Críticas por Pablo Villaça

Poster: Amadeus
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
08/10/1984 Unknown
Distribuidora

 

 


Amadeus
Amadeus

Amadeus

Dirigido por Milos Forman. Com: F. Murray Abrahams, Tom Hulce, Jeffrey Jones, Elizabeth Berridge, Simon Callow.

Amadeus é um filme maravilhosamente triste. Não, não é um daqueles dramas do tipo Minha Vida ou Um Mundo Perfeito, ao final dos quais a platéia está derramando litros de lágrimas. Tampouco segue o estilo de Anastasia, a Princesa Esquecida, que conta com personagens amargurados, introspectivos (como o Bounine de Yul Brinner ou a solitária grã-duquesa de Helen Hayes). Nada disso. Amadeus é sobre frustrações. A frustração de não ser tudo aquilo que se deseja. A frustração de saber que há alguém infinitamente melhor do que você justamente naquilo que mais se ama. A frustração de ver seu legado sendo esquecido enquanto a velhice se aproxima.

A história gira, curiosamente, não em torno do personagem-título (Mozart), mas sim em torno de seu antagonista, o rancoroso compositor Antonio Salieri, e sobre como o talento de Mozart gerou uma inveja cega e perigosa por parte deste. Deixarei de lado a questão sobre a veracidade ou não do que é narrado. Se Salieri foi ou não um dos principais causadores da decadência e morte de Mozart, isso não interessa. A relação que se estabelece entre os dois músicos é o mais importante aspecto do filme. Da parte de Mozart, uma confiança ingênua, somado a um certo desdém pela obra de Salieri, a quem julga um músico menor. Da parte de Salieri um sentimento ambíguo, de respeito e desprezo.

F. Murray Abrahams, como Salieri, brinda o espectador com uma daquelas interpretações que preenche e até mesmo transcende o espaço da tela. Tecnicamente irrepreensível. Intuitivamente perfeita. Interpretações como a de Abrahams neste filme são espécimes raros: Orson Welles, em Cidadão Kane; Ben Kingsley em Gandhi; Marlon Brando em O Poderoso Chefão, e mais alguns raros exemplares. Salieri se torna mais do que o personagem de um filme. Ele se destaca da tela e leva o espectador a associá-lo a uma série de pessoas do nosso dia-a-dia. As melhores cenas são aquelas em que Salieri, já velho, relata toda a sua história ao padre que veio tomar-lhe a confissão. Ali, principalmente, Abrahams rouba o espetáculo. É assustador ver aquele velho amargurado, solitário e, por vezes, horrorizado consigo mesmo descrever com uma sinceridade arrebatadora todo o seu ódio por aquele rival do passado, Mozart.

Não que a interpretação de Hulce tenha deixado a desejar. Nada disso. O problema é que Salieri é muito mais complexo e interessante. Ao mesmo tempo em que demonstra possuir uma sensibilidade imensa (como ao chorar só em `ler` as partituras de Mozart), ele se torna mais e mais rancoroso por sua incapacidade de produzir algo a altura do jovem músico - e isso é o que torna o Salieri de Abrahams tão amedrontador. Ele é capaz de tomar atitudes tão paradoxais que, algumas vezes, o espectador fica na dúvida se ele ama ou odeia Amadeus. E na verdade ele nutre os dois sentimentos. Exemplo: depois de assistir à ópera Don Giovanni, Salieri usa sua influência para que ela saia de cartaz após 5 apresentações, apenas. No entanto, vai a todas as cinco, maravilhado pela qualidade do que viu.

Salieri se julga negligenciado por Deus em favor de Mozart. Ele se revolta por Deus tê-lo dotado de `verdadeiro amor pela música` e tê-lo negado `o talento para realizá-la`. Ele acredita estar sendo tripudiado pelo Todo-Poderoso, que, apesar de negar-lhe o `dom`, concedeu-lhe a capacidade de reconhecê-lo na obra do jovem Amadeus. E então ele decide se vingar, destruindo a criação divina. Se Deus não lhe deu a `voz` para louvar ao próprio Senhor, então ele vai impedir que a `criatura` o faça. Ele deseja a morte de Mozart.

Não devo falar mais nada, sob o risco de revelar mais do que deveria sobre o filme. Mas é claro que não posso deixar de comentar a cena mais estupenda do filme, já quase ao final, quando Salieri tem a oportunidade de ver Mozart compondo. Enquanto o jovem músico literalmente dita as notas, o compasso, a letra para um incrédulo Salieri, este percebe o quão incapaz é de acompanhar o ritmo do gênio. Ele não consegue sequer compreender o que lhe está sendo dito. Mas ao invés de ficar ainda mais rancoroso, ele fica maravilhado com o talento de Amadeus. Só então ele se dá conta da verdadeira extensão do `dom` que Deus concedeu ao outro. É uma cena maravilhosamente orquestrada pelo diretor Forman, associada a duas estupendas atuações. A cena resume, em si, o filme inteiro.

E o que vemos é uma obra de arte realmente à altura do homem que a inspirou.
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7 de Janeiro de 1997

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.