Críticas por Pablo Villaça

Poster: Star Wars: Episódio VII - O Despertar da Força
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
17/12/2015 18/12/2015
Distribuidora
Disney

 

 

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Star Wars: Episódio VII - O Despertar da Força
Star Wars: Episode VII - The Force Awakens

Star Wars: Episódio VII - O Despertar da Força

Dirigido por J.J. Abrams. Roteiro de Michael Arndt, J.J. Abrams e Lawrence Kasdan. Com: Harrison Ford, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Adam Driver, Domhnall Gleeson, Kenny Baker, Peter Mayhew, Anthony Daniels, Lupita Nyong’o, Andy Serkis, Max von Sydow, Carrie Fisher e Mark Hamill.

J.J. Abrams é um cineasta que aprende com a experiência: responsável por um bem-sucedido reinício para Star Trek, ele aplicou a mesma lógica ao assumir o comando de outra série clássica da ficção científica, transformando Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força em uma continuação que soa também como refilmagem. Com isto, o diretor leva o espectador a experimentar uma sensação mista de nostalgia e encanto diante da novidade, construindo uma obra que recria momentos icônicos ao mesmo tempo em que parece descobrir elementos novos de um universo já conhecido.

Escrito por Michael Arndt, J.J. Abrams e pelo veterano Lawrence Kasdan (O Império Contra-Ataca, Os Caçadores da Arca Perdida), este O Despertar da Força se passa três décadas depois de O Retorno de Jedi e (não se preocupem, não revelarei nada que não esteja nos trailers ou no primeiro ato do filme) traz a galáxia sob a ameaça da Primeira Ordem, que surgiu a partir dos escombros do Império. Enfrentando a resistência dos rebeldes, os vilões encaram a destruição de Luke Skywalker (Hamill) como algo fundamental para seu sucesso, dedicando seus esforços para encontrá-lo – e a única pista de seu paradeiro encontra-se sob o poder do pequeno droide BB-8. Assim, quando este é “adotado” pela jovem Rey (Ridley), a garota passa a ser perseguida pelo ameaçador Kylo Ren (Driver), que tampouco vê com simpatia o ex-stormtrooper Finn (Boyega).

Como é fácil perceber apenas pela breve descrição acima, a estrutura básica de O Despertar da Força segue de perto a de Uma Nova Esperança – e as similaridades acontecem também nos outros dois atos da narrativa. Da mesma forma, se Luke era um jovem que se sentia deslocado e aos poucos descobria sua vocação e seu lugar no mundo sob a orientação de Obi-Wan, aqui a dinâmica é repetida entre Rey e outro veterano, seguindo uma jornada que remete muito à do padawan original em seus percalços, dramas e aprendizados. E se antes tínhamos Darth Vader agindo como o capanga do Imperador, agora temos outro mascarado atuando sob o comando de um impiedoso líder supremo que abomina a tradição Jedi.

As semelhanças, claro, não surgem apenas na trama, mas nos demais aspectos narrativos: o filme abre, como não poderia deixar de ser, num letreiro que resume a premissa e que cede lugar a uma panorâmica que vai das estrelas a um objeto de interesse (neste caso, um planeta), enquanto a montagem investe em várias cortinas (aquelas transições entre cenas que envolvem uma barra cruzando a tela) e em íris que se fecham em algum ponto da cena. Além disso, as rimas clássicas da saga são mantidas através de diálogos (“Tenho um mau pressentimento sobre isso.”) e das relações entre os personagens, que vivem conflitos... bastante familiares aos fãs, digamos.

Em outras palavras, O Despertar da Força sabe estar lidando com elementos mitológicos da cultura popular, reconhece-os como tal, demonstra alegria incontida por poder utilizá-los e parece não acreditar na própria sorte ao fazê-lo. Neste sentido, até o mestre John Williams exibe reverência às próprias composições – e quando o capacete de Vader surge brevemente (acalmem-se, isto está no trailer!), é claro que o tema clássico do personagem pode ser rapidamente ouvido. Assim, ao longo dos 135 minutos de projeção, cada item da trilogia original revisitado é reintroduzido com idolatria absoluta, já antecipando a excitação dos fãs ao vê-los na tela – uma postura que poderia se tornar irritante ou presunçosa, mas que acaba sendo apenas contagiante.

No entanto, recuperar aspectos já estabelecidos da série é apenas parte do bom trabalho de Abrams, que também é bem-sucedido ao apresentar seus novos integrantes: John Boyega, como Finn, demonstra não apenas possuir imenso carisma como um timing cômico invejável, ao passo que Oscar Isaac evoca a valentia de Poe Dameron com talento. Ainda assim, é a estreante Daisy Ridley quem domina a projeção ao criar uma heroína forte, competente e cuja coragem soa como resultado direto de um passado que, mesmo misterioso, contém sementes dramáticas suficientes para despertar a simpatia do público. E se Carrie Fisher e Harrison Ford vestem confortavelmente as peles de seus velhos personagens (e Ford, em particular, aproveita para acrescentar camadas importantes ao que já sabíamos sobre Han Solo), Adam Driver quase rouba o filme com seu Kylo Ren, que, sob a máscara amedrontadora, revela um vilão que, apesar do tom de voz controlado, oculta uma impulsividade que revela uma imaturidade importante para que possamos compreender suas motivações e objetivos (e sua cena-chave – você a reconhecerá – é brilhante ao sugerir toda a dor por ele experimentada).

Este equilíbrio entre a reverência ao passado da série e o impulso de traçar novos caminhos encontra eco na própria direção de Abrams, que consegue, mesmo respeitando a estética da trilogia original, introduzir seus próprios toques autorais (como seus já inevitáveis flares) e buscar formas interessantes de promover maior dinamismo – e gosto particularmente de como, ainda no primeiro ato, ele corta de um primeiro plano de Finn em seu capacete de stormtrooper para outro no qual vemos Rey com o rosto oculto por bandagens, fazendo uma rima elegante ao mesmo tempo em que apresenta os dois personagens centrais do novo filme. Além disso, há aqueles momentos nos quais o diretor quer apenas (e compreensivelmente) criar imagens impactantes – e o plano no qual vemos alguns tie fighters voando diante do sol que se põe é belo o bastante para merecer ser emoldurado e pendurado na parede da sala.

Já o design de produção de Rick Carter e Darren Gilford segue a lógica estabelecida por John Barry para Uma Nova Esperança, imaginando um mundo que, ainda que futurista, parece velho e sujo. Por outro lado, os designers também deixam suas marcas ao conceberem ao menos um cenário que já surge icônico: a ponte de metal sobre o abismo que, apesar de remeter àquela vista durante o embate entre Vader e Luke em O Império Contra-Ataca (uma referência apropriada), ganha força própria graças ao ambiente vasto e escuro que a cerca e por trazer um emblemático facho de luz destacando os indivíduos que nela se encontram. Aliás – e sempre evitando spoilers – é preciso reconhecer a inteligência da fotografia de Daniel Mindel nesta cena, já que usa o vermelho de forma simbolicamente inteligente ao cobrir parte do rosto de certo personagem enquanto este se encontra dividido sobre o que fazer a seguir, finalmente conferindo maior intensidade à cor quando uma decisão é tomada.

Eficiente ao empregar o humor de maneira orgânica à narrativa, evitando gags excessivamente infantis (cof-Jar Jar-cof) e permitindo que cada personagem possa se beneficiar da simpatia despertada pelo riso, este Episódio VII oferece também amplas oportunidades para que o veterano designer de som Ben Burtt combine sua experiência nos seis filmes anteriores com aqueles obtidos em Wall-E, (re)criando os ruídos de sabres de luz, naves poderosas, blasters e, claro, aqueles emitidos pelo adorável BB-8, que exibe uma personalidade própria ao reagir a todos os estímulos externos (e é curioso notar que o comediante Bill Hader contribuiu para criar seu “vocabulário”). Para completar, a decisão de Abrams de evitar o excesso de efeitos e cenários digitais aplicados em telas verdes contribuiu para trazer uma fisicalidade importante ao longa e que claramente faltava nas prequels (não à toa, o único tropeço é a natureza digital de Snoke). Claro que, aqui e ali, Abrams e seus colaboradores exageram nas alegorias – e a cena envolvendo um discurso do General Hux (Domhnall Gleeson, excelente) é particularmente carregada no simbolismo nazista, desde a imensa bandeira até a saudação do exército de stormtroopers.

Admirável ao fugir do velho padrão dos protagonistas encarnados por homens brancos e heterossexuais, O Despertar da Força merece aplausos não só por concentrar sua trama em torno de minorias (Rey é mulher; Finn é negro; Dameron é latino), mas também por não se congratular por isso, já que a natureza biológica destes personagens jamais faz qualquer diferença, demonstrando, com isso, como a insistência de Hollywood no velho padrão é desnecessária e preconceituosa. Como se não bastasse, o projeto evita até mesmo a velha armadilha de criar uma heroína forte apenas para fazê-la ser resgatada por algum homem – e, assim, quando Finn agarra sua mão ao perceber uma ameaça, Rey logo reconhece o clichê e protesta “Eu sei correr sem dar a mão!”, num momento que beira a metalinguagem ao apontar a convenção que se nega a seguir.

Despedindo-se do espectador com aquele que é provavelmente o plano final mais belo da saga, O Despertar da Força é um filme que reconhece e respeita suas origens, usando-as para formar seu próprio recomeço de modo seguro e marcante – e as lágrimas que desperta são fruto não apenas de despedidas marcantes, mas do reconhecimento de que acabamos de fazer novos e inesquecíveis amigos.

19 de Dezembro de 2015

Críticas anteriores da série: A Ameaça Fantasma, Ataque dos Clones, A Vingança dos Sith e The Clone Wars.

Videocast SEM spoilers

Videocast COM spoilers

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.