Homem Irracional
Dirigido e roteirizado por Woody Allen. Com: Joaquin Phoenix, Emma Stone, Parker Posey, Jamie Blackley, Meredith Hagner, Susan Pourfar.
O Homem Irracional, novo filme de Woody Allen, é um esforço que poderia ter sido muito bom caso soubesse que tipo de história gostaria de contar. Infelizmente, o hábito do cineasta de lançar um trabalho por ano pode merecer aplausos pela disciplina, mas ocasionalmente leva a resultados medianos em função da falta de tempo para que pudessem amadurecer melhor.
Repetindo temas e momentos de alguns de seus longas anteriores (Match Point e Crimes e Pecados vêm à mente), Allen aqui conta a história de Abe Lucas (Phoenix), um professor de filosofia tomado pela depressão e pela falta de propósito de sua vida. Aceitando um emprego em uma nova faculdade, ele acaba se envolvendo com a colega Rita (Posey) e com a aluna Jill (Stone), o que não o torna menos frustrado ou desmotivado – até que, certo dia, ele ouve uma conversa que o leva a encontrar um novo e potencialmente perigoso motivo para viver.
Fotografado por Darius Khondji com uma paleta estranhamente quente e romântica para o tema que revela querer desenvolver, O Homem Irracional frequentemente exibe esta dissonância entre sua narrativa e sua história, como se o roteiro quisesse levar o filme para um lado e a direção, para outro – e o fato de Allen assinar ambos é um péssimo sinal. Aliás, igualmente revelador é perceber como o diretor usa praticamente a mesma música (“The In Crowd”) durante toda a projeção, independentemente do contexto da cena, o que revela no mínimo um descaso atípico do cineasta.
Não que o resultado seja desastroso, pois está longe de ser uma atrocidade como O Escorpião de Jade, Scoop, Dirigindo no Escuro ou Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos – e boa parte do charme do filme deve-se ao ótimo elenco: se Emma Stone, em sua segunda parceria com o diretor, vive uma personagem diametralmente oposta à maluquinha alegre de Magia ao Luar, Joaquin Phoenix encarna Abe como um sujeito barrigudo e desleixado cujo pendor autodestrutivo é simultaneamente divertido e tocante. Além disso, o ator faz um bom trabalho ao demonstrar como indivíduos como aquele podem romantizar a própria desilusão e racionalizar seus atos de egoísmo e crueldade, o que torna ainda mais fascinante perceber como passamos a gostar do sujeito mesmo que este não se esforce para nos conquistar.
Já Woody Allen não consegue a mesma proeza, perdendo ainda mais o controle da narrativa a partir do terceiro ato, quando realmente parece estar atirando na tela as primeiras soluções que lhe cruzam a mente e encerrando a projeção em um anticlímax que acaba mandando o espectador para fora da sala com a impressão de ter visto um filme pior do que é na verdade.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2015.
15 de Maio de 2015

Poderia ter sido muito bom caso soubesse que tipo de história gostaria de contar.