Críticas por Pablo Villaça

Poster: Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
11/06/2015 12/06/2015
Distribuidora
Universal

 

 

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Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros
Jurassic World

Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros

Dirigido por Colin Trevorrow. Roteiro de Rick Jaffa, Amanda Silver, Colin Trevorrow e Derek Connolly. Com: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Vincent D’Onofrio, Omar Sy, Irrfan Khan, Nick Robinson, Ty Simpkins, Jake Johnson, BD Wong, Lauren Lapkus, Katie McGrath, Andy Buckley e Judy Greer.

Logo no início de Jurassic World, a diretora do parque que dá título ao projeto explica para seus investidores (e para o espectador) que “ninguém mais se impressiona com dinossauros” e que, por isso, de tempos em tempos sua equipe acrescenta novas espécies ao empreendimento – culminando na ideia de criar um dinossauro híbrido, novo, a partir da reengenharia genética, com o propósito de aumentar ainda mais a audiência. Não é preciso ser um gênio para perceber que a equipe de roteiristas está falando da própria franquia iniciada em 1993 com Parque dos Dinossauros e que agora, 22 anos depois, chega ao seu quarto exemplar apostando justamente num “vilão” geneticamente modificado – e embora o artifício seja obviamente cínico ao tentar antecipar as críticas esperadas, o fato é que acaba funcionando pelo bom humor e pela confissão de que “sim, estamos todos de volta porque a ideia é lucrativa, mas que tal nos divertirmos enquanto isso, unindo o útil ao agradável?”.

Escrito por Rick Jaffa e Amanda Silver (dos dois recentes O Planeta dos Macacos) ao lado da dupla formada pelo diretor Colin Trevorrow e Derek Connolly (responsáveis pelo ótimo Sem Segurança Nenhuma), Jurassic World conta a história... ora, vocês sabem: a InGen abre novamente o parque, algo dá errado, dinossauros passam a comer os visitantes e a equipe do local, todos saem correndo, há muita gritaria, pedaços de corpos espalhados (sem exagero para não aumentar a classificação indicativa), etc e tal. Como um autêntico “filme de monstro”, esta produção mantém a trama no básico, criando apenas um mínimo de história que possa ligar as sequências de ação.

Claro que isto não deve servir de desculpa para as falhas de roteiro – e Jurassic World é repleto delas, desde uma subtrama descartável envolvendo o possível divórcio dos pais dos dois garotos que passam a projeção fugindo dos predadores até a mais do que surrada presença de “militares que querem transformar tudo em possíveis armas de guerra”. Da mesma maneira, se é impossível perdoar diálogos expositivos como “Lembra quando consertamos o Malibu do vovô?”, não menos esforço é necessário para ignorar a natureza unidimensional de personagens como o garotinho que vê tudo com a boca aberta, o adolescente aborrecido que só se concentra no celular e nos fones de ouvido e o cientista inescrupuloso que jamais pensa nas consequências de suas invenções.

Neste sentido, diga-se de passagem, é surpreendente perceber como ninguém envolvido na produção considerou o disparate de escalar Chris Pratt para viver um personagem completamente desprovido de senso de humor, desperdiçando o potencial cômico do ator (que rendeu resultados tão bons em Guardiões da Galáxia) e do próprio herói, que poderia ter se tornado bem mais interessante caso fosse capaz de notar o absurdo de sua situação (pensem em Indiana Jones). Ainda assim, o maior pecado do roteiro reside mesmo na composição de Claire, a diretora do parque interpretada por Bryce Dallas Howard: presa ao ofensivo e anacrônico estereótipo da mulher de negócios independente que, sem marido e filhos, é uma criatura fria, distante e excessivamente racional, a atriz é obrigada a trocar diálogos sobre “se” (não, corrige sua irmã: “quando”) terá filhos ao mesmo tempo em que é submetida ao ridículo de passar o filme inteiro correndo de salto alto na topografia irregular da Isla Nublar. Sim, aqui e ali ela se mostra forte, como ao negar a mão que o herói estende para ajudá-la a correr ou ao tomar algumas iniciativas no terceiro ato, mas isto não corrige o que víramos antes e nem o fato de ela logo ser vista numa camiseta mínima e justa, como se os realizadores quisessem ganhar de todos os lados, retratando-a ao mesmo tempo como dama em perigo, como criatura fria e como heroína sexy.

Ainda assim, mesmo que o roteiro falhe em suas caracterizações e subtramas artificiais, Jurassic World mais do que se recupera naquelas que são claramente o motor da narrativa - as sequências de ação -, beneficiando-se também do ótimo trabalho de design de produção do experiente Ed Verreaux, que concebe um parque que, mesmo remetendo organicamente ao original, traz um visual moderno que inclui pontos de observação camuflados como troncos gigantes e já revela o temperamento do protagonista apenas ao trazê-lo morando em um trailer-bangalô à beira de um precipício (aliás, aprendemos mais sobre o sujeito através de seus figurinos, armas e residência do que através dos diálogos ou da caracterização monocórdia de Pratt).

Fazendo várias referências visuais ao filme que Spielberg dirigiu em 93 (como a corrida dos Gallimimus, o plano no qual alguém vê um dinossauro pelo retrovisor do carro e, claro, o sinalizador vermelho), Colin Trevorrow também homenageia abertamente Aliens, O Resgate ao trazer um confronto entre soldados e dinossauros que acompanhamos através dos monitores que revelam os dados vitais dos humanos ao lado de suas fotos. Para completar, Michael Giacchino se equilibra bem entre a tarefa de deixar sua marca na franquia e a necessidade de retrabalhar a trilha emblemática de John Williams – e é particularmente inteligente a maneira com que o compositor confere um tom melancólico ao tema da série no momento em que alguns personagens encontram o prédio, agora abandonado, que hospedou o clímax do original.

No entanto, se há alguém que sai como o grande destaque de Jurassic World, este é mesmo seu diretor. Hábil tanto ao apresentar seus personagens (o plano em contraluz e ângulo baixo que introduz o protagonista já o estabelece como uma figura icônica – mesmo que não o seja) quanto ao conduzir as complexas sequências de ação, Trevorrow movimenta sua câmera e corta com frequência suficiente para gerar tensão, mas sempre evitando o exagero que tornaria incompreensível o que ocorre na tela. Além disso, é impossível não admirar a inteligência com que, em certo momento durante o ataque dos pterodátilos, o cineasta abre o plano para mostrar a multidão correndo enquanto um único indivíduo dispara na direção oposta, chamando nossa atenção para o seu destino e demonstrando o controle de Trevorrow sobre o olhar do público. E se a sequência final traz uma série de confrontos que fariam Ray Harryhausen saltar como criança, seu desfecho é especialmente inspirado, soando ao mesmo tempo surpreendente e previsível, o que é uma pequena proeza.

Sim, é verdade que o primeiro filme não precisava de um dinossauro híbrido para funcionar e mesmo para se manter inquestionavelmente como o melhor da série, mas este Jurassic World é competente o bastante para evitar que o seu vilão geneticamente modificado surja como uma mera muleta comercial tanto por parte do longa como do parque cujos criadores parecem não aprender a lição. Aliás, que insistam em reabri-lo apesar de todas as tragédias é algo que só não soa implausível porque é uma decisão que faz parte da lógica do capitalismo; que o local continue a atrair milhares de pessoas, por outro lado, revela apenas a estupidez humana.

E que continuemos pagando para ver estes dinossauros digitais retalhando suas vítimas é algo que simplesmente faz parte da natureza dos fãs de um bom espetáculo.

19 de Junho de 2015

Videocast (sem spoilers):

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.