decide descobrir qual. A partir daí visitamos, junto ao jornalista, cinco pessoas que participaram dos principais momentos da vida de CFK, e, em flashback não cronológicos, vivemos estes momentos. É claro que nem sonho em dizer o que `Rosebud` significa, apesar de que isto não teria importância. Todas as vezes em que vi este filme fiquei magnetizado pela história de Kane, como se a visse pela primeira vez. E em todas descobri detalhes que antes não tinha percebido, e que me tornaram ainda mais admirado pelo preciosismo da direção de Welles (como a presença do tal peso de papel em cenas cronologicamente bem anteriores à morte de Charles).

O roteiro, de Mankiewicz e Welles, é um primor de qualidade. Instigante, inteligente, um verdadeiro estudo psicológico das diversas facetas do poder. Será que Kane teria feito tudo novamente, se tivesse tido a oportunidade de voltar no tempo? Ele foi feliz? O poder lhe trouxe outras compensações, além do conforto? E afinal de contas, `Rosebud` é algo que ele perdeu, ou algo que nunca chegou a possuir? Uma pessoa? Um objeto?

O restante do elenco, oriundo da companhia de teatro de Welles, a Mercury, é fabuloso: Joseph Cotten brilha como o melhor amigo de CFK, Jedediah Leland. Everett Sloane, como o inteligente Mr. Bernstein também dá um show à parte (aliás, é dele um dos melhores monólogos do filme, sobre como um homem pode se lembrar de coisas estranhas de seu passado). Dorothy Comingore, como Susan Alexander, interpreta a segunda esposa de Kane (baseada na atriz Marion Davies, que foi amante de Hearst). E, é claro, há Ray Collins como J.W. Gettys, um político inescrupuloso capaz de tudo para se manter no poder. Mas a melhor interpretação é, sem dúvida, a de Welles. Seu Charles Foster Kane se torna assustadoramente real à medida em que o filme avança em desvendar sua personalidade.

Aliás, mesmo depois que o filme termina o espectador fica se perguntando quem era, de fato, aquele homem. Era um poço de rancor? Um homem sem escrúpulos, capaz de tudo para chegar ao topo? Um patrono das artes? Um patrono de si mesmo? De acordo com Leland, `Tudo o que ele sempre quis da vida foi amor. Esta é a história de Charles. Como ele o perdeu. Entende... ele nunca teve nenhum para retribuir.` Mas mesmo esta visão é limitada. E `Rosebud` é apenas parte do quebra-cabeça, não se iluda. O filme é muito mais do que este enigma.

Não sei se Cidadão Kane é o melhor filme da história do cinema. Existem várias outras obras-de-arte que também mereceriam `concorrer` ao título. No entanto, se não for o melhor, é dos melhores. E com certeza deve ser visto.
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12 de Janeiro de 1997

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.