Poster: A Bruxa de Blair

Direção:

Daniel Myrick , Eduardo Sánchez

Elenco:

Heather Donahue , Michael Williams , Joshua Leonard

Roteiro:

Daniel Myrick , Eduardo Sánchez

Produção:

Robin Cowie

Fotografia:

Neal Fredericks

Música:

Antonio Cora

Montagem:

Daniel Myrick , Eduardo Sánchez

Design de Produção:

Ben Rock

Direção de Arte:

Ricardo Moreno

 

 

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Banner: A Bruxa de Blair

Datas de Estréia: Notas:
Brasil Exterior Crítico Assinante Distribuidora
01/10/1999 30/07/1999

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Dirigido por Daniel Myrick e Eduardo Sánchez. Com Heather Donahue, Michael Williams e Joshua Leonard.

O que nos faz sentir medo? Nos últimos anos, Hollywood parece pensar que são os efeitos visuais rebuscados, as criaturas totalmente criadas em computador ou os já clássicos assassinos mascarados (ou deformados) que sempre reaparecem vivos nas continuações. Assim, o que esperar de um filme independente que não traz absolutamente nenhum efeito visual e cujo maior vilão (ou, no caso, vilã) não é visto em momento algum durante a projeção?

Se este filme for A Bruxa de Blair, espere sentir muito medo. Este pseudo-documentário dirigido pelos amigos Eduardo Sánchez e Daniel Myrick é, desde já, a maior surpresa de 1999. Orçado em míseros vinte mil dólares, o filme pretende resgatar os últimos dias de vida de três jovens que se embrenham em uma floresta a fim de rodar um documentário acerca da lendária bruxa de Blair, que, de acordo com as lendas locais, é a responsável pelo desaparecimento de dezenas de pessoas - destino compartilhado pelos inexperientes `cineastas`.

Até aí, nada de mais. Diversos filmes de terror já exploraram os grandes vilões da ficção: fantasmas, lobisomens, vampiros e, é claro, as bruxas. A diferença que faz de A Bruxa de Blair mais assustador é o fato de que o filme é narrado na primeira pessoa (sendo que, a cada instante, um dos três personagens assume a função de narrador). E não estamos falando simplesmente de locução em off: graças a uma engenhosa estratégia de produção, as duas câmeras usadas para captar todas as imagens de A Bruxa de Blair foram manuseadas pelos próprios atores e, assim, nós temos a oportunidade de ver exatamente o que eles vêm. É claro que em alguns momentos parece estranho o fato dos personagens continuarem a filmar o que está acontecendo mesmo em momentos `impróprios` - como durante um briga na qual um dos envolvidos insiste em registrar toda a discussão.

Mas isto é um pecadilho se considerarmos que o recurso funciona na maior parte do filme - e como funciona: desprovido de qualquer trilha sonora ou luz especial, e com a câmera tremendo durante toda a narrativa, o espectador acaba tornando-se um dos membros daquela expedição - nós caminhamos, dormimos e acordamos (assustados) ao mesmo tempo em que os personagens. Se Heather (a `diretora` do documentário) insiste em gravar o que está acontecendo durante todo o tempo a fim de `fugir da realidade`, sua iniciativa nos permite fazer o mesmo, levando-nos, em um caminho inverso, para dentro do filme.

O feito de A Bruxa de Blair torna-se ainda mais fascinante quando percebemos que, apesar de não ter nenhum roteiro (os atores improvisaram todos os diálogos), o filme consegue contar uma história muito bem estruturada, com começo, meio e fim, chegando mesmo a utilizar velhos recursos da estrutura clássica dos roteiros, como o da `pista e recompensa` (que ocorre quando uma informação fornecida no início do filme - a `pista` - acaba revelando-se importante no final da narrativa - a `recompensa`). E não é só: os diretores Sánchez e Myrick conseguiram até mesmo introduzir um `alívio cômico` - no caso, o personagem de Michael Williams.

Mas os grandes responsáveis pela eficácia do filme são, sem dúvida, Josh, Mike e Heather (que, apesar de aparecer menos na tela - já que fica atrás da câmera na maior parte do tempo -, é a principal narradora da história). É, também, a personagem melhor construída, já que os rapazes são mais inconstantes, alternando radicalmente seus temperamentos entre `afável` e `belicoso`. O relacionamento dos três jovens e suas trajetórias da brincadeira ao medo são retratados com extrema sensibilidade, numa indicação de entrega total dos atores aos personagens e à história - não será surpresa se a cena em que Heather pede desculpas aos pais de seus colegas e aos seus próprios pais venha a se tornar clássica (gerando inúmeras imitações, inclusive).

No entanto, não espere saltar na poltrona durante o filme. Ao invés de buscar o susto fácil, A Bruxa de Blair investe na criação e manutenção de um constante clima de tensão que perdura durante toda a narrativa, tornando-se ainda mais intenso no final (sobre o qual falaremos no parágrafo seguinte, que, assim, não deve ser lido até que você tenha assistido ao filme).

Não é mistério para ninguém que nenhum dos três jovens cineastas sobrevive à maldição da bruxa - isto é revelado logo na abertura. Assim, a partir do momento em que Mike e Heather invadem a casa abandonada, naquela que é a melhor seqüência do filme, o espectador já antecipa o que está para acontecer. Portanto, chega a ser frustrante quando o filme termina abruptamente com a queda da câmera de Heather depois que esta vê Mike em um canto, virado para a parede (a `recompensa` mencionada anteriormente). Depois de tanta expectativa e de uma tensão criada tão cuidadosamente, a saga dos jovens poderia ter terminado com um `susto` final - talvez um pequeno e rápido vislumbre da bruxa de Blair ou algo no gênero. Como termina, o espectador sai da projeção com a sensação de que algo faltou - o payoff do jargão cinematográfico. É como se todo aquele clima de medo tivesse sido desperdiçado.

Mas talvez isto seja exigir demais ou, o que é pior, seja fruto de nossa acomodação a anos e anos recheados com os velhos clichês do cinema de terror americano, sempre com sustos abundantes. De todo o modo, fica a sensação de que A Bruxa de Blair merecia uma conclusão à altura de sua criatividade.
 

4 de Outubro de 1999

 

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