Críticas por Pablo Villaça

Poster: Terremoto - A Falha de San Andreas
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
28/05/2015 29/05/2015
Distribuidora
Warner

 

 

Publicidade


Terremoto - A Falha de San Andreas
San Andreas

Terremoto - A Falha de San Andreas

Dirigido por Brad Peyton. Roteiro de Carlton Cuse. Com: Dwayne Johnson, Carla Gugino, Alexandra Daddario, Ioan Gruffudd, Hugo Johnstone-Burt, Art Parkinson, Kylie Minogue, Archie Panjabi e Paul Giamatti.

Há uma fórmula antiga e já amplamente testada para filmes-desastre: normalmente, trazem histórias que inicialmente nos apresentam a diversos personagens com seus dramas pessoais cotidianos e que não se conhecem, sendo então arremessados em meio ao caos provocado por algum desastre, seja este natural, causado por humanos ou por algum agente misterioso (alienígenas, por exemplo). A partir daí, aqueles indivíduos passam a lutar por sua sobrevivência enquanto seus caminhos se cruzam e seus dilemas particulares são resolvidos pela situação na qual se encontram. Ainda assim, o fato de seguir uma fórmula (e o Cinema de gênero tende, por definição, a seguir convenções narrativas) não é desculpa para se fazer um trabalho ruim ou pouco imaginativo, bastando comparar ótimas obras como O Impossível, O Destino do Poseidon e Inferno na Torre com abominações como Twister, Volcano e Impacto Profundo para perceber a diferença.

O que nos traz a este Terremoto: A Falha de San Andreas. O protagonista é um ex-militar que agora trabalha como piloto de resgate; o desastre é, como já indica o título, um terremoto (ou uma série deles, incluindo o subsequente tsunami que provocam); o drama pessoal, sua separação e o fato de a ex-esposa estar prestes a se mudar para a casa do novo namorado. Aliás, aqui entra outro clichê: como é óbvio que o ex-casal ainda se ama, algo causou a separação – certamente a obsessão dele pelo trabalho ou um trauma vivido pela família e que levou o herói a se “fechar”. Para completar, é claro que o atual namorado da amada do protagonista é um tremendo babaca (ou mesmo um monstro com traços de sociopatia) e que o desastre que provocará a morte de milhões de pessoas terá valido a pena caso provoque uma esperada reconciliação entre duas pessoas destinadas a ficarem juntas.

Ah, Carlton Cuse. Depois de seu trabalho em Lost, confesso que esperava mais de você, embora os tropeços de seu parceiro Damon Lindelof em projetos como Prometheus e Cowboys & Aliens já devessem ter me preparado para a realidade de que, em dupla, vocês funcionavam melhor do que individualmente. Ainda assim, perceber como Terremoto parece ter sido concebido por um picareta a partir de manuais básicos de “Como escrever um roteiro” chega a ser chocante – especialmente por trazer dúzias de diálogos-clichês como “Você tem que ver isso” e cenas nas quais alguém tem que ser ressuscitado mesmo que nossa absoluta certeza sobre sua sobrevivência impeça qualquer traço de suspense enquanto as manobras cardíacas são executadas por um herói desesperado. Aliás, é impossível que façamos qualquer investimento emocional em uma narrativa quando já sabemos, desde o princípio, quem irá viver ou morrer a partir do grau de simpatia que exibem.

Aí reside outro problema grave do longa: embora claramente retrate o fim de milhões e milhões de vidas, a narrativa jamais leva o espectador a sentir o grau da tragédia vista na tela, tratando as vítimas como os meros bonecos digitais que são de fato. Até mesmo ao enfocar as consequências do desastre, o filme prefere se concentrar no reencontro de figurantes que se abraçam emocionados e na informação de jornalistas sobre o alívio daqueles que sobreviveram em vez de revelar a dimensão da catástrofe e de ao menos mencionar as estimativas de mortes (algo que qualquer veículo de mídia traria como destaque). Não é à toa que a abordagem do diretor Brad Peyton durante as sequências de ação é a de só oferecer closes aos personagens principais, praticamente tratando o restante dos figurantes como multidões vistas à distância e resumindo quadros fechados dedicados a eles a apenas dois ou três – afinal, se não vemos os rostos dos que morreram, não ficamos chateados com seus destinos. Além disso, a humanidade inteira pode ser destruída, mas se o herói sobrevive, o público sai satisfeito da sala por sentir que, em situação similar, também sobreviveríamos (sim, somos manipuláveis assim; faz parte do poder que as narrativas exercem sobre nós).

O mais frustrante é reparar como os esforços feitos por Peyton para emocionar o espectador são geralmente maniqueístas e mal direcionados: logo no princípio, por exemplo, o namorado-vilão explica que nunca teve filhos porque estava ocupado construindo prédios – e a trilha de Andrew Lockington acompanha a revelação com uma melodia melancólica que, visando forçar alguma simpatia pelo sujeito (o que o tornaria mais complexo?), ignora que... hum... foi uma opção que ele fez, não uma imposição do destino. Da mesma maneira, mesmo que as sequências de ação provoquem, sim, certa tensão (como ao mostrar o helicóptero pilotado pelo protagonista se desviando de edifícios que insistem em persegui-lo), o simples fato de a câmera se movimentar em trajetos claramente impossíveis revelam a natureza digital de tudo o que vemos, anestesiando o público e impedindo que o efeito seja realmente eficaz. Para completar, a natureza ufanista do plano que traz uma bandeira norte-americana se desenrolando enquanto alguém comenta o espírito perseverante de seu povo é tão tolo em sua mensagem ao mesmo tempo condescendente (para com os norte-americanos) e risível (para o restante do mundo) que, em vez de funcionar como afirmação do espírito humano, acaba soando como mero slogan político.

Com isso, Terremoto surge apenas como mais uma evidência de como Hollywood enxerga seus clientes-espectadores como bebês em busca de cores, barulhos e repetição. “Vejam esta ponte caindo!”, “Contemplem este prédio indo ao chão!”, “Ouçam esta explosão!”, “Reparem nesta onda gigantesca!”, parecem dizer os realizadores, esperando que o excesso de estímulos sonoros e visuais não nos deixe perceber o vazio emocional da experiência. Não há, por exemplo, a construção de um ritmo na narrativa, de um crescendo que busque nos capturar psicologicamente antes de nos arremessar no espetáculo – e basta notar como, logo no início, a câmera desce rapidamente para acompanhar a ação prosaica de um personagem que fecha o notebook para perceber como o diretor tenta conferir impacto a qualquer bobagem, como se temesse que ficássemos entediados caso se concentrasse em algo que não fosse grandioso.

O que o filme não percebe é que, se não há consequências, não há envolvimento emocional. De que adianta trazer um carro capotando (criado em computador, aliás, e evitando qualquer realismo) se sua ocupante, por ser bela, exibirá apenas algumas feridinhas pontuais no rosto quando deveria ter sido esmagada e mutilada pelo acidente? É como se Terremoto – e filmes-afins – estivessem sempre preocupados em assegurar o público de tudo está bem: “Podem ficar tranquilos; nada disso é real”.

Mas se não há desgaste/investimento psicológico e emocional, qual o objetivo de se assistir a um filme como este? Apenas pelo prazer dúbio de vermos prédios digitais desmoronando? Não, obrigado. Criem personagens com os quais me importe e ficarei triste caso batam o dedinho na quina de um móvel; já caricaturas podem ser esmagadas por toneladas de concreto e não soltarei um mero suspiro.

Particularmente, não vejo muito propósito em mergulhar no modo “olhos escancarados, boca aberta e coração vazio”.

29 de Maio de 2015

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.