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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
23/09/2015 25/09/2015 1 / 5 2 / 5
Distribuidora
Warner

Um Senhor Estagiário
The Intern

Dirigido e roteirizado por Nancy Meyers. Com: Robert De Niro, Anne Hathaway, Rene Russo, Adam DeVine, Christina Scherer, Anders Holm, JoJo Kushner, Andrew Rannells, Zack Pearlman, Jason Orley e Celia Weston.

Teoricamente, Um Senhor Estagiário busca discutir a maneira vergonhosa com que tratamos nossos idosos, descartando-os justamente quando poderiam nos guiar após décadas acumulando maturidade, experiência e conhecimentos. Também em teoria, o filme debate como, em 2015, insistimos em julgar ou mesmo temer mulheres independentes que optam por se focar em suas carreiras em vez de se manterem no papel convencional de donas de casa e mães. Infelizmente, como foi escrito e dirigido por Nancy Meyers, o projeto acaba soando como aquilo que é: um discurso infantil, tolo e incoerente feito por uma cineasta que há muito tempo não faz qualquer ideia de como a vida real funciona e que, portanto, enxerga tudo através do prisma de sua existência repleta de privilégios.


Desta vez, Meyers tenta contar a história de um aposentado, Ben (De Niro), que, viúvo e entediado, decide se candidatar a um estágio voltado para indivíduos da terceira idade. Contratado, ele passa a trabalhar para Jules (Hathaway), cujo site de vendas de roupas se tornou um sucesso e cresceu rapidamente, pressionando-a para que ceda o comando da empresa a um CEO profissional. Apaixonada pela companhia (ela chega a passar algum tempo no call center atendendo clientes), a moça se vê dividida entre a carreira e a família, já que teme a distância do marido (Holm), que abriu mão da profissão para ficar em casa cuidando da filha do casal. Aos poucos, Ben supera os preconceitos que sua idade desperta nos jovens colegas e em sua chefe, passando a ajudá-los na empresa e fora desta.

Em outras palavras: Robert De Niro aqui interpreta uma Mary Poppins de terno, gravata e rugas – mas num filme sem qualquer sinal do charme do longa estrelado por Julie Andrews. Aliás, o roteiro de Meyers não chega a alcançar sequer o nível de uma sitcom rasteira, embora adote uma estrutura mais apropriada a uma série cômica medíocre, com direito a subtramas dispensáveis (como o relacionamento entre a secretária de Jules e um estagiário) e piadas que já se tornaram velhas na década de 80 (como aquela que envolve o choque de um sujeito ao julgar erroneamente ter presenciado a massagista interpretada por Rene Russo fazendo sexo oral em Ben).

Conseguindo arrancar uma risadinha ou outra ao longo de suas mais de duas horas de duração, Um Senhor Estagiário acerta, por exemplo, ao apontar a ridícula importância conferida a redes sociais ou ao ressaltar o constrangimento de uma situação que leva profissionais recém-saídos da adolescência a entrevistar um senhor de 70 anos. (Além disso, ver Anne Hathaway desejando “um bom casamento” a uma cliente chamada Rachel é uma referência até divertidinha ao longa estrelado pela atriz em 2008.)

No entanto, o filme desaba ao não perceber um problema óbvio em sua estrutura: o protagonista vivido por De Niro é um homem bem resolvido, seguro e que não precisa realmente daquele emprego, o que elimina qualquer arco dramático ou mesmo a possibilidade de um conflito significativo – e a única tentativa feita de criar algum obstáculo reside num problema de saúde atirado de qualquer forma no meio da projeção e prontamente ignorado assim que (não) cumpre seu objetivo. Para piorar, De Niro, um ator com uma carreira tão brilhante, parece estar se convertendo cada vez mais em uma coleção de tiques e maneirismos, nem sequer tentando compor um personagem minimamente complexo.

Não que Anne Hathaway se saia melhor – ainda que pelo menos demonstre um certo esforço de interpretação. Presa ao roteiro esquemático de Meyers, a atriz é forçada a alterar o comportamento de sua personagem de acordo com a necessidade de cada momento, soando segura/insegura, calorosa/fria e relaxada/reprimida dependendo da cena, sendo prejudicada também pela artificialidade da relação familiar apresentada pelo longa, já que seu marido e sua filha, além de encarnados por péssimos atores, parecem mais criaturas saídas de um comercial de margarina do que pessoas de carne-e-osso.

E estes nem são os problemas mais graves da produção, que beira o intolerável graças ao cinismo repugnante da diretora-roteirista: simulando uma preocupação social e política com o sexismo inegável que a sociedade ainda exibe, Meyers inclui um monólogo superficial sobre a importância da independência feminina apenas para, pouco depois, investir numa piada estúpida sobre uma mulher fazendo barbeiragens ao volante (Celia Weston, completamente desperdiçada). Como se não bastasse, ela retrata não apenas Jules, mas também sua secretária, chorando no trabalho (mas tudo bem, afinal a garota solta um “Detesto garotas que choram no trabalho”, comprovando que o filme reconhece o estereótipo que emprega – haha) – e, para assegurar que entendemos a mensagem, ainda exibe Ben (que se diz feminista!) afirmando que “as mulheres choram” e explicando que carrega um lenço para oferecer a estes seres incapazes de controlar seus sentimentos (estou parafraseando). O mais incrível é que a cineasta consegue errar até mesmo ao criar um núcleo familiar no qual a esposa trabalha fora e o marido cuida da casa, já que o máximo que consegue fazer é inverter o clichê, retratando Hathaway como o marido ausente e Holm como a esposa solitária e frustrada.

Já como diretora, Meyers demonstra uma notável incapacidade de evoluir: sua abordagem visual se limita ao velho esquema de plano-conjunto-para-apresentar-os-personagens-e-plano-e-contraplano-no-resto-do-tempo, enquanto a trilha composta por Theodore Shapiro faz questão de comentar toda a história, escancarando a falta de confiança da realizadora em sua capacidade de levar o espectador a reagir apropriadamente à narrativa sem a ajuda de dicas sonoras.

Mais uma vez criando um universo aparentemente sem indivíduos que não sejam brancos (acho que nunca vi um personagem negro em um de seus trabalhos), Meyers continua determinada a criar tramas que abordam conflitos emocionais de pessoas ricas e bem sucedidas, estabelecendo-se como o principal nome do gênero “rico também sofre”. Da mesma maneira, assim como havia feito em Do que as Mulheres Gostam, Alguém Tem que Ceder, O Amor Não Tira Férias e Simplesmente Complicado, ela novamente escala atrizes talentosas em papéis que teoricamente deveriam explorar a força feminina apenas para levá-las a viver personagens neuróticas e frágeis cujos problemas são solucionados pelos homens que entram em suas vidas.

Com isso, Um Senhor Estagiário solidifica a posição de sua criadora como uma autora de obras “feministas” capazes de agradar a qualquer machista de plantão.

22 de Setembro de 2015

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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