Críticas por Pablo Villaça

Poster: Mate-me Por Favor
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
15/09/2016 Unknown
Distribuidora
Imovision

 

 


Mate-me Por Favor
Mate-me Por Favor

Mate-me Por Favor

Dirigido e roteirizado por Anita Rocha da Silveira. Com: Valentina Herszage, Dora Freind, Mariana Oliveira, Júlia Roliz, Bernardo Marinho.

Quando Mate-me Por Favor tem início, o rosto fortemente maquiado de uma bela jovem toma conta da tela. Embriagada e com os olhos lacrimejantes, a garota começa a caminhar pelas ruas desertas da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, até chegar a uma área desocupada e tomada por uma leve vegetação. Segundos depois, ela estará morta ao ser atacada por um serial killer que está aterrorizando a região.

Rodada de maneira absolutamente artificial, a sequência parece trazer todos os clichês dos slasher movies da década de 80: a câmera que acompanha a vítima (uma garota bonita e sensual) enquanto esta corre; a trilha sonora óbvia; o olhar da pessoa prestes a ser morta voltado diretamente para a lente e, claro, os gritos aterrorizados que deixariam Jamie Lee Curtis orgulhosa. Trata-se, portanto, de uma introdução que promete um filme problemático e pouco ambicioso.

Uma impressão que a diretora e roteirista (estreante em longas) Anita Rocha da Silveira desfaz gradualmente e de forma surpreendente: passando a acompanhar a adolescente Bia (Herszage), que logo se apresenta como protagonista ao se virar e olhar para o espectador em sua primeira cena, o longa aos poucos deixa claro estar ciente de sua artificialidade – aliás, mais do que isso: parece explorá-la para subverter o gênero, usando-o como uma alegoria para questões mais complexas do que inicialmente supomos. Neste aspecto, a inspiração mais patente da diretora acaba sendo não Wes Craven ou John Carpenter, mas David Lynch, já que a narrativa logo começa a se equilibrar entre uma visão naturalista dos incidentes abordados e outra mais carregada de simbolismos.

A intenção da cineasta pode ser observada, por exemplo, na forma estilizada com que constrói os elementos físicos da narrativa ao lado da diretora de arte Dina Salem Levy e da figurinista Ana Carolina Lopes: ao retratarem os cultos evangélicos frequentados pelos personagens, elas vestem a pastora com roupas de cores chapadas, gritantes, e a colocam diante de uma cruz de neon enquanto o templo à volta dos religiosos se limita a uma escuridão sem fim. Da mesma maneira, o roxo, uma cor associada à morte, surge de forma recorrente, pouco sutil, durante a projeção: no sofá da casa da protagonista, na camisa de seu irmão, nas luzes que banham uma festa de aniversário, no apito exibido pela pastora e assim por diante, indicando uma utilização do design de produção como origem de signos.

Não à toa, o vermelho também faz aparições constantes – não só no sangue artificial que jorra frequentemente (cobrindo completamente a tela, em certo ponto), mas através de efeitos luminosos como aquele que parece trazer dezenas de círculos/glóbulos tomando conta do quadro. E o vermelho, sempre é bom lembrar, remete à violência, claro, mas também ao sexo e a paixões intensas (como já escrevi algumas vezes, acho fascinante e revelador que nossa espécie enxergue amor e violência na mesma cor).

Porque se há um centro temático em Mate-me Por Favor, este reside na busca de Bia por sua sexualidade e na experimentação com o prazer e o próprio corpo: mostrando-se obcecada em transar com o namorado evangélico (que sempre resiste, mas acaba cedendo), a moça torna-se também fascinada pelas ações do serial killer e, principalmente, pelas vítimas deste, numa curiosidade mórbida, mas que reflete outros elementos importantes da obra: culpa e punição.

Reconhecendo a adolescência como um período de descobertas que frequentemente são feitas às custas de uma profunda angústia, a cineasta cria, aqui, um universo povoado apenas por jovens (não há um único adulto ao longo de toda a projeção) e também por uma sexualidade sempre presente, já que vemos – ou melhor: Bia vê, guiando nosso olhar – casais se beijando e se apalpando o tempo inteiro e em todos os lugares. No entanto, a erupção hormonal, que é natural e deveria ser assim encarada, é logo sufocada por dogmas, preconceitos e tabus, que ganham representação na pastora e, evidentemente, nos assassinatos.

O que nos traz de volta ao uso do terror como forma de discutir estas questões, já que este sempre foi um gênero moralista que pune personagens que cedem ao desejo e recompensa virgens e figuras recatadas. Aliás, é fascinante perceber como vários colegas da protagonista começam a exibir feridas à medida que o filme avança, apresentando, em seus corpos, estigmas consequentes do desejo.

É uma pena, portanto, que Mate-me Por Favor, mesmo capaz de despertar tantas interpretações, dependa mais do que deveria do espectador para que estas sejam encontradas, já que sua narrativa é por vezes frouxa demais para construir uma lógica coesa. Para piorar, o roteiro traz, na maior parte do tempo, diálogos pavorosamente ruins que se tornam ainda piores graças ao elenco irregular.

O que não deixa de transformar Anita Rocha da Silveira em uma promessa de voz singular.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival do Rio 2015.

05 de Outubro de 2015

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.