Poster: Boi Neon

 

 

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Banner: Boi Neon

Datas de Estréia: Notas:
Brasil Exterior Crítico Assinante Distribuidora
14/01/2016 Não Disponível
Imovision

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Dirigido e roteirizado por Gabriel Mascaro. Com: Juliano Cazarré, Maeve Jinkings, Alyne Santana, Josinaldo Alves, Samya De Lavor, Vinícius de Oliveira, Carlos Pessoa, Abigail Pereira.

Em certo momento do primeiro ato de Boi Neon, a pequena Cacá, que vive em meio ao universo das vaquejadas, expressa sua fascinação não pelo gado que está acostumada a ver o tempo todo, mas pelos cavalos que admira a certa distância – e imediatamente ouve o contraponto do vaqueiro Iremar, que, de forma pragmática, aponta que aqueles animais são belos, mas não úteis como os bois que costuma conduzir rumo às pequenas arenas da região.

Trata-se de uma cena breve, mas que resume de forma belíssima o tema central do longa: aquelas pessoas podem até sonhar (metafórica ou literalmente) com cavalos, mas levam vidas de gado. Não à toa, o filme abre com a imagem angustiante de bois amontoados uns sobre os outros em um estreito cercado enquanto aguardam o momento no qual serão empurrados rumo ao saibro, perseguidos por dois cowboys e violentamente puxados pelo rabo até serem derrubados para delírio da plateia. Um dos responsáveis por passar areia nos pelos da cauda dos pobres bichos, facilitando o puxão, é Iremar (Cazarré), que também ajuda a transportá-los dos currais aos espaços dos confrontos, sendo auxiliado por Zé (Pessoa) e Mário (Alves) em um cotidiano supervisionado pela caminhoneira Galega (Jinkings). Completando esta quase família vem a filha pequena de Galega, Cacá (Santana), que insiste em permanecer ao lado da mãe mesmo sendo constantemente pressionada a ir morar com os avós a fim de poder estudar.

Escrito pelo diretor Gabriel Mascaro, Boi Neon não é filme de trama, mas de observação: com uma narrativa concebida a partir de longos planos que se dedicam a acompanhar aqueles personagens, o filme faz jus à origem de documentarista do cineasta ao sugerir estar simplesmente registrando eventos que se desenrolam naturalmente diante da câmera – uma “simplicidade” absurdamente difícil de ser alcançada, claramente dependendo de um elenco mergulhado na lógica daquele mundo e de uma direção que deve ser intimista sem soar intrusiva.

Ciente de que somos criaturas complexas, o filme parece determinado a subverter nossas expectativas e a fugir de estereótipos e preconceitos: se Galega é uma caminhoneira que cuida sozinha da manutenção do veículo (e é sintomático que o Word tenha acabado de sublinhar a palavra “caminhoneira” por não reconhecê-la no feminino), Iremar alterna suas tarefas de vaqueiro, limpando bosta de boi e marcando gado, com aquela que é sua verdadeira paixão: desenhar e costurar roupas femininas, chegando a afundar os pés num lamaçal para recolher restos de manequins que possam vestir suas criações. Aliás, nada no universo criado por Mascaro é óbvio – e até gestantes, normalmente (e paradoxalmente) retratadas como seres assexuados, aqui se tornam mulheres repletas de desejo e sensualidade.

Despertando nosso carinho por seus personagens ao enfocar suas interações e o cotidiano de trabalho constante no qual vivem, Boi Neon obviamente compartilha de nosso amor por aquelas pessoas, rindo de suas provocações bem-humoradas, exaurindo-se ao retratar seus esforços e comovendo-se ao enfocar seus sonhos. Aliás, se acreditamos na realidade daquelas atuações, esta força se origina em momentos aparentemente triviais: quando Iremar surge lavando a carroceria antes ocupada pela boiada, sua familiaridade com a tarefa é evidenciada através da maneira com que orienta o colega a não molhar as fezes dos animais, coletando-as com a mão e atirando-as para fora do caminhão com a naturalidade de quem passou anos executando o movimento. Já em outro ponto da projeção, Galega se depila na boleia do caminhão, assumindo uma posição desconfortável, mas que, percebemos, encontrou depois de inúmeras “sessões”, ao passo que Cacá jamais hesita em dar respostas atrevidas ao ser provocada pelos vaqueiros, ilustrando a intimidade construída entre todos.

Oscilando com segurança entre sequências cômicas (como a que envolve uma tentativa de roubo de sêmen) e dramáticas (carente, Cacá pede um abraço a Iremar), Boi Neon é fotografado com brilhantismo por Diego Garcia, que também se equilibra com talento entre a necessidade de retratar a crueza daquele mundo e a busca por uma estética plasticamente memorável. Assim, se em um momento vemos um casal transando no canto do quadro em meio a sombras duras enquanto se escoram em um cocho e dividem o curral com vários animais, em outro acompanhamos uma mulher (supostamente a própria Galega) que, com o rosto oculto por uma máscara de cavalo, dança sensualmente sob uma intensa luz vermelha.

O que me traz ao simbolismo magistral construído por Mascaro e que, partindo da conversa que descrevi na abertura deste texto, transforma os cavalos admirados por Cacá em uma representação dos sonhos dos personagens – e como é triste ver a garota desenhando seus animais favoritos nas páginas de uma revista pornográfica cujas páginas se encontram coladas pela ejaculação de homens carentes (aliás, é interessante notar que Iremar também havia rabiscado seus sonhos naquele espaço, cobrindo os corpos nus das modelos com seus designs de moda). Da mesma forma, o filme traz uma sequência emblemática – e incrivelmente evocativa – ao enfocar um adestrador que, em um picadeiro cercado por escuridão, acaricia a barriga de um cavalo como se este fosse um animal caseiro, de estimação, como se as aspirações representadas pelo bicho estivessem sob seu controle.

A tragédia daqueles homens e mulheres, contudo, é que a mesma coisa que os torna fascinantes (sua adaptação ao mundo de secura que habitam) é também o que limita suas possibilidades – e mesmo que cubramos o boi de suas realidades com tinta neon, levando-o a brilhar no escuro, isto não impedirá que ele seja subordinado à vontade dos vaqueiros. Pois, assim como o gado que criam, Iremar e seus companheiros correm apenas para serem derrubados.

Evitando a artificialidade de tentar encontrar resoluções dramaticamente satisfatórias para seus personagens, Boi Neon nos leva a reconhecer que estes, por mais que lutem, estão condenados por suas circunstâncias a continuar sonhando.

Neste sentido, as aspirações daquelas pessoas são como o pequeno cavalo alado e brilhante que Cacá, numa brincadeira infantil que a representa tristemente, mantém suspenso sobre o gado aprisionado de sua realidade.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival do Rio 2015.

06 de Outubro de 2015

 

Comente!

  • Pablo Cristiano Rodrigues da Silva em 22/01/2016 às 01:27

    O que achei do filme está em minha crítica nesse link: https://www.youtube.com/watch?v=wvEP4VM6tJM

  • Cristiane Brum Bernardes em 20/01/2016 às 11:38

    Linda crítica, Pablo. Também achei o filme muito impressionante, especialmente por subverter as nossas expectativas/preconceitos na construção dos personagens. As cenas das vaquejadas me deixaram muito angustiada, e concordo com a tua leitura de que, realmente, todos ali compartilham do mesmo destino dos bois: serem conduzidos, quase sem nenhuma autonomia sobre a própria vida. Abraço!

 

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