Poster: Expresso do Amanhã

 

 

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Banner: Expresso do Amanhã

Datas de Estréia: Notas:
Brasil Exterior Crítico Assinante Distribuidora
27/08/2015 01/08/2013
PlayArte

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Dirigido por Bong Joon-ho. Roteiro de Bong Joon-ho e Kelly Masterson. Com: Chris Evans, Song Kang-ho, Ko Ah-sung, John Hurt, Jamie Bell, Tilda Swinton, Alison Pill, Octavia Spencer, Ewen Bremmer, Emma Levie, Luke Pasqualino, Vlad Ivanov e Ed Harris.

Responsável por um dos melhores filmes dos anos 2000, o melancólico e angustiante Memórias de um Assassino, o cineasta sul-coreano Bong Joon-ho comandou também, nos últimos anos, o intrigante O Hospedeiro e o excelente Mother – obras que, mesmo trazendo certas marcas autorais, comprovavam uma versatilidade admirável. Pois em Expresso do Amanhã, seu primeiro trabalho fora de seu país natal, Joon-ho concebe uma alegoria que, além de abordar questões incrivelmente contemporâneas, ainda funciona graças às suas boas sequências de ação e a um visual arrebatador.

Inspirado na graphic novel francesa “Le Transperceneige”, o roteiro co-escrito pelo diretor ao lado de Kelly Masterson (Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto) tem início em 2014, quando, num esforço para reverter os efeitos do aquecimento global, alguns países lançam na atmosfera o composto químico CW7, que acaba por mergulhar o planeta em uma nova Era do Gelo. Dezessete anos depois, com a humanidade praticamente extinta, os poucos sobreviventes agora percorrem a superfície terrestre a bordo de um trem de alta velocidade construído pelo misterioso magnata Wilford (Harris). No entanto, enquanto a maior parte dos vagões é empregada para o conforto dos passageiros mais abastados, o vagão final é ocupado por uma multidão de miseráveis alimentados por um repugnante “bloco de proteína” e que, liderados pelo angustiado Curtis (Evans), acabam decidindo ir à força até a frente do expresso com o objetivo de confrontar seu criador/condutor.

Não é difícil deduzir, portanto, que Expresso do Amanhã depende pesadamente da maneira com que o trem do título é concebido pelo design de produção – e, neste sentido, o tcheco Ondrej Nekvasil não desaponta, estabelecendo uma lógica visual coerente que não apenas transforma cada vagão em um espaço memorável, mas também representa com brilhantismo a evolução destes à medida em que os heróis vão avançando pela composição. Inicialmente sujos, claustrofóbicos e dominados pelo cinza, os carros se tornam gradualmente mais espaçosos, confortáveis e passam a exibir cores intensas e vibrantes. Da mesma maneira, os figurinos de Catherine George seguem a lógica ao cobrirem com trapos desgastados e de cores tristes os pobres passageiros do último vagão, contrastando-os com as roupas obviamente caras exibidas por Claude (Levie), que surge apropriadamente num dourado que reflete sua posição social vantajosa, e pela desagradável Mason (Swinton), que inicialmente aparece com um vestido roxo que denuncia sua disposição em aniquilar os miseráveis. Além disso, é preciso aplaudir como os guerreiros encontrados em certo vagão exibem um uniforme que oscila entre o militar e o sadomasoquista, sendo complementado por máscaras que deixam apenas suas bocas expostas, tornando-os ainda mais ameaçadores ao ocultar seus olhos.

Aliás, a própria jornada ao longo do expresso se torna fascinante ao surpreender a cada novo vagão: aqui, um magnífico aquário cobre as paredes e o teto; ali, cores alegres complementam uma sala escolar na qual as crianças da elite futurista são condicionadas a encarar Wilford como uma deidade. Enquanto isso, a fotografia de Hong Kyung-pyo ressalta as qualidades do design de produção ao evoluir da escuridão inicial para a claridade agradável dos vagões dianteiros, encontrando espaço ainda para sugerir atmosferas particulares em um vagão-sauna banhado em amarelo e, claro, no sugestivo jogo de luzes do carro-boate. Para completar, Kyung-pyo obviamente se diverte ao empregar lentes grandes angulares para ressaltar a natureza grotesca das personagens de Swinton e Pill.

Sem temer a estilização tanto nos cenários quanto nos figurinos e na maquiagem que ajuda a caracterizar vários personagens, o diretor Bong Joon-ho também surpreende ao encontrar momentos de humor justamente através de certas caricaturas ou simplesmente através do inesperado, como ao retratar uma espécie de corrida de revezamento com uma tocha olímpica ou ao trazer a professora vivida por Pill executando vários gestos que sugerem todo um ritual que beira o religioso ao lidar com Wilford - e, claro, o cineasta comenta, através desta cena, como os dogmas são constantemente empregados para condicionar a população, o que encontra eco na maneira como o primeiro vagão é chamado de “Sagrada Máquina” e, claro, no jogo de palavras usado para se referir à personagem de Swinton, já que “minister” pode ser tanto “ministro” como “pastor”.  (E, não à toa, ela surge pregando para os miseráveis que estes deveriam se mostrar “agradecidos” diante da “generosidade” do deus-Wilford.)

Tropeçando nos fracos efeitos digitais usados para criar o mundo externo ao trem, Expresso do Amanhã ganha pontos, por outro lado, em função de seu ótimo elenco: se Chris Evans concebe Curtis como um sujeito que carrega um peso imenso sobre os ombros (fruto não só de sua posição de liderança, mas também de seus arrependimentos), John Hurt, com sua voz rouca e rosto maravilhosamente desgastado pela idade, sugere um líder suficientemente sábio e bondoso para inspirar o herói, mesmo que seu personagem acabe se revelando mais complexo do que isso. E se Tilda Swinton se entrega sem medo a uma eficaz caricatura, Ed Harris transforma Wilford em uma espécie de Oz ao expor segredos sobre seu papel naquela sociedade (aliás, a referência a Oz surge também no design de sua inicial espalhada pelos vagões).

Ambicioso também em sua temática (como boa parte das melhores ficções científicas), o longa emprega seu preciosismo técnico para construir uma alegoria cortante sobre a luta de classes – e é interessante perceber, por exemplo, como há um número cada vez menor de negros à medida em que avançamos pelo trem. Aliás, só o fato de trazer uma população de miseráveis espremida no fim do expresso enquanto um número bem menor de ricaços ocupa a maior parte do trem já expõe o propósito dos realizadores de fazer um comentário profundamente crítico ao capitalismo selvagem e à distribuição desequilibrada de renda nas sociedades industrializadas contemporâneas. Da mesma forma, é sintomático que, enquanto a massa de pobres é vista lutando por uma vida melhor, um bando de playboys drogados aparece dançando despreocupadamente, revoltando-se apenas quando veem seus privilégios sendo ameaçados (observem, por exemplo, como aparentemente decidem brigar por perderem uma garrafa de vinho).

Assim, quando alguém acusa Curtis de não reconhecer sua posição na hierarquia da sociedade, apontando que este se encontra “no lugar errado”, sua resposta não poderia ser mais perfeita:

Isto é o que as pessoas que estão nos melhores lugares dizem para as pessoas que ocupam os piores.

Neste momento, quase esperei ver seu interlocutor devolver um “Vá para Cuba, então!”, mas, felizmente, o nível de discussão proposto por Expresso do Amanhã é bem mais inteligente e ambicioso do que aquele que costumamos encontrar nas redes sociais.

26 de Agosto de 2015

 

Comente!

  • Reinoldo Garcia em 17/07/2016 às 23:12

    Eduardo, os miseráveis estão ali para demosstrar para a "classe média" o quanto eles tem sorte e porque devem ajudar a manter os privilégios das castas superiores. Pros seguranças espancarem os que estão um pouco abaixo deles (apenas obedecendo ordens como cães), para a professora ensinar que simplesmente a vida é assim, enfim, para as engrenagens funcionarem sem questionar.

  • Eduardo Tomazzoni em 29/06/2016 às 19:15

    Normalmente bons filmes de Sci-Fi possuem um plano de fundo fantasioso mas são pautados sobre ideias minimamente convincentes (sociedades distópicas, maquinas evoluídas, etc), tentam seguir regras pré-estabelecidas e possuem uma lógica dentro do roteiro. Estes são pontos muito importantes para assegurar uma certa veracidade no desenrolar do enredo e não gerar muitos furos na trama; principalmente quando temos um roteiro que pretende se levar a sério.

    Mas nada disso ocorre em Expresso do Amanhã...

    1- A Premissa Furada:
    “Toda vida foi extinta; os poucos que embarcaram na arca mecânica são os últimos sobreviventes da humanidade”

    Qualquer um que tenha um pouco de criatividade ou ceticismo automaticamente começa a fazer perguntas básicas sobre este enredo: Por que diabos tal trem foi construído? Em que momento um trem em alta velocidade circulando um mundo congelado é mais sensato do que um trem parado? De onde vem o combustível? Não seria melhor construir uma fortificação? (Poderiam até mesmo fazer em forma de pirâmide para a alegoria ficar ainda mais superficial e obvia sem criar tantos furos de roteiro logo no inicio do filme) hahaha

    2- Estratificação Social:
    Aqui, mais obvio do que “sal é salgado”, encontra-se a grande metáfora do filme. Aquela que aparentemente muitos desatentos não entenderam (sério gente?). Na traseira do trem, os pobres, os sujos, a escória; na frente, os ricos, os poderosos, o 1% da sociedade.

    Tudo muito bonito, tirando um pequeno problema que qualquer amante de literatura, história e política que se preze teria absoluta vergonha: Existe algum motivo para estas pessoas estarem no trem? Se a burguesia depende do maldito proletariado, qual o objetivo destas pessoas estarem ali se eles não trabalham ou produzem absolutamente nada? (E o filme deixa bem explícito isso). Simplesmente não faz sentido algum!

    Até mesmo a saga Jogos Vorazes de Suzanne Collins deixa esta questão bem esclarecida ao apresentar seu mundo, estabelecendo a importância dos distritos para com a capital. Filme/Livro que, por sinal, faz uma crítica muito melhor à Desigualdade Social e a Regimes Totalitários do que Snowpiercer.

    3- Os Vagões e a Tripulação:
    Outra coisa absurda neste filme é a ordenação dos vagões, das suas funções e dos funcionários que ali trabalham. A proporção entre vagões realmente indispensáveis (plantações e criadouros), vagões vazios e vagões exclusivamente estéticos e voltados para o lazer da classe alta é absolutamente ridícula. Podemos ver claramente a falta de cuidado na criação deste mundo, na elaboração do roteiro e como a incoerência demonstrada no 2º tópico se estende durante todo o longametragem de modo patético.

    4- As Malditas Baratas
    Esta é outra questão um tanto quando ridícula. Vemos, mais de uma vez durante o filme, o espanto, nojo e raiva no principal ao se referir dos tabletes de proteína feitos com baratas. Para no final descobrirmos que o maldito já foi obrigado a praticar canibalismo e sabe que “bebes são mais gostosos”? hahahahah

    E por sinal, de onde vem as malditas baratas? Um bilhão de baratas moídas por dia para alimentar pessoas que não produzem absolutamente nada, apenas consomem. Sendo que o mundo externo está completamente congelado!
    “ah, mas Eduardo, eles talvez tenham uma criação de baratas...” Para cara, para... onde diabos os caras teriam isso? Com que alimento eles criariam tais baratas? E final, fizeram questão de mostrar todos os vagões, suas plantações, aquários e frigoríferos e não há nada ali.

    5- Combate Patético e Estilização Medíocre:
    Pelo menos uns 100 guardas com machados e facões, usando tocas que tapam seus olhos, mas que precisam usar óculos de visão noturna ao entra no escuro (fuck logic).
    O cara estripa um maldito peixe fresco só pra pagar de Badboy; sendo que poucos minutos depois vamos ouvir um papinho bosta de “sushi é feito apenas 2 vezes ao ano” e que “o número de peixes precisa ser controlado com precisão” (ta SERTO).

    É aqui também que vemos a mediocridade do diretor. Fica nítida a tentativa falha de estilizar o combate utilizando cenas em câmera lenta assim como Zack Snyder faz com maestria em 300 e Watchmen. Mas no fim, nada aqui parece fluido e bem feito, simplesmente porque já vimos melhor e porque não nos importamos com a maioria dos personagens em tela.

    Outro ridículo Deus Ex Machina do filme é o desfecho da batalha. Em um segundo há uma tocha, e no segundo seguinte vemos dezenas delas. O que os soldados ficaram fazendo nesse meio tempo? Parados olhando? Fazendo mais uma contagem regressiva de Novo Ano? hahahahaha (Bitch, plz!)

    Bom, não preciso me alongar, afinal toda a “escória” poderia ter simplesmente sido esquecida passando fome no último vagão se quisessem diminuir o número populacional. Então nada que se relacione a táticas de extermina-los ao longo do filme faz sentido algum.

    Eu poderia continuar apontando furos, erros, problemas, faltas de lógica e mediocridades técnicas desse filme mas eu simplesmente não tenho mais saco pra ficar pensando em uma obra tão bizarra como Expresso do Amanhã.

  • Antonio Guilherme em 10/03/2016 às 15:19

    Interessante seu ponto de vita, Pablo.

    Mas eu ja vi o filme de outra forma. vi o filme como uma critica a governos totalitarios esquerdistas comunistas. Onde há um ditador e os amigos dele que vivem como reis, enquanto a populaçao que é contra esse regime vive em verdadeiras gulags. Até a comida é racionada pelo estado. Sem falar que foi o intervencionismo estatal que começou todo o problema. Se isso não for uma crítica ao comunismo, eu não sei o que é.

    Essa é a beleza da arte. Cada um interpreta de uma forma.

    Abraço.

  • Renata Aquino em 01/09/2015 às 01:12

    Olá, Pablo!

    Você percebeu que a personagem da Tilda Swinton é uma referência direta à Ayn Rand? O visual é igualzinho. Você postou um vídeo sobre a Ayn Rand estes dias no twitter mas não comentou sobre essa personagem do Snowpiercer então pensei em fazer o comentário. :D

 

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