Poster: Os Oito Odiados

 

 

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Banner: Os Oito Odiados

Datas de Estréia: Notas:
Brasil Exterior Crítico Assinante Distribuidora
07/01/2016 25/12/2015
Diamond Films

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Dirigido e roteirizado por Quentin Tarantino. Com: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Bruce Dern, Demian Bichir, Michael Madsen, Tim Roth, James Parks, Channing Tatum, Dana Gourrier, Zoë Bell.

Capítulo 1 (sem spoilers): O Segredo da Cabana...

Em certo momento de Os Oito Odiados, o personagem de Samuel L. Jackson conta uma extensa e detalhada história que, verdadeira ou não, tem o claro propósito de provocar uma reação forte em seu interlocutor – uma história que lida com raça, abuso sexual e violência. Trata-se de um instante revelador, quase metalinguístico, que claramente funciona como uma referência à carreira de seu criador, que, como sua criação interpretada por Jackson, obviamente se diverte ao construir narrativas que não apenas despertam controvérsias, mas parecem interessadas em atraí-las.

A metalinguagem, diga-se de passagem, surge já no título do filme, que, oitavo longa da carreira do diretor, faz uma referência ao fato no número que contém (e que não condiz com a quantidade de “odiados” da história em si) e também, claro, ao remeter a Fellini 8 ½ (que Tarantino já havia homenageado em Pulp Fiction, não nos esqueçamos). Dividido em capítulos como tantas outras obras do realizador, Os Oito Odiados acompanha o caçador de recompensas John “O Enforcador” Ruth (Russell), que conduz a prisioneira Daisy Domergue (Leigh) até a cidade na qual será executada. No caminho, eles encontram o também caçador de recompensas Major Marquis Warren (Jackson), que lutou pela União (obviamente) durante a Guerra Civil, e o xerife Chris Mannix (Goggins), que participou do conflito do lado da Confederação. Como se isto já não gerasse tensão suficiente, o grupo é obrigado, pela tempestade de neve que os cerca, a buscar abrigo em uma cabana no meio do nada e que já encontra-se ocupada pelo general confederado Sandy Smithers (Dern), pelo carrasco britânico Oswaldo Mobray (Roth), pelo taciturno Joe Gage (Madsen) e pelo mexicano Bob (Bichir). Como este é um trabalho de Tarantino, não demora muito até que o sangue comece a jorrar.

Concebido basicamente como um filme de câmara (pensem em Festim Diabólico, 12 Homens e uma Sentença ou no episódio “Fly” de Breaking Bad), Os Oito Odiados é um longa que basicamente exige uma atmosfera claustrofóbica – e, portanto, é fascinante que Tarantino e o diretor de fotografia Robert Richardson tenham decidido rodá-lo não apenas em 70mm, mas com lentes anamórficas que acabam resultando numa razão de aspecto de 2.76:1 que parece prometer um espetáculo visual em planos gerais e locações amplas que nunca se concretiza. Isto não quer dizer, porém, que Os Oito Odiados não seja esteticamente brilhante, pois é – a começar por sua habilidade em conseguir atingir o tom claustrofóbico necessário através dos quadros fechados e da brancura opressiva da neve que cerca a cabana e da ventania ruidosa e constante que jamais nos deixa esquecer da natureza hostil que matará qualquer um que se aventure a sair dali. (Além disso, o fato de lidar com personagens confinados junto a um inimigo desconhecido em meio à neve permite que Tarantino faça outra referência cinematográfica, desta vez a O Enigma de Outro Mundo – uma referência que se torna mais escancarada graças à presença de Kurt Russell e da utilização de trechos da trilha composta por Morricone para aquele filme e que aqui surgem justamente numa cena-chave envolvendo o ator.)

Da mesma forma, é intrigante perceber como a imensa razão de aspecto traz desafios ao design de produção, já que exige um cuidado ainda maior com os detalhes da cabana, que acabam surgindo ao fundo mesmo em planos fechados (e nos abertos, claro, precisam ocupar áreas bem maiores do que o normalmente necessário). Assim, não só a geografia restrita da cabana traz um imenso número de elementos (jarras com guloseimas, utensílios pendurados nas vigas que percorrem o teto, prateleiras tomadas por potes e garrafas, etc) como ainda se revela como uma combinação de pousada e saloon em um aposento único, sem divisórias, que consegue sugerir ambientes diversos apenas através da diferença na luz e de correntes e ganchos suspensos aqui e ali.

Povoado pelas marcas registradas de Tarantino, o longa traz vários planos com split focus (elementos próximos e distantes da câmera se encontram nítidos, embora o espaço entre eles não esteja), um recurso ainda mais importante na fotografia anamórfica, que normalmente tem profundidade de campo reduzida; divisão em capítulos; cronologia quebrada com uso de flashbacks; referências à fictícia marca de cigarro (aqui tabaco) Red Apple; e, claro, uma quantidade absurda de diálogos. Contrariando a convenção cinematográfica do “não conte; mostre”, o realizador usa as falas para revelar diversos incidentes do passados dos personagens, cortando para flashbacks que os ilustram em apenas um breve momento (e justamente quando não temos certeza sobre a verossimilhança do que é dito, em mais uma ironia tarantiniana). No entanto, em vez de prejudicar o filme, esta abordagem de Tarantino o enriquece ao manter o espectador no presente, transformando-o em mais um dos ouvintes dos casos narrados.

Aliás, se há algo que se torna patente durante a projeção (e da própria carreira do cineasta) é que Tarantino adora o processo narrativo em si, divertindo-se, por exemplo, ao repetir informações já marteladas, ao levar o público a rever certas passagens a partir de pontos de vista diferentes e ao antecipar elementos que outros realizadores manteriam em segredo (a base do “Capítulo 4”, por exemplo). Além disso, o diretor demonstra seu talento invejável para criar sequências de tensão palpável ao sugerir explosões de violência minutos antes que estas ocorram de fato – e reparem como ele usa a velha melodia de “Noite Feliz” para construir esta atmosfera ao levar certo personagem a retornar ao início da canção sempre que erra uma nota. Para completar, é notável como o mestre Ennio Morricone compreende as intenções de Tarantino, fugindo de temas típicos do western para, em vez disso, apostar em temas sombrios hábeis em evocar coisas terríveis ainda por vir.

Claro que o excesso aparente de diálogos pode soar como autoindulgência do cineasta (algo que não é exatamente raro em sua filmografia), mas é difícil negar que, ao investir basicamente metade da obra apenas para apresentar seus personagens, ele potencializa os conflitos entre estes, já que precisamos conhecer suas personalidades para compreendermos de fato a natureza de suas desavenças. E é claro que o elenco aprecia a oportunidade: Kurt Russell, por exemplo, confere uma decência surpreendente ao seu caçador de recompensas, o que torna sua brutalidade para com Daisy ainda mais chocante (especialmente se considerarmos gestos pontuais de delicadeza, como ao limpar seu rosto durante o jantar), ao passo que Walter Goggins mantém o público sempre incerto com relação à honestidade do xerife Mannix. E se Tim Roth diverte ao imitar Christoph Waltz e Bruce Dern explora bem sua cena mais importante, Demian Bichir e Michael Madsen fazem o que podem com personagens menos relevantes, conferindo vida suficiente a estes para despertar nosso interesse.

No entanto, não há dúvida de que o centro de Os Oito Odiados é mesmo composto pelas performances de Samuel L. Jackson e Jennifer Jason Leigh. Buscando se afirmar numa época em que negros em posição de autoridade eram mais raros do que risadas em um filme de Adam Sandler, o major Marquis Warren é um homem inteligente, mas inquestionavelmente cruel. Habituado a ter que sobreviver diante do racismo de praticamente todos que o cercam, ele encontra, na violência (para não mencionar outros subterfúgios), uma arma não só para se firmar, mas também para se vingar, sendo curioso também como acaba sendo transformado pela história em uma espécie de detetive de Agatha Christie (e Os Oito Odiados tem sua parcela de O Caso dos Dez Indiozinhos, embora o fato de todos os personagens aparentemente terem algo a esconder remeta também a Assassinato no Expresso do Oriente).

O que nos traz à Daisy Domergue de Jennifer Jason Leigh, que rouba o filme de todos os seus colegas do sexo masculino. Inteligente, irreverente e com um toque de insanidade que a transforma no elemento mais imprevisível do filme, Daisy é também o saco de pancadas favorito do longa, já que surge em cena já com o olho esquerdo roxo e é submetida a todo tipo de brutalidade durante as quase três horas seguintes. Porém, ao mesmo tempo que isto a torna vulnerável (atraindo a simpatia do espectador), permite também que constatemos sua força, já que ela jamais se deixa abalar pelos golpes que leva – ao contrário: faz questão de demonstrar para seus algozes que ainda está longe de chegar ao seu limite.

E é esta postura firme que a transforma em uma figura tão memorável e forte, estabelecendo-a como mais uma das excepcionais personagens femininas do universo criado por Tarantino.

O que, claro, não a torna menos odiosa do que seus companheiros naquela sufocante cabana de madeira.

 

Capítulo 2 (com spoilers): ... É que Representa um País

Um dos recursos clássicos ao criar uma alegoria reside em empregar um microcosmos como representação do macro; o particular como símbolo de algo mais amplo; o detalhe como substituto do geral. É o que permite, por exemplo, que a trajetória da família Corleone remeta à própria História dos Estados Unidos e que a Máfia na trilogia de Coppola surja como um comentário sobre o Capitalismo – e também é o que transforma Os Oito Odiados em algo maior do que simplesmente um exercício niilista.

Sim, em uma leitura puramente superficial, o filme de Quentin Tarantino parece se satisfazer apenas em colocar diversos personagens desprezíveis em um mesmo espaço por algumas horas até que suas naturezas os conduzam à destruição mútua, mas um olhar um pouco mais cuidadoso indica uma intenção mais ambiciosa por trás da narrativa construída pelo cineasta.

Ora, em maior ou menor grau, a filmografia de Tarantino constantemente lida com questões políticas e/ou sociais como o preconceito, seja este manifestado através do racismo ou do sexismo – e, não à toa, suas tramas costumam girar em torno de personagens em busca de vingança, permitindo que suas dores pessoais funcionem como espetáculos sangrentos de catarse coletiva através da possibilidade de reparação contra nazistas (Bastardos Inglórios), misóginos (À Prova de Morte) ou escravagistas (Django Livre). Assim, não é surpresa que por trás da trama aparentemente simples de Os Oito Odiados haja uma discussão consideravelmente mais complexa.

Em primeiro lugar, analisemos os indivíduos que o cineasta coloca naquela cabana: há um negro (o major Warren) e um representante da Confederação racista (o general Smithers); há um sujeito que supostamente enriqueceu ao se tornar sócio de uma empreitada (Joe Gage) e o pobre condutor da carruagem que é obrigado a trabalhar mais do que todos (O.B. Jackson); há o representante da Lei (John Ruth) e aquela que ameaça a Ordem (Daisy); e há, finalmente, o britânico que simboliza aqueles que colonizaram a América (Oswald Mobray) e o mexicano que representa a natureza colonialista do país recém-formado (Bob). Logo descobrimos, também, como o general Smithers massacrou um batalhão de soldados negros, como o major Warren massacrou um contingente de índios, como Minnie (a dona da cabana, que era negra) odiava mexicanos e como todos parecem confortáveis em espancar ou ameaçar Daisy, a única mulher do grupo.

Não requer muita imaginação, portanto, para constatar como o espaço dividido por todas aquelas pessoas de origens diferentes é uma representação da própria “América” (como os norte-americanos gostam de chamar os Estados Unidos) - palco, ainda hoje, de demonstrações crescentes de intolerância contra todo tipo de minoria: negros, gays, latinos, mulheres e, de forma cada vez mais óbvia, muçulmanos. Assim, quando Os Oito Odiados intitula seu derradeiro capítulo como “Homem Negro, Inferno Branco”, a conotação racial é inquestionável (mesmo que o branco também se refira à neve que cerca os personagens). E tampouco é acaso que o racista Mannix e o negro Warren se unam para executar Daisy, sugerindo que a aliança estabelecida pelo sexo é mais forte do que a discórdia baseada em suas raças.

De maneira similar, a natureza belicista da “América”, uma nação construída através de guerras constantes, é criticada logo após o fade final, quando a voz de Roy Orbison é ouvida cantando “There Won’t Be Many Coming Home” e que traz versos que confirmam a intenção alegórica de Tarantino:

Listen all you people
Try and understand
You may be a soldier
Woman, child or man
But there won’t be many coming home
(…)
Look real closely at the soldier
Coming at you through the haze
He may be the younger brother who ran away
And before you kill another
Listen to what I say
Oh, there won’t be many coming home.”

E é neste contexto que finalmente compreendemos a importância da carta atribuída a Abraham Lincoln: mencionada várias vezes durante a projeção, ela só é lida na íntegra após a sádica execução de Daisy, revelando-se um comentário irônico sobre a brutalidade que testemunháramos nas últimas três horas. “Ainda temos um longo caminho a percorrer”, escreve “Lincoln”, completando de forma otimista: “Mas, de mãos dadas, chegaremos lá”.

Enquanto Mannix lê estas palavras, Tarantino recua sua câmera para revelar o corpo suspenso de Daisy que, claro, ainda se encontra algemado ao braço decepado de John Ruth.

Certamente não era exatamente isso que o esperançoso “Lincoln” tinha em mente ao usar a expressão “de mãos dadas”.

E se considerarmos que, neste contexto, a própria Daisy poderia ser vista como um símbolo da “América” (disputada por grupos em constante batalha a ponto de se tornar um corpo coberto de sangue), só restará uma constatação final:

Quentin Tarantino é um gênio.

28 de Dezembro de 2015

Para ler todos os textos já publicados no site sobre filmes de Tarantino, clique aqui.

 

Comente!

  • Rogerio Junior em 22/05/2016 às 02:14

    Genial a maneira como Pablo Villaça compreendeu a genialidade do Tarantino nesse filme.

  • cristian ferrari em 02/02/2016 às 19:40

    Aceito que Tarantino é um cara que entendo de cinema, só resta um problema que ninguém comenta ou se comenta é repudiado...a sua verborragia excessiva de seus filmes, pra não dizer tediosa, menos é mais no cinema, e até a redundância de seus diálogos é louvada...não entendo isso, parece que há uma mítica em torno da sua obra que impede as pessoas de criticarem, não digo isso como leigo, pois acompanho cinema desde D. W. Griffith, todo cineasta comete erros e não é pecado apontá-los, a não ser que seja Tarantino...

  • Raphael Juliano em 30/01/2016 às 13:00

    Não vi nenhuma alegoria religiosa. Penso que Tarantino mais uma vez se debruçou sobre as questões étnicas e raciais nos EUA, bem como sobre a violência como pratica banal de resolução dos conflitos.

  • Chetbruback em 22/01/2016 às 23:53

    "...E tampouco é acaso que o racista Mannix e o negro Warren se unam para executar Daisy, sugerindo que a aliança estabelecida pelo sexo é mais forte do que a discórdia baseada em suas raças..."
    Nos EUA, nada é mais forte do que a discórdia racial que suscitou a guerra civil, lá. E, ainda está, fortemente, presente no país. Bandeiras confederadas ainda são vistas tremulando ou usadas como tapete de parede. Por isso, achei que soou falso a aproximação entre o "negro nortista" e " branco sulista". Apesar de admirar o Tarantino e ter visto todos os seus filmes.

  • Willian Bongiolo em 22/01/2016 às 11:25

    Essa crítica ficou maravilhosamente bem, gostei bastante de dividir a parte sem spoiler e com spoiler. Poderia fazer mais críticas desse jeito divido. Parabéns pelo trabalho.

  • Pablo Cristiano Rodrigues da Silva em 22/01/2016 às 01:29

    Confiram também minha crítica do filme: https://www.youtube.com/watch?v=aTGvDQ_oc90

  • Mel Portela em 20/01/2016 às 12:54



    **SPOILERS**

    Finalmente assisti ao filme e concordo com a visão do Pablo sobre ser uma alegoria à sociedade norte-americana. Gostaria de adicionar que, nessa lógica, a porta quebrada da taverna significaria as fronteiras dos Estados Unidos e todos os problemas com imigração ilegal. A entrada é sempre brusca e seguida de gritaria. A violência necessária para conseguir entrar na taverna representaria as perigosas travessias que os imigrantes precisam enfrentar para chegar ao país, ao passo em que a gritaria é a manifestação do povo que se coloca contra a chegada desses imigrantes, já que eles representam uma "ameaça" à ordem social e econômica dos Estados Unidos.

    No entanto, o filme também poderia ser interpretado como uma alegoria religiosa, cheio de simbolismos bíblicos. Por exemplo: o filme do general Smithers, Chester, faz uma alusão clara a Jesus Cristo durante seu trajeto pela via crucis e sua morte se dá, principalmente, pelo fato de ser "filho do homem"; quando sabemos disso, o próprio general pode ser visto como Deus, o patriarca barbudo. Em determinado momento, ele diz que se o filho tivesse concluído o que foi fazer por aquelas bandas, não teria morrido. Além do mais, ele quer construir uma sepultura simbólica para que o falecimento de seu filho seja lembrado, quase que atribuindo um caráter de mártir a Chester; também temos Jody, o irmão de Daisy, que pode representar o diabo ou a serpente do paraíso. Quando ele chega na taverna, o cigarro oferecido por Minnie é o Red Apple (maçã vermelha). Isso faria com que Minnie fosse Eva e Sweet Dave Adão. Pois, após o diabo, Jody, ensiná-la como falar uma palavra em francês - aqui seria a tentação, a lábia da serpente -, a reação dela é carnal, falando imediatamente do tamanho de seu derrière. Jody também é o diabo pois com ele vem a destruição, banindo todas aquelas pessoas da taverna, o paraíso até então. E Smithers só observa, sentando em sua poltrona. Mais uma vez, como Deus observando as pessoas colocarem em prática o livre-arbítrio. Jody também espera silenciosamente pela oportunidade perfeita para tentar salvar sua irmã, calado, só os seus seguidores sabem que ele está ali. Exatamente como o diabo é representado. A escolha do Tatum, considerado um dos homens mais bonitos do momento (povo cego, só pode), também reforça a ideia, já Lúcifer era o anjo mais belo de todos; já a cidade que todos querem alcançar, Red Rock, é o próprio inferno: ninguém chega lá vivo. E, pela "qualidade" do grupo na taverna, todos eles têm parados suficientes para não merecer o céu; John Ruth poderia ser o anjo misericordioso. Ele demonstra certa gentileza com Daisy, mesmo a humilhando constantemente. Mas, acima de tudo, ele acredita na justiça. Não mata seus prisioneiros, deixa a lei interpretar seu papel; e, por último, Daisy. Daisy é o anjo da morte - a desgraça a segue.

    Ah!, quase me esqueço de Mannix e Warren: Warren é o arcanjo da justiça, mas também pode ser Pilatos, responsável por mandar Jesus para ser crucificado, enquanto Mannix é simplesmente a representação do homem.

    Quando Jody chega mais cedo na taverna, com seus outros 3 companheiros, pode-se perceber também uma referência aos 4 cavaleiros do apocalipse, aqueles que anunciam destruição e morte.

    Enfim… Acho que o filme abre brechas para várias interpretações. Talvez Tarantino estivesse criticando os Estados Unidos, talvez estivesse falando sobre a bíblia ou, talvez, ele só teve vontade de, mais uma vez, expor a perversidade humana com muito sangue, longos diálogos e neve.

    No geral, achei o filme bom. O roteiro não é dos mais originais, mesmo que esteja carregado de simbolismos; a fotografia do Richardson é o highlight pra mim, junto à atuação da JJL; aquelas narrações em off foram desnecessárias; algumas cenas infantis e deslocadas, mas isso entra no roteiro também. Vale a pena assistir, mas não foi, nem de longe, um dos melhores trabalhos do Tarantino.

  • marcio rebello em 19/01/2016 às 23:06

    Filme muito bom, roteiro impecável, poucos cineastras hoje em dia conseguem fazer um filme dentro de uma unica sala de forma tão majestosa; sem contar a trilha sonora do Morricone. Pensando bem podiam dar o roteiro do Star wars pro Tarantino que com certeza iria fazer algo de qualidade!

  • Luiz Felipe Pereira de Carvalho em 13/01/2016 às 20:48

    Podia virar praxe essa de fazer duas críticas, uma com spoiler e outra sem. Eu sempre deixo pra ler a crítica do Pablo depois de fazer a minha (que é pra mim mesmo, ninguém lê, rs), para não ser influenciado. Eu terminei a minha dizendo "A igualdade racial nos EUA é tão falsa quanto a carta de Lincoln no bolso do Major Marquis". Parabéns pela crítica, Pablo, seus olhos treinados sempre enxergam melhor.

  • Patrícia Paiva em 13/01/2016 às 13:04

    Adoro a extensão da crítica com spoilers, porque sei que vou identificar muito do que eu observei no filme e descobrir outras tantas. Você é ótimo, Pablo. Conheço poucos cineastas que conseguem prender a atenção num filme de câmera, com apenas um ou dois ambientes, sem tornar-se cansativo, mas Tarantino provou que é um desses, e melhor, tudo que é tratado no tal ambiente é amplo, como a formação de um país mesmo, onde quem se inteira um pouquinho, pode perceber todos ou alguns(como no meu caso) dos elementos de formação da América. O mais difícil é fazer como fizestes, esmiuçar a crítica social por trás de cada elemento, o entrosamento disso tudo, o caráter individual de cada um dos odiados, enfim, é um filmaço que merecia uma crítica a altura.

  • Marcos Davi Gonçalves de Oliveira em 13/01/2016 às 06:16

    Pablo, obrigado por demover-se de permitir que apenas assinantes do portal comentassem aqui. Ótimo saber que agora qualquer pessoa pode interagir na sessão de comentários.

  • Julia Caram Sfair em 12/01/2016 às 20:22

    Como feminista não militante (se é que isso existe), considero Tarantino um diretor extremamente feminista. Ele (quase) nunca coloca a mulher numa posição subordinada em seus filmes. São sempre agentes: se vingam de seus chefes (Jackie Brown e Kill Bill), escolhem quando e com quem querem ficar (Prova de Morte), matam Hitler (Bastardos Inglórios) e se revoltam quando são escravizadas (Django Livre). Confesso que fiquei intrigada quando ele resolveu colocar uma mulher junto com sete odiados. E que papel que destina a essa personagem incrível! Ferida, pintada de sangue, presa a um homem, ela é capaz de propor uma solução sensata para o banho de sangue que presencia. De alguma forma ela se impõe perante aos odiados. Eu podia estar falando de muitas coisas sobre o filme (religião, violência, montagem, fotografia, roteiro, referencias a outros filmes, trilha sonora), mas a visão feminista do diretor é algo que merece uma tese.

  • Ana Carolina Dall Piaggi em 11/01/2016 às 11:15

    Eu registrei uma conta aqui só para elogiá-lo por essa crítica. Terminei de ler e soltei um "puta que pariu, é isso!" hahaha parabéns!!!

  • Janaina Helena de Freitas em 10/01/2016 às 09:09

    Ahhh esqueci de comentar algumas coisas. A direção é excelente, o roteiro bem amarrado, trilha sonora adequada (pq já vi melhores nos filmes dele), atuações também estão ótimas e a produção de forma geral está de parabéns. O cuidado que o Tarantino tem com os detalhes é algo que me impressiona e acho que falta muito nas direções que tenho visto por ai.

  • Janaina Helena de Freitas em 10/01/2016 às 09:07

    Assisti ontem e já sai pensando: preciso ler a crítica do Pablo e não me decepcionei. Nem com o filme, nem com a sua crítica. Você sintetizou muito bem o que pensei sobre o filme - os odiados é algo maior do que os personagens em si! Achei o filme genial!

  • Larissa Bohnenberger em 07/01/2016 às 01:08

    Essa foi uma das melhores e mais completas críticas que já li. Tu foi genial, assim como o Tarantino. E obrigada por mais uma aula :)

  • Fábio da Rocha Barros em 06/01/2016 às 00:24

    Além da leitura alegórica sobre os EUA, eu tive uma leitura alegoria sobre os mitos cristãos.

    SPOILER!!!!

    O fato de "4 CAVALEIROS" aparecerem na cabana anuncia a chegada da "besta do apocalipse" que é a Daisy, e eles promovem o caos e a morte. Também o fato de mostrar uma imagem de Cristo crucificado nu e coberto de neve reflete o momento em que o filho do General Smithers será sacrificado (e o fato do jovem ser barbudo, ter cabelo comprido e caminhar nu na neve, como uma via Crucis, reforça essa ideia). Após o "apocalipse" reinar entre esses diferentes representantes dos povos do mundo na forma de personagens (um europeu, um negro, branco, mexicano, etc), os que tinham diferenças entre si acabam se unindo e se harmonizando.
    .
    Sou ateu, mas estudei bastante sobre cristianismo e seus mitos dada a minha criação familiar.

  • Victor em 04/01/2016 às 00:18

    É óbvio que há esse comentário ''abaixo da superfície'' mais óbvio ainda sobre os EUA e a Guerra Civil - como o próprio Tarantino já disse, falando que ''Os Oito Odiados é um filme pós-apocalíptico.''
    O problema do filme tá mesmo na sua superfície. Tem uma trama fraca, rasa, previsível. E não só na trama em si, mas até mesmo em cenas como a da morte do personagem do Channing Tatum. Logo quando ele sobre do porão, você já sabe que o sadismo do Tarantino vai fazer ele morrer - e uns caras do meu lado na sessão logo falaram isso, pouco antes do ocorrido. Além de toda aquela cena em flashback que não tem propósito nenhum no filme além de mostrar o Channing Tatum e falar que todos eles estavam envolvidos - o que logo depois é revelado em tempo normal.
    Se for pra fazer um comentário óbvio desse (e que não é nem um comentário interessante ou que apresente algo novo, mas apenas um mero retrato da sociedade), que faça com uma trama interessante e surpreendente, como fez nos últimos filmes.
    Além do mais, como no comentário abaixo, é totalmente irritante quando ele coloca a narração em off que é bem deslocada no filme.
    Isso sem falar do humor que, muitas vezes tenta fazer piadas que inevitavelmente acabam sendo machistas e racistas - mesmo o Tarantino não sendo, claro.

  • Wolfgang em 03/01/2016 às 23:31

    Mas estranhei não ter havido um comentário sobre a deslocada narração em off que o Tarantino coloca. O fan service chega a ser completamente irritante e até confuso...

  • Wolfgang em 03/01/2016 às 20:11

    Pablo, pensei que além do fato de você falar do recuo de câmera do Tarantino como um contraponto para o uso daquelas palavras, você falaria do recuo inicial de câmera.. do Jesus inicial, em um país que cada vez mais também não faz jus às palavras ''ditas'' por ele. Mas ótima crítica.

  • Alexandre Salazar da Silva em 03/01/2016 às 14:00

    Pablo você não viu o filme no Brasil né?


    A conversão de 70mm pra digital não ficou muito legal...

  • Mateus Monteiro Mota em 01/01/2016 às 02:34

    "Negros em posição de autoridade eram mais raros do que risadas em um filme de Adam Sandler", Melhor parte kkkkkkk
    Ansioso para ver esse novo filme do Tarantino

  • Alan Pires Ferreira em 29/12/2015 às 11:46

    Por falar no livro de 1939 "E Não Sobrou Nenhum" (anteriormente "O Caso dos Dez Negrinhos"), terminei ontem de assistir à minissérie em 3 capítulos "And Then There Were None" que a BBC levou ao ar a partir do último dia 26 de dezembro. Uma versão bem mais sombria, depressiva e sangrenta de Agatha Christie, com direito inclusive a palavreado pesado, uso de drogas e vísceras expostas - coisas que a autora evitava. No seriado são dez soldados, mas também já foram dez indiozinhos e dez negrinhos - variações que já existiam também na cantiga popular.

  • Pablo Villaça em 28/12/2015 às 20:42

    Gustavo, quem me dera. :)

  • Eloisa Barbara de Paula em 28/12/2015 às 20:12

    Amei esse filme como amo qualquer coisa escrita pelo mestre Tarantino, fico feliz em ver uma crítica de um outro mestre que bate com a minha. Villaça, você é, sem dúvidas, o Roger Ebert da nossa geração. Estamos em ótimas mãos! Abraço

  • John Constantine em 28/12/2015 às 16:14

    João Guilherme, "Dez Indiozinhos" ou "E Não Sobrou Nenhum" são os nomes atualmente utilizados para o livro. Quando ele foi lançado nos EUA, tiraram o termo "nigger" por ser ofensivo e posteriormente todas as publicações do livro (ou adaptações) fizeram o mesmo.

  • João Guilherme em 28/12/2015 às 13:57

    Acredito que você quis se referir ao "Caso dos dez negrinhos".

 

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