Críticas por Pablo Villaça

Poster: Sicario: Terra de Ninguém
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
22/10/2015 02/10/2015
Distribuidora
Paris Filmes

 

 

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Sicario: Terra de Ninguém
Sicario

Sicario: Terra de Ninguém

Dirigido por Denis Villeneuve. Roteiro de Taylor Sheridan. Com: Emily Blunt, Josh Brolin, Benicio Del Toro, Jeffrey Donovan, Daniel Kaluuya, Jon Bernthal, Victor Garber, Maximiliano Hernández.

A filmografia do cineasta canadense Denis Villeneuve é eclética em seu estilo, mas consistente em sua qualidade. Responsável por obras admiráveis como Politécnica, Incêndios, Os Suspeitos e O Homem Duplicado, o diretor é também um autêntico mestre na maneira com que constrói uma tensão insuportável em vários de seus longas e que em Sicario atinge um novo patamar.

Escrito por Taylor Sheridan, o filme é uma espécie de Traffic 2.0 que demonstra como as teses principais apresentadas naquele trabalho de Soderbergh eram essencialmente corretas: não há solução em curto ou médio prazo para o narcotráfico – e mesmo qualquer saída em longo prazo deve ser encontrada com perspectivas realistas, não com uma noção fantasiosa de acabar definitivamente com o consumo de drogas ilegais no planeta. Ambientado na fronteira entre o México e os Estados Unidos, o projeto se concentra na agente do FBI Kate Macy (Blunt), que lidera uma equipe responsável por libertar vários reféns dos traficantes ao longo dos meses. Escalada para fazer parte de uma força-tarefa, ela se torna inquieta com os métodos do misterioso agente Matt (Brolin) e, especialmente, com a presença do insondável Alejandro (Del Toro), cujo papel na equipe ela não consegue identificar.

Funcionando como a bússola moral do roteiro, já que jamais se mostra confortável com o que testemunha por mais que a visão de Matt possa soar pragmática e mesmo eficaz, Kate é uma mulher forte e independente que Emily Blunt encarna com uma expressão constantemente tensa e com grande segurança na maneira como se move e age durante as missões, deixando claro por que seus companheiros têm tanta confiança em sua liderança. Muitas vezes se forçando a aceitar a ação do novo chefe (chegando a se “motivar” ao ver fotos das vítimas do tráfico), Kate é uma protagonista curiosa, já que parece se colocar com frequência no caminho da ação em vez de liderá-la. Enquanto isso, Josh Brolin transforma Matt em um homem cujo temperamento imprevisível já é ilustrado por seu figurino, quando, na primeira cena em que aparece, se contrapõe aos ternos e gravatas dos colegas ao vestir camisa aberta, sandálias e ao exibir a barba por fazer.

Um dos grandes atrativos de Sicario, diga-se de passagem, é a contraposição não só entre Kate e Matt, mas entre este e o Alejandro de Benicio Del Toro: se Brolin surge como o ianque arrogante e com modos irreverentes, Del Toro confere um ar inquestionável de ameaça ao seu personagem apenas através do olhar e dos modos rígidos, já que sua performance traz pouquíssimos diálogos. Favorito desde já a indicações às premiações de fim de ano, o ator evoca não só perigo, mas também a dor de Alejandro: aquele homem pode ser letal, mas é claramente um indivíduo com seus próprios demônios pessoais, mostrando-se inquieto até mesmo ao dormir e falando em um tom controlado que sugere não só autodisciplina, mas uma natureza solitária.

Neste aspecto, a abordagem de Villeneuve é novamente consistente, já que busca sempre encontrar a humanidade de cada personagem – não só dos principais, mas até mesmo daqueles que costumamos ver morrendo aos montes em obras do gênero sem jamais sabermos nada sobre suas vidas, mas que aqui ganham algum tempo de tela para que possamos constatar como também têm amores, receios, famílias e assim por diante. Da mesma maneira, é sintomático perceber como o cineasta filma uma breve cena na qual Matt e Alejandro interrogam dezenas de imigrantes ilegais presos, quando Villeneuve detém a câmera próxima ao rosto de vários daqueles homens e mulheres para aproximá-los do público em vez de tratá-los como uma massa de estrangeiros.

Fotografado pelo magnífico Roger Deakins, que já havia trabalhado com o canadense em seu brilhante Os Suspeitos, Sicario é constantemente inundado por uma luz levemente superexposta que cria uma atmosfera de calor sufocante envolvendo aqueles personagens. Por outro lado, as internas costumam trazer uma paleta fria e claustrofóbica, sendo comum vermos os personagens abafados por objetos ou linhas verticais (como o plano que traz Kate enfocada entre a moldura do espelho, como se estivesse numa caixa). Já a montagem de Joe Walker concebe a tensão através da justaposição de quadros abertos, que situam a geografia da cena, com outros que subitamente surgem bem mais fechados, escondendo parte do que se encontra nas proximidades. Para encerrar, a trilha de Jóhann Jóhannsson se apresenta como outro elemento narrativo importantíssimo, ressaltando a tensão sem soar óbvia ou onipresente.

Aliás, estudar a maneira como as sequências de ação são construídas por Villeneuve e sua equipe é uma boa forma de perceber por que boa parte dos cineastas que trabalham no gênero atualmente fracassam tão vergonhosamente em suas tentativas de imprimir urgência à narrativa: observem, por exemplo, como um dos momentos mais tensos de Sicario é precisamente aquele no qual vemos dúzias de carros parados e constatarão a força de um diretor inspirado. Primeiro, Villeneuve estabelece o engarrafamento no início da sequência, quando o vemos na mão oposta àquela ocupada pela heroína e os demais anti-heróis; com isso, ao retornar ao local minutos depois, o filme já havia preparado o espectador para o espaço da cena, podendo reambientá-lo rapidamente através de alguns planos aéreos breves, mas concentrando-se mais em quadros fechados que refletem o nervosismo dos agentes enquanto vasculham os carros vizinhos. Em contrapartida, Villeneuve usa uma abordagem completamente diferente (mas também eficaz) no clímax, quando retrata a ação através de câmera com visão noturna (e que não é subjetiva, o que é raro) justaposta a outra que traz imagens térmicas (estas, sim, subjetivas, jogando o espectador para a posição dos personagens).

Chocante ao trazer a realidade pavorosa que domina várias cidades mexicanas (e que pode ser constatada também no fabuloso documentário Cartel Land, outro favorito a prêmios este ano), Sicario nos mostra um mundo no qual corpos pendurados em pontes e a presença de vários jipes da polícia federal cruzando as ruas nem parecem afetar seus habitantes. É um universo triste que o filme não busca tornar mais palatável, já que é cínico – ou melhor: realista – ao demonstrar para o público que aquela é uma situação complexa e sem saída aparente em que pequenas vitórias são até possíveis, mas da qual o máximo que se pode esperar é algum controle sobre qual criminoso fará menos estrago ao ser mantido no comando.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2015.

19 de Maio de 2015

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.