Críticas por Pablo Villaça

Poster: Expresso do Amanhã
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
27/08/2015 01/08/2013
Distribuidora
PlayArte

 

 

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Expresso do Amanhã
Snowpiercer

Expresso do Amanhã

Dirigido por Bong Joon-ho. Roteiro de Bong Joon-ho e Kelly Masterson. Com: Chris Evans, Song Kang-ho, Ko Ah-sung, John Hurt, Jamie Bell, Tilda Swinton, Alison Pill, Octavia Spencer, Ewen Bremmer, Emma Levie, Luke Pasqualino, Vlad Ivanov e Ed Harris.

Responsável por um dos melhores filmes dos anos 2000, o melancólico e angustiante Memórias de um Assassino, o cineasta sul-coreano Bong Joon-ho comandou também, nos últimos anos, o intrigante O Hospedeiro e o excelente Mother – obras que, mesmo trazendo certas marcas autorais, comprovavam uma versatilidade admirável. Pois em Expresso do Amanhã, seu primeiro trabalho fora de seu país natal, Joon-ho concebe uma alegoria que, além de abordar questões incrivelmente contemporâneas, ainda funciona graças às suas boas sequências de ação e a um visual arrebatador.

Inspirado na graphic novel francesa “Le Transperceneige”, o roteiro co-escrito pelo diretor ao lado de Kelly Masterson (Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto) tem início em 2014, quando, num esforço para reverter os efeitos do aquecimento global, alguns países lançam na atmosfera o composto químico CW7, que acaba por mergulhar o planeta em uma nova Era do Gelo. Dezessete anos depois, com a humanidade praticamente extinta, os poucos sobreviventes agora percorrem a superfície terrestre a bordo de um trem de alta velocidade construído pelo misterioso magnata Wilford (Harris). No entanto, enquanto a maior parte dos vagões é empregada para o conforto dos passageiros mais abastados, o vagão final é ocupado por uma multidão de miseráveis alimentados por um repugnante “bloco de proteína” e que, liderados pelo angustiado Curtis (Evans), acabam decidindo ir à força até a frente do expresso com o objetivo de confrontar seu criador/condutor.

Não é difícil deduzir, portanto, que Expresso do Amanhã depende pesadamente da maneira com que o trem do título é concebido pelo design de produção – e, neste sentido, o tcheco Ondrej Nekvasil não desaponta, estabelecendo uma lógica visual coerente que não apenas transforma cada vagão em um espaço memorável, mas também representa com brilhantismo a evolução destes à medida em que os heróis vão avançando pela composição. Inicialmente sujos, claustrofóbicos e dominados pelo cinza, os carros se tornam gradualmente mais espaçosos, confortáveis e passam a exibir cores intensas e vibrantes. Da mesma maneira, os figurinos de Catherine George seguem a lógica ao cobrirem com trapos desgastados e de cores tristes os pobres passageiros do último vagão, contrastando-os com as roupas obviamente caras exibidas por Claude (Levie), que surge apropriadamente num dourado que reflete sua posição social vantajosa, e pela desagradável Mason (Swinton), que inicialmente aparece com um vestido roxo que denuncia sua disposição em aniquilar os miseráveis. Além disso, é preciso aplaudir como os guerreiros encontrados em certo vagão exibem um uniforme que oscila entre o militar e o sadomasoquista, sendo complementado por máscaras que deixam apenas suas bocas expostas, tornando-os ainda mais ameaçadores ao ocultar seus olhos.

Aliás, a própria jornada ao longo do expresso se torna fascinante ao surpreender a cada novo vagão: aqui, um magnífico aquário cobre as paredes e o teto; ali, cores alegres complementam uma sala escolar na qual as crianças da elite futurista são condicionadas a encarar Wilford como uma deidade. Enquanto isso, a fotografia de Hong Kyung-pyo ressalta as qualidades do design de produção ao evoluir da escuridão inicial para a claridade agradável dos vagões dianteiros, encontrando espaço ainda para sugerir atmosferas particulares em um vagão-sauna banhado em amarelo e, claro, no sugestivo jogo de luzes do carro-boate. Para completar, Kyung-pyo obviamente se diverte ao empregar lentes grandes angulares para ressaltar a natureza grotesca das personagens de Swinton e Pill.

Sem temer a estilização tanto nos cenários quanto nos figurinos e na maquiagem que ajuda a caracterizar vários personagens, o diretor Bong Joon-ho também surpreende ao encontrar momentos de humor justamente através de certas caricaturas ou simplesmente através do inesperado, como ao retratar uma espécie de corrida de revezamento com uma tocha olímpica ou ao trazer a professora vivida por Pill executando vários gestos que sugerem todo um ritual que beira o religioso ao lidar com Wilford - e, claro, o cineasta comenta, através desta cena, como os dogmas são constantemente empregados para condicionar a população, o que encontra eco na maneira como o primeiro vagão é chamado de “Sagrada Máquina” e, claro, no jogo de palavras usado para se referir à personagem de Swinton, já que “minister” pode ser tanto “ministro” como “pastor”.  (E, não à toa, ela surge pregando para os miseráveis que estes deveriam se mostrar “agradecidos” diante da “generosidade” do deus-Wilford.)

Tropeçando nos fracos efeitos digitais usados para criar o mundo externo ao trem, Expresso do Amanhã ganha pontos, por outro lado, em função de seu ótimo elenco: se Chris Evans concebe Curtis como um sujeito que carrega um peso imenso sobre os ombros (fruto não só de sua posição de liderança, mas também de seus arrependimentos), John Hurt, com sua voz rouca e rosto maravilhosamente desgastado pela idade, sugere um líder suficientemente sábio e bondoso para inspirar o herói, mesmo que seu personagem acabe se revelando mais complexo do que isso. E se Tilda Swinton se entrega sem medo a uma eficaz caricatura, Ed Harris transforma Wilford em uma espécie de Oz ao expor segredos sobre seu papel naquela sociedade (aliás, a referência a Oz surge também no design de sua inicial espalhada pelos vagões).

Ambicioso também em sua temática (como boa parte das melhores ficções científicas), o longa emprega seu preciosismo técnico para construir uma alegoria cortante sobre a luta de classes – e é interessante perceber, por exemplo, como há um número cada vez menor de negros à medida em que avançamos pelo trem. Aliás, só o fato de trazer uma população de miseráveis espremida no fim do expresso enquanto um número bem menor de ricaços ocupa a maior parte do trem já expõe o propósito dos realizadores de fazer um comentário profundamente crítico ao capitalismo selvagem e à distribuição desequilibrada de renda nas sociedades industrializadas contemporâneas. Da mesma forma, é sintomático que, enquanto a massa de pobres é vista lutando por uma vida melhor, um bando de playboys drogados aparece dançando despreocupadamente, revoltando-se apenas quando veem seus privilégios sendo ameaçados (observem, por exemplo, como aparentemente decidem brigar por perderem uma garrafa de vinho).

Assim, quando alguém acusa Curtis de não reconhecer sua posição na hierarquia da sociedade, apontando que este se encontra “no lugar errado”, sua resposta não poderia ser mais perfeita:

Isto é o que as pessoas que estão nos melhores lugares dizem para as pessoas que ocupam os piores.

Neste momento, quase esperei ver seu interlocutor devolver um “Vá para Cuba, então!”, mas, felizmente, o nível de discussão proposto por Expresso do Amanhã é bem mais inteligente e ambicioso do que aquele que costumamos encontrar nas redes sociais.

26 de Agosto de 2015

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.