Poster: O Regresso

 

 

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Banner: O Regresso

Datas de Estréia: Notas:
Brasil Exterior Crítico Assinante Distribuidora
04/02/2016 25/12/2015
Fox

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Dirigido por Alejandro González Iñárritu. Roteiro de Iñárritu e Mark L. Smith. Com: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter, Forrest Goodluck, Paul Anderson, Kristoffer Joner, Duane Howard,  Melaw Nakehk’o.

Em 1823, um caçador de peles chamado Hugh Glass foi atacado por um urso enquanto participava de uma expedição na região que hoje forma o estado de Dakota do Sul, nos Estados Unidos. Gravemente ferido e agonizante, ele foi deixado para trás pelo grupo, que, no entanto, encarregou dois de seus integrantes de permanecerem ao lado do sujeito até que ele morresse, enterrando-o antes de se reunirem com os demais. A dupla, porém, desistiu da tarefa depois de dois dias, partindo enquanto Glass ainda se encontrava vivo – e, assim, foi um imenso choque quando este apareceu em um forte localizado a 400 quilômetros de distância de onde havia sido deixado depois de rastejar por quase dois meses. Passando a fazer parte do imaginário da história do país, a jornada de Glass ganha, aqui, sua segunda adaptação para o Cinema, já tendo originado, em 1973, o bom Fúria Selvagem, no qual o herói era interpretado por Richard Harris.

No entanto, como construir um filme inteiro em torno de um homem rastejando não é a mais interessante das possibilidades, tanto a versão anterior quanto esta acrescentam detalhes ficcionais ao roteiro: se antes Glass queria apenas voltar para casa a fim de conhecer o filho que nascera após sua partida, agora o tal filho acompanha o protagonista na expedição, transformando-se em impulso dramático ao inspirar o desejo de vingança do pai ao ser vitimado pelos mesmos homens que o abandonam à beira da morte. (Tudo isso está no trailer; não me acusem de spoilers. Por outro lado, os três parágrafos finais deste texto devem ser evitados por quem não viu o filme.) Com isso, o roteiro de Mark L. Smith e do próprio diretor Alejandro González Iñárritu aparentemente encontra um elemento motivador para a jornada de Glass (DiCaprio) – o que representa um falso sucesso, já que demonstra como a dupla não percebeu que o próprio instinto de sobrevivência do personagem seria suficiente.

Mas falarei dos problemas desta abordagem em breve; antes, é preciso reconhecer que, sob qualquer ótica, O Regresso é tecnicamente impressionante. Voltando a demonstrar o interesse de Iñárritu por longos planos, o filme já tem início com uma cena que, retratando o ataque de índios à expedição, acompanha os combatentes em um plano fluido, sem cortes, durante o qual a câmera salta de um para outro à medida que são abatidos, registrando a ferocidade da luta e o caos experimentado pelos envolvidos sem que, com isso, o espectador fique perdido na mise-en-scène. Já em outros momentos, Iñárritu e o genial diretor de fotografia Emmanuel Lubezki empregam contra-plongées (leia-se: planos nos quais a câmera aponta de baixo para cima) que, associados às lentes grandes angulares, transformam as árvores que cercam aqueles homens em gigantes que ressaltam a pequenez dos exploradores diante da Natureza. Além disso, o cineasta sabe se equilibrar bem entre a necessidade de revelar o ambiente e as locações imponentes através de planos gerais e a de se concentrar em closes fechadíssimos que expõem os sentimentos dos personagens – e, assim, quando Hawk (Goodluck) se deixa afetar por um incidente, basta uma pequena lágrima para que percebamos seu sofrimento.

No entanto, para Iñárritu, não basta criar uma lógica visual orgânica e eficiente: é preciso mostrar para o espectador que há um diretor por trás da câmera. Às vezes, isso ajuda o projeto (Birdman, 21 Gramas); às vezes, prejudica consideravelmente (Biutiful, Babel) – e aqui é difícil não ficar incomodado com certas decisões que chegam a sacrificar o mergulho do espectador no universo diegético apenas para que possamos nos lembrar de que Iñárritu está ali: como, por exemplo, quando a câmera se aproxima tanto de DiCaprio que a condensação da respiração deste acaba embaçando a lente (uma condensação criada digitalmente, diga-se de passagem). Já em outro momento, vemos um personagem apontando uma arma para outro e a câmera percorre várias vezes a extensão do cano da espingarda enquanto salta entre os dois homens, subordinando o drama do conflito à opção estética do cineasta. Para completar, no auge de uma briga que aguardamos durante todo o longa, o diretor mais uma vez parece temer que esqueçamos de sua existência e logo traz borrifos de sangue sujando a lente e desviando nossa atenção do evento principal.

Não que este seja o único problema de Iñárritu, que fica ainda pior quando tenta conferir alguma profundidade existencial ou filosófica ao filme: os flashbacks envolvendo a vida familiar de Glass, por exemplo, não só destroem o ritmo da narrativa como se mostram completamente dispensáveis, ao passo que os interlúdios nos quais o cineasta tenta brincar de Terrence Malick são embaraçosos ao exibirem uma abordagem new age superficial e tola – o que só se torna mais vergonhoso quando o realizador inclui imagens de uma igreja em ruínas (mais óbvio, impossível) e emprega uma trilha inspirada em cantos indígenas para atribuir ao protagonista uma dimensão espiritual que este não possui. Como se não fosse o suficiente, o filme, julgando que sua mensagem acerca da brutalidade dos homens supostamente civilizados não estava clara o bastante, ainda inclui um instante constrangedor ao trazer o cadáver de um índio exibindo uma placa que diz “Somos todos selvagens” – e quase pude ouvir Iñárritu berrando ao fundo “Entenderam? Entenderam? Estou dizendo que os brancos são os selvagens, não os nativos!”. Ok, amigo, compreendido; não precisa gritar.

Por outro lado, se há algo que sempre podemos esperar de um filme do mexicano são atuações excelentes – e isto não é diferente em O Regresso. Encarregado de interpretar o principal antagonista de Glass, Tom Hardy encarna Fitzgerald como um homem cujo passado violento (ele foi parcialmente escalpelado) pode ser visto em seus olhos arregalados que sugerem alguém à beira da insanidade. Com a dicção embolada de um sujeito pouco afeito a conversas, Hardy consegue levar o espectador a compreender por que seu personagem encara as próprias (e repreensíveis) ações como algo aceitável e mesmo inevitável. Enquanto isso, Domhnall Gleeson traz dignidade ao seu Capitão Henry, mesmo que a pincele com um pouco de covardia e comodismo diante da saída mais fácil.

Mas é claro que O Regresso pertence mesmo a Leonardo DiCaprio: acompanhado de perto pela câmera de Iñárritu (às vezes, exageradamente, como apontei acima), o ator não se preocupa em modular sua interpretação de acordo com a distância da qual se encontra da lente, resultando em momentos de intensidade absurda que, ao contrário do que o senso comum poderia ditar, surgem adequadas às situações que vive. Preso a um personagem silencioso que, durante boa parte do tempo, se comunica apenas através de gemidos, grunhidos ou da respiração pesada, DiCaprio confere uma fisicalidade descomunal a Glass, saindo-se bem também nos instantes que exigem maior discrição (como na cena em que relaxa brevemente ao sentir os primeiros flocos de neve caindo sobre seu rosto). Impressionante até mesmo para um intérprete já conhecido por sua energia em cena, o trabalho do ator neste longa é, sem dúvida, de entrega absoluta e instrumental para que a obra funcione.

Intrigante ao criar uma ótima rima visual entre duas cenas envolvendo confrontos físicos, O Regresso é um filme de reflexos: a busca do chefe indígena pela filha se reflete na jornada de vingança de Glass; o passado de Fitzgerald retorna em seu futuro (dois escalpelamentos); e, claro, a luta entre Glass e o urso (um feito técnico impressionante e que se torna ainda mais fabuloso por ser retratado em um único plano) é complementada por aquela entre Glass e Fitzgerald (reparem como, em ambas, há um tiro inicial seguido por confronto no solo e golpes de faca).

Da mesma forma, a própria trajetória do herói traz um simbolismo bem mais interessante do que aquele que Iñárritu busca em seus breves interlúdios malickianos, já que envolve diversos renascimentos simbolizados de forma quase literal: em pontos diferentes da projeção, Glass sai da própria cova, de uma barraca coberta por neve e de dentro de um cavalo, sendo igualmente curioso perceber como a pele de urso que passa a vestir parece convertê-lo em um animal durante a maior parte de sua viagem.

Pena que, então, o cineasta retorna à sua necessidade de chamar a atenção para si mesmo e decide concluir a narrativa com uma quebra de quarta parede não só carente de qualquer peso dramático, mas também completamente vazia de significado. Ah, Iñárritu.

05 de Fevereiro de 2016

 

Comente!

  • Wellington Ferreira da Costa Jr em 24/03/2016 às 15:09

    Assisti e gostei, principalmente das belas imagens da floresta, a atuação do DiCaprio é excelente sim, achei justo o oscar, mas confesso que qdo vi a última cena, onde o filme termina com ele olhando para câmera lembrei da hora do pião girando em inception/ a origem....não sei se tem haver, mas.....

  • Alessandra de Souza Alves em 28/02/2016 às 11:42

    Eu devo estar sofrendo de alguma desordem emocional ou psíquica, porque ultimamente vejo filmes concebidos como grandes dramas e acabo dando risada em muitas cenas. Foi o caso desse "O Regresso", pela sequência de situações mirabolantes em que o personagem do DiCaprio sobrevive. As primeiras cenas do filme me sugeriram um universo "Soldado Ryan encontra Dança dom Lobos", mas a astúcia do personagem em algumas passagens me fez lembrar mais do seriado McGyver, e era impossível não achar risíveis certas partes do roteiro que funcionavam mais para inflar o sentido de herói do protagonista. Apesar dessa impressão, eu gostei do filme, mesmo com esse virtuosismo irritante do Iñárritu que você destacou. A cena do urso é maravilhosa, assim como a sequência final, do embate com o vilão, sem contar o realismo da cena em que Glass desliza rio abaixo, e foi impossível não lembrar do pobre Jack, de Titanic, quase redivivo graças a um tronco de árvore mais generoso que a estreita prancha do naufrágio. Acho que me irritei menos com o didatismo que você expressou e mais com clichês desnecessários. O pior deles, de longe: a discussão entre o capitão e Fitzgerald no forte, pontuada por aquela trilha proto-country com banjo e sanfona. Quem ainda aguenta isso? (E só posso pensar que isso foi briefing do diretor, porque não concebo que Ryuichi Sakamoto embarcasse num clichezão desse.) Por fim, algumas considerações sobre DiCaprio. O papel ajudou muitíssimo sua interpretação, porque de fato ele é intenso e muito realista na interpretação física. A gente sente sua dor, seu frio, sua fome, seu instinto de sobrevivência. O problema é quando ele abre a boca, e como ele quase não fala nesse filme, está à vontade. Taí. Leonardo DiCaprio é uma espécie de Dilma Rousseff do cinema: o que atrapalha são as palavras. E é justamente em DiCaprio que eu entendo a motivação da quebra da quarta parede: me pareceu que a intenção do diretor foi instigar a audiência a se enxergar no lugar do protagonista, quase um "e aí, se fosse você? Você teria feito diferente do que eu fiz?" Mas, confesso que só pensei nisso alguns minutos depois de encerrado o filme porque, come on... Olhar aqueles olhos azuis de frente me deixou meio desnorteada!

  • Fernanda Barbieri em 17/02/2016 às 15:20

    ^É intrigante como cada filme diz algo diferente p/ cada indivíduo, conforme sua experiência pessoal. A história não tem nada de novo, e, no entanto me tocou profundamente. Talvez porque eu mesma tenha experimentado como um filho traz uma motivação tão forte que faz da gente imbatível. A mim, me pareceu dizer que defender um filho é uma das poucas coisas que te mantém tão focado a ponto de não aceitar a derrota de maneira alguma. Super clichê, e super verdadeiro. E o olhar final, me pareceu muito claro: é o momento em que ele se deu conta que, perdendo a motivação, perdeu o foco. Quem nunca passou por uma situação de risco, quando momentos de tensão nos fazem agir com toda a força, e, só depois do perigo passado, se deu conta da própria fragilidade diante da circunstância?
    No entanto, apesar de ter adorado, eu também dispensaria a totalmente “sobrenaturalidade” das cenas da índia. E a frase “somos todos selvagens” também foi dizer o óbvio.

  • Diogo Farias Fonseca em 16/02/2016 às 01:51

    Assisti o filme e achei cansativo, a fotografia apesar de bonita, é cansativa, é em excesso, e quebra o ritmo do filme. A história é muito simples, e previsível, O Tom Hardy, enquanto estava em cena, estava muito melhor que o Leonardo, que praticamente em quase todo o filme se limita a gritar, gemer e rastejar. A recuperação dele é digna do Wolverine, o que acaba com qualquer realidade que se queria dar a história, o final lembrou o estilo os 8 odiados com golpes de facas e machadinhas distribuídas ao gosto do cliente. Não entendo porque poderia-se pensar que ele morreu no final, seria a maior contradição com o personagem, morrer com uma ou duas facadinhas, diante do que ele passou. A esposa dele sorrindo e caminhando indo embora, lembrou filmes espíritas, quando resolve a questão o espírito descansa. Talvez o olhar dele tenha sido tentar ver a esposa, mas como tudo foi resolvido, mesmo tentando focar nela, ele não a vê mais. A atuação de Leonardo em O lobo de Wall Street é muito superior. Sempre procuro lembrar e comparar filmes que já assisti, e lembrei de Dança com Lobos e de Coração valente, e este O Regresso, precisa de um "buraco de minhoca" para chegar perto deles. Não entendo todo este sucesso.

  • Augusto Santiago Cerqueira em 13/02/2016 às 03:24

    On est tous des sauvage...Essa frase me fez pensar agora no meio da madrugada. Porque escrever tal frase em francês no cadáver do nativo que salvou o Glass? Será que esta frase não tem relação com os eventos ocorridos na França e com a resposta do governo Francês a tais eventos? Lembro da frase On est tous Charlie depois do atentado na redação do Charlie Hebdo e fico pensando na ironia. Penso que esta frase tem uma crítica explicita do Inarritu ao governo francês e claro eu diria aos governos ocidentais quanto a resposta ao terrorismo que invariavelmente tem passado pela vingança. Olhando por este aspecto, o filme que eu já havia considerado muito bom, cresceu muito. Finalmente, Somos Todos Selvagens é o que resume o filme. Excelente leitura da sociedade em que vivemos.

  • Luís em 09/02/2016 às 13:42

    Esqueci de enviar o link para o vídeo no Youtube no comentário anterior. Aqui está: https://youtu.be/yvkiG3lGuUQ

  • Luís em 09/02/2016 às 13:41

    Oi, Pablo,

    Um cinéfilo russo se deu o trabalho de editar um video mostrando as semelhanças entre O Regresso e O Espelho, de Andrei Tarvovsky. Não foi só o Terrence Malick ( a influência mais evidente por causa do diretor de fotografia ) que inspirou o filme do mexicano. Esse vídeo pode suscitar uma boa discussão entre o que é influência artistica e o que é cópia, pois há até movimentos de câmera idênticos. Eu mandei esse vídeo para Ana Maria Bahiana pelo Facebook. Ela admitiu ter votado no Regresso no Globo de Ouro. Enviei o vídeo para saber se ela mudaria de opinião sobre o filme, mas ela não me respondeu até agora.

  • PeDro melo em 09/02/2016 às 11:50

    Oi pablo, mais uma vez parabens pelo trabalho.

    Bem, sobre a resporação na camera e o olhar no fim do filme, li nitidamente duas coisas:
    - a respiraçã (folego) toma atenção diante da frase que o mesmo usa para o filho "enquanto estiver buscando folego estará lutando". E a respiracao bate na tela pra acordar dia te desse texto.

    - sobre o olhar (junto com a forte respiracao em evidencia) me lembrou quando o capitao fala que ja nao lembra mais o rosto da esposa. Ja Glass, que perdeu a mulher por muuuuito mais tempo tem a imagem nitida na cabeça. Seria um estímulo para ele "seguir"?

    Enfim, um forte abraço

  • Erika Bruna Agripino em 08/02/2016 às 15:14

    Pablo, queria compartilhar contigo a interpretação que tive da cena da igreja em ruínas... Não achei que fosse uma simples alusão a espiritualidade, pelo contrário. O embate entre brancos e índios e a dizimação destes últimos na América num tem muita ligação com a colonização e a imposição cultural pelas religiões cristãs? A visão que Glass tem do menino índigena voltando correndo atordoado depois de ver aqueles santos me remeteu muito a isso; achei uma crítica muito elegante (concordo com você que outras, como a do índio enforcado e com uma placa, foram exageradas). Ele tinha uma razão de viver que era aquele menino, descendente de uma cultura de harmonia com a natureza, e, no fim da cena, o que ele está abraçando é o tronco de uma árvore (que as falas da mulher tanto mencionam), porque os seres humanos estão simplesmente se destruindo.

    Enfim, não sei se viajei geral, ou se estou falando a mesma coisa que você quis dizer, mas, quando vi a cena no cinema, achei tão natural...

    Uma coisa que me incomodou foram as aparições da índia, exceto nessa vez em que ela fala sobre a resistência das árvores. Nas demais, achei forçado, e a última aparição poderia ser do menino, não dela, justamente por essa conexão que eles tinham um com o outro e a motivação que leva Glass a sobreviver na história.

    Sobre a respiração na câmera, achei legal por causa do raccord que passa pelas nuvens e termina na baforada de fumo de Fitzgerald. Depois que eu aprendi no teu curso o que é esse recurso, sempre acho lindo! rsrs

    Abraços.

  • Daniela Faria em 07/02/2016 às 15:17

    Mauro, eu também amei aquela parede quebrada! Amei. Foi uma das experiências cinematográficas que me atingiu com mais força nos últimos tempos. E, bom, Pablo, você fez a pergunta pro Mauro, mas já que eu gostei muito também, vou dar meus dois centavos pra discussão: eu sinto aquele olhar como um olhar de reconhecimento. Não é um olhar que oferece reconhecimento a mim como audiência; ele não pretende, eu acho, me explicar ou me contar nada. Ele procura oferecer o reconhecimento existencial da dor de quem está do lado de cá da projeção. Dor e sofrimento que (desde sempre) o Iñárrito insiste em colocar na tela e que representam para ele, eu desconfio (e se for o caso, concordo plenamente) uma parte muito saliente da nossa condição existencial. É quase com ler Camus. E eu gosto de ler Camus. E gosto de ver Iñárritu. Mas você está coberto de razão: ele está longe de ser (filosófica e cinematograficamente) Malick—mas, ah vai! daí também é covardia: o Malick, além de ser o cineasta que é, tem treinamento filosófico formal! :p E, de mais a mais, embora o Malick seja meu preferido, minha sensibilidade anda mais alinhada com o Iñárrito: tem metafísica redentora não; você nasce, o urso te ataca, você é impotente diante da perda, e no fim do dia (o fim do dia proverbial), seu olhar *é* o olhar do Glass.

  • Raphael de Sousa Muniz em 07/02/2016 às 01:03

    Não é curioso como a câmera é "suja" com sangue, água, respiração, etc durante todo o filme (parecendo até que estava lá de fato) e no final Glass olhar diretamente para ela? :)

  • Caiuã Araújo em 06/02/2016 às 23:38

    Inarritu costuma manter a câmera próxima, closes que, como disse, chegam a "embaçar" a lente. Sempre perto também na ação, a ponto de "sujar" a lente.
    De certa forma, ao fim do filme, tive a impressão de que Inarritu escolheu usar a câmera desse jeito como uma representação de deus. Sempre presente, próximo dentro e fora da cabeça de Glass, observando... E quando enfim DiCaprio olha para a Câmera, aquilo me pareceu como um tipo de epifania final.

  • Pablo Pantoja em 06/02/2016 às 22:44

    Boa Pablo... você falou de uns pontos que realmente o diretor não precisava colocar! Assistir agora no cinema, e sem dúvida o Leonardo tá merecendo o Oscar "novamente"! XD Mas, vendo o filme como um todo, gostei bastante! É um filme que gostaria de assistir com meu pai do lado, um filme de sobrevivência (se ele tivesse assistido iria comparar com o Dersu Uzala kkkk) - Detalhe: na sala sentou uma moça do meu lado que só fazia reclamar do DiCaprio, aquela cena que ele cai no rio "congelado" ela falou: Ahhh não, ele vai morrer!! >.< Tirando isso, foi 9.0! o/

  • Pablo Villaça em 06/02/2016 às 17:05

    Mateus, obrigado pelo aviso. Corrigido.

    Junior, obrigado. :)))

    Mauro, se você gostou, continue gostando, ué! :) (Por curiosidade, pois acho bacana ter pontos de vista diferentes: como interpretou aquele olhar?)

  • Mauro Garcia em 06/02/2016 às 12:08

    Ótima crítica e eu gostei tanto da quebra da quarta parede hahaha :/

  • Junior em 06/02/2016 às 09:33

    Impressionante a forma como Pablo passa-nos conteúdo em suas críticas (vide primeiro parágrafo)! É realmente um diferencial entre muitas outras (e não digo isso apenas referente a esta crítica). Referente ao filme é realmente muito bom! Após sair da sala do cinema o filme só cresce em sua mente à medida que você o digere e repassa suas diversas cenas impactantes e cruas.

  • Mateus Monteiro Mota em 06/02/2016 às 04:30

    Pablo, tem um erro no primeiro paragrafo, você escreveu "interpretador" ao invés de "interpretado".

 

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