Críticas por Pablo Villaça

Poster: Os Oito Odiados
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
07/01/2016 25/12/2015
Distribuidora
Diamond Films

 

 

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Os Oito Odiados
The Hateful Eight

Os Oito Odiados

Dirigido e roteirizado por Quentin Tarantino. Com: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Bruce Dern, Demian Bichir, Michael Madsen, Tim Roth, James Parks, Channing Tatum, Dana Gourrier, Zoë Bell.

Capítulo 1 (sem spoilers): O Segredo da Cabana...

Em certo momento de Os Oito Odiados, o personagem de Samuel L. Jackson conta uma extensa e detalhada história que, verdadeira ou não, tem o claro propósito de provocar uma reação forte em seu interlocutor – uma história que lida com raça, abuso sexual e violência. Trata-se de um instante revelador, quase metalinguístico, que claramente funciona como uma referência à carreira de seu criador, que, como sua criação interpretada por Jackson, obviamente se diverte ao construir narrativas que não apenas despertam controvérsias, mas parecem interessadas em atraí-las.

A metalinguagem, diga-se de passagem, surge já no título do filme, que, oitavo longa da carreira do diretor, faz uma referência ao fato no número que contém (e que não condiz com a quantidade de “odiados” da história em si) e também, claro, ao remeter a Fellini 8 ½ (que Tarantino já havia homenageado em Pulp Fiction, não nos esqueçamos). Dividido em capítulos como tantas outras obras do realizador, Os Oito Odiados acompanha o caçador de recompensas John “O Enforcador” Ruth (Russell), que conduz a prisioneira Daisy Domergue (Leigh) até a cidade na qual será executada. No caminho, eles encontram o também caçador de recompensas Major Marquis Warren (Jackson), que lutou pela União (obviamente) durante a Guerra Civil, e o xerife Chris Mannix (Goggins), que participou do conflito do lado da Confederação. Como se isto já não gerasse tensão suficiente, o grupo é obrigado, pela tempestade de neve que os cerca, a buscar abrigo em uma cabana no meio do nada e que já encontra-se ocupada pelo general confederado Sandy Smithers (Dern), pelo carrasco britânico Oswaldo Mobray (Roth), pelo taciturno Joe Gage (Madsen) e pelo mexicano Bob (Bichir). Como este é um trabalho de Tarantino, não demora muito até que o sangue comece a jorrar.

Concebido basicamente como um filme de câmara (pensem em Festim Diabólico, 12 Homens e uma Sentença ou no episódio “Fly” de Breaking Bad), Os Oito Odiados é um longa que basicamente exige uma atmosfera claustrofóbica – e, portanto, é fascinante que Tarantino e o diretor de fotografia Robert Richardson tenham decidido rodá-lo não apenas em 70mm, mas com lentes anamórficas que acabam resultando numa razão de aspecto de 2.76:1 que parece prometer um espetáculo visual em planos gerais e locações amplas que nunca se concretiza. Isto não quer dizer, porém, que Os Oito Odiados não seja esteticamente brilhante, pois é – a começar por sua habilidade em conseguir atingir o tom claustrofóbico necessário através dos quadros fechados e da brancura opressiva da neve que cerca a cabana e da ventania ruidosa e constante que jamais nos deixa esquecer da natureza hostil que matará qualquer um que se aventure a sair dali. (Além disso, o fato de lidar com personagens confinados junto a um inimigo desconhecido em meio à neve permite que Tarantino faça outra referência cinematográfica, desta vez a O Enigma de Outro Mundo – uma referência que se torna mais escancarada graças à presença de Kurt Russell e da utilização de trechos da trilha composta por Morricone para aquele filme e que aqui surgem justamente numa cena-chave envolvendo o ator.)

Da mesma forma, é intrigante perceber como a imensa razão de aspecto traz desafios ao design de produção, já que exige um cuidado ainda maior com os detalhes da cabana, que acabam surgindo ao fundo mesmo em planos fechados (e nos abertos, claro, precisam ocupar áreas bem maiores do que o normalmente necessário). Assim, não só a geografia restrita da cabana traz um imenso número de elementos (jarras com guloseimas, utensílios pendurados nas vigas que percorrem o teto, prateleiras tomadas por potes e garrafas, etc) como ainda se revela como uma combinação de pousada e saloon em um aposento único, sem divisórias, que consegue sugerir ambientes diversos apenas através da diferença na luz e de correntes e ganchos suspensos aqui e ali.

Povoado pelas marcas registradas de Tarantino, o longa traz vários planos com split focus (elementos próximos e distantes da câmera se encontram nítidos, embora o espaço entre eles não esteja), um recurso ainda mais importante na fotografia anamórfica, que normalmente tem profundidade de campo reduzida; divisão em capítulos; cronologia quebrada com uso de flashbacks; referências à fictícia marca de cigarro (aqui tabaco) Red Apple; e, claro, uma quantidade absurda de diálogos. Contrariando a convenção cinematográfica do “não conte; mostre”, o realizador usa as falas para revelar diversos incidentes do passados dos personagens, cortando para flashbacks que os ilustram em apenas um breve momento (e justamente quando não temos certeza sobre a verossimilhança do que é dito, em mais uma ironia tarantiniana). No entanto, em vez de prejudicar o filme, esta abordagem de Tarantino o enriquece ao manter o espectador no presente, transformando-o em mais um dos ouvintes dos casos narrados.

Aliás, se há algo que se torna patente durante a projeção (e da própria carreira do cineasta) é que Tarantino adora o processo narrativo em si, divertindo-se, por exemplo, ao repetir informações já marteladas, ao levar o público a rever certas passagens a partir de pontos de vista diferentes e ao antecipar elementos que outros realizadores manteriam em segredo (a base do “Capítulo 4”, por exemplo). Além disso, o diretor demonstra seu talento invejável para criar sequências de tensão palpável ao sugerir explosões de violência minutos antes que estas ocorram de fato – e reparem como ele usa a velha melodia de “Noite Feliz” para construir esta atmosfera ao levar certo personagem a retornar ao início da canção sempre que erra uma nota. Para completar, é notável como o mestre Ennio Morricone compreende as intenções de Tarantino, fugindo de temas típicos do western para, em vez disso, apostar em temas sombrios hábeis em evocar coisas terríveis ainda por vir.

Claro que o excesso aparente de diálogos pode soar como autoindulgência do cineasta (algo que não é exatamente raro em sua filmografia), mas é difícil negar que, ao investir basicamente metade da obra apenas para apresentar seus personagens, ele potencializa os conflitos entre estes, já que precisamos conhecer suas personalidades para compreendermos de fato a natureza de suas desavenças. E é claro que o elenco aprecia a oportunidade: Kurt Russell, por exemplo, confere uma decência surpreendente ao seu caçador de recompensas, o que torna sua brutalidade para com Daisy ainda mais chocante (especialmente se considerarmos gestos pontuais de delicadeza, como ao limpar seu rosto durante o jantar), ao passo que Walter Goggins mantém o público sempre incerto com relação à honestidade do xerife Mannix. E se Tim Roth diverte ao imitar Christoph Waltz e Bruce Dern explora bem sua cena mais importante, Demian Bichir e Michael Madsen fazem o que podem com personagens menos relevantes, conferindo vida suficiente a estes para despertar nosso interesse.

No entanto, não há dúvida de que o centro de Os Oito Odiados é mesmo composto pelas performances de Samuel L. Jackson e Jennifer Jason Leigh. Buscando se afirmar numa época em que negros em posição de autoridade eram mais raros do que risadas em um filme de Adam Sandler, o major Marquis Warren é um homem inteligente, mas inquestionavelmente cruel. Habituado a ter que sobreviver diante do racismo de praticamente todos que o cercam, ele encontra, na violência (para não mencionar outros subterfúgios), uma arma não só para se firmar, mas também para se vingar, sendo curioso também como acaba sendo transformado pela história em uma espécie de detetive de Agatha Christie (e Os Oito Odiados tem sua parcela de O Caso dos Dez Indiozinhos, embora o fato de todos os personagens aparentemente terem algo a esconder remeta também a Assassinato no Expresso do Oriente).

O que nos traz à Daisy Domergue de Jennifer Jason Leigh, que rouba o filme de todos os seus colegas do sexo masculino. Inteligente, irreverente e com um toque de insanidade que a transforma no elemento mais imprevisível do filme, Daisy é também o saco de pancadas favorito do longa, já que surge em cena já com o olho esquerdo roxo e é submetida a todo tipo de brutalidade durante as quase três horas seguintes. Porém, ao mesmo tempo que isto a torna vulnerável (atraindo a simpatia do espectador), permite também que constatemos sua força, já que ela jamais se deixa abalar pelos golpes que leva – ao contrário: faz questão de demonstrar para seus algozes que ainda está longe de chegar ao seu limite.

E é esta postura firme que a transforma em uma figura tão memorável e forte, estabelecendo-a como mais uma das excepcionais personagens femininas do universo criado por Tarantino.

O que, claro, não a torna menos odiosa do que seus companheiros naquela sufocante cabana de madeira.

 

Capítulo 2 (com spoilers): ... É que Representa um País

Um dos recursos clássicos ao criar uma alegoria reside em empregar um microcosmos como representação do macro; o particular como símbolo de algo mais amplo; o detalhe como substituto do geral. É o que permite, por exemplo, que a trajetória da família Corleone remeta à própria História dos Estados Unidos e que a Máfia na trilogia de Coppola surja como um comentário sobre o Capitalismo – e também é o que transforma Os Oito Odiados em algo maior do que simplesmente um exercício niilista.

Sim, em uma leitura puramente superficial, o filme de Quentin Tarantino parece se satisfazer apenas em colocar diversos personagens desprezíveis em um mesmo espaço por algumas horas até que suas naturezas os conduzam à destruição mútua, mas um olhar um pouco mais cuidadoso indica uma intenção mais ambiciosa por trás da narrativa construída pelo cineasta.

Ora, em maior ou menor grau, a filmografia de Tarantino constantemente lida com questões políticas e/ou sociais como o preconceito, seja este manifestado através do racismo ou do sexismo – e, não à toa, suas tramas costumam girar em torno de personagens em busca de vingança, permitindo que suas dores pessoais funcionem como espetáculos sangrentos de catarse coletiva através da possibilidade de reparação contra nazistas (Bastardos Inglórios), misóginos (À Prova de Morte) ou escravagistas (Django Livre). Assim, não é surpresa que por trás da trama aparentemente simples de Os Oito Odiados haja uma discussão consideravelmente mais complexa.

Em primeiro lugar, analisemos os indivíduos que o cineasta coloca naquela cabana: há um negro (o major Warren) e um representante da Confederação racista (o general Smithers); há um sujeito que supostamente enriqueceu ao se tornar sócio de uma empreitada (Joe Gage) e o pobre condutor da carruagem que é obrigado a trabalhar mais do que todos (O.B. Jackson); há o representante da Lei (John Ruth) e aquela que ameaça a Ordem (Daisy); e há, finalmente, o britânico que simboliza aqueles que colonizaram a América (Oswald Mobray) e o mexicano que representa a natureza colonialista do país recém-formado (Bob). Logo descobrimos, também, como o general Smithers massacrou um batalhão de soldados negros, como o major Warren massacrou um contingente de índios, como Minnie (a dona da cabana, que era negra) odiava mexicanos e como todos parecem confortáveis em espancar ou ameaçar Daisy, a única mulher do grupo.

Não requer muita imaginação, portanto, para constatar como o espaço dividido por todas aquelas pessoas de origens diferentes é uma representação da própria “América” (como os norte-americanos gostam de chamar os Estados Unidos) - palco, ainda hoje, de demonstrações crescentes de intolerância contra todo tipo de minoria: negros, gays, latinos, mulheres e, de forma cada vez mais óbvia, muçulmanos. Assim, quando Os Oito Odiados intitula seu derradeiro capítulo como “Homem Negro, Inferno Branco”, a conotação racial é inquestionável (mesmo que o branco também se refira à neve que cerca os personagens). E tampouco é acaso que o racista Mannix e o negro Warren se unam para executar Daisy, sugerindo que a aliança estabelecida pelo sexo é mais forte do que a discórdia baseada em suas raças.

De maneira similar, a natureza belicista da “América”, uma nação construída através de guerras constantes, é criticada logo após o fade final, quando a voz de Roy Orbison é ouvida cantando “There Won’t Be Many Coming Home” e que traz versos que confirmam a intenção alegórica de Tarantino:

Listen all you people
Try and understand
You may be a soldier
Woman, child or man
But there won’t be many coming home
(…)
Look real closely at the soldier
Coming at you through the haze
He may be the younger brother who ran away
And before you kill another
Listen to what I say
Oh, there won’t be many coming home.”

E é neste contexto que finalmente compreendemos a importância da carta atribuída a Abraham Lincoln: mencionada várias vezes durante a projeção, ela só é lida na íntegra após a sádica execução de Daisy, revelando-se um comentário irônico sobre a brutalidade que testemunháramos nas últimas três horas. “Ainda temos um longo caminho a percorrer”, escreve “Lincoln”, completando de forma otimista: “Mas, de mãos dadas, chegaremos lá”.

Enquanto Mannix lê estas palavras, Tarantino recua sua câmera para revelar o corpo suspenso de Daisy que, claro, ainda se encontra algemado ao braço decepado de John Ruth.

Certamente não era exatamente isso que o esperançoso “Lincoln” tinha em mente ao usar a expressão “de mãos dadas”.

E se considerarmos que, neste contexto, a própria Daisy poderia ser vista como um símbolo da “América” (disputada por grupos em constante batalha a ponto de se tornar um corpo coberto de sangue), só restará uma constatação final:

Quentin Tarantino é um gênio.

28 de Dezembro de 2015

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.