Poster: O Quarto de Jack

 

 

Publicidade


Banner: O Quarto de Jack

Datas de Estréia: Notas:
Brasil Exterior Crítico Assinante Distribuidora
18/02/2016 16/10/2015
Universal

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Dirigido por Lenny Abrahamson. Roteiro de Emma Donoghue. Com: Brie Larson, Jacob Tremblay, Joan Allen, Sean Bridgers, Tom McCamus, Wendy Crewson, Amanda Brugel, Cas Anvar e William H. Macy.

(Observação: o texto abaixo não revela nada que já não tenha aparecido no trailer da produção. Ainda assim, caso prefira assistir a O Quarto de Jack sem qualquer conhecimento prévio acerca da história – que não gira em torno de surpresas ou reviravoltas -, deixe para ler a crítica após a sessão. E, claro, não veja o trailer.)

Jack é um garotinho de cinco anos de idade. Quando o conhecemos, ele está correndo em seu quarto, descrevendo todos os espaços que existem ali, brincando alegremente e se entregando à sua imaginação. Seu mundo parece vasto e até mesmo feliz.

Mas Jack vive num quartinho minúsculo com a mãe e jamais o deixou, já que os dois são prisioneiros de um homem que sequestrou a garota há anos e a mantém ali como uma espécie de escrava sexual. Para Jack, porém, o tal sujeito é uma entidade quase mágica chamada “Old Nick” que os visita durante a noite e traz pequenas encomendas especiais aos domingos. Apesar de tudo, Jack é uma criança alegre cujo cotidiano se torna paradoxalmente menos agradável quando finalmente escapa da prisão na qual desconhecia viver.

Escrito por Emma Donoghue a partir de seu próprio livro, O Quarto de Jack é, como se pode notar, uma história terrível que se torna intrigante por ser contada a partir do ponto de vista de seu personagem mais inocente. Protegido por sua mãe, a jovem Joy (Larson), Jack (Trembaly) não entende o contexto de sua existência: para ele, as plantas são reais já que fazem parte de seu quarto, mas árvores são entidades falsas que existem apenas na televisão. Não à toa, a gramática do menino é adaptada à sua realidade: para ele, não há “um tapete”, mas apenas “Tapete” (sem a necessidade de um artigo definido, e, caso já soubesse escrever, certamente iniciaria “Quarto” com letra maiúscula. Da mesma maneira, sua forma de se expressar é peculiar: “dentro” e “fora” são conceitos abstratos, já que o exterior não é algo real – e, assim, sua tentativa de compreender o que o cerca acaba levando-o a confusões como questionar se algo está “de fora do lado de fora”. Para Jack, o resto do mundo não é amplo, mas, no máximo, um aposento vizinho no qual certamente não há espaço para caber tudo que sua mãe descreve existir fora de seu alcance.

Esta tentativa de compreender a visão de um garotinho que subitamente se vê diante de um universo novo é, diga-se de passagem, um dos principais atrativos dramáticos de O Quarto de Jack, remetendo um pouco ao homem descrito pelo mestre Oliver Sacks em um de seus relatos e que, cego durante toda a vida, não conseguiu compreender o que enxergava ao recuperar a visão (esta história virou um filme bem fraco, por sinal). Assim, para ilustrar o caos sensorial experimentado pelo menino ao sair do quarto, o diretor Lenny Abrahamson (que já havia demonstrado interesse por um outro personagem que vivia em um mundo próprio em Frank) usa sua câmera e a montagem de forma quase subjetiva, investindo em quadros que mostram apenas pedaços dos rostos que cercam Jack, cortando de forma súbita para elementos diferentes do espaço no qual o garoto se encontra e mantendo os planos sempre em movimento. Enquanto isso, o diretor de fotografia Danny Cohen emprega uma luz superexposta que reflete a falta de costume do protagonista com o sol, ao passo que o designer de som Steve Fanagan converte os ruídos ambientes em uma colagem atordoante de informações.

Mas talvez o mais fascinante na lógica narrativa concebida por Abrahamson e sua equipe seja mesmo a forma como levam o espectador a perceber como Jack enxerga Quarto: na primeira metade da projeção, que se concentra naquele minúsculo espaço, o cineasta emprega lentes com maior distância focal (teleobjetivas) que resultam em quadros mais fechados que revelam apenas partes do aposento e que, justapostos através da montagem eficiente, acabam sugerindo uma dimensão bem maior do que a real. Já mais tarde, ao revelar o verdadeiro tamanho daquela “cela”, o diretor adota grandes angulares que conseguem expor simultaneamente paredes opostas, surpreendendo o público com a pequenez do cenário e estabelecendo, consequentemente, como a percepção do próprio Jack agora se ampliou.

Não que esta percepção mude rapidamente – e um dos muitos méritos de O Quarto de Jack reside justamente em acompanhar o processo vivido pelo personagem-título. Assim, mesmo ao deixar Quarto, Abrahamson insiste em empregar planos mais claustrofóbicos e em enfocar Joy e Jack nos cantos dos quadros ou em sua metade inferior (desrespeitando a regra dos terços), o que leva o público a perceber como ainda se sentem aprisionados, pequenos, sufocados e angustiados. Além disso, é revelador como os adultos são vistos recorrentemente do pescoço para baixo, salientando o isolamento do garoto.

Porém, por melhor que seja a direção de Lenny Abrahamson do ponto de vista técnico, sua condução dos atores não é menos fabulosa – especialmente a do pequeno Jacob Tremblay, grande revelação do filme. Servindo como protagonista indiscutível da narrativa, Tremblay faz um trabalho de ator experiente ao oscilar do conforto inicial ao pânico que se segue ao descobrir o mundo exterior, evocando também com eficiência o encantamento do menino diante das pequenas e grandes descobertas e sua insegurança ao acompanhar o processo de readaptação de sua mãe – e as expressões do garoto ao ver o céu ou um cachorro pela primeira vez são de partir o coração. Para completar, é notável como Tremblay mantém a voz sempre baixa ao falar, sugerindo, assim, sua falta de costume com espaços abertos e com pessoas diferentes de sua mãe.

E isto nos traz à performance de Brie Larson: se Jack, por ser muito jovem, se mostra ainda “plástico” (como descreve um médico ao explicar que crianças se adaptam mais rapidamente a novas circunstâncias), Joy obviamente enfrenta dificuldades bem maiores ao encarar a liberdade reconquistada. Depois de habituar-se a sacrifícios constantes para manter o filho imune ao terror da situação na qual se encontravam (submetendo-se a Old Nick para afastá-lo do garoto, por exemplo), a moça encontra um mundo bastante diferente ao sair de sua prisão – e mesmo que algumas das mudanças sejam reais (como o casamento de seus pais), outras têm mais a ver com sua perspectiva alterada pela clausura. E, no entanto, Joy consegue, na maior parte do tempo, manter uma fachada de vitalidade diante de Jack, expondo a riqueza da composição de Larson, que exibe a força da personagem ao proteger o filho ao mesmo tempo em que deixa claro o vazio interior, o medo e a dor da jovem mãe.

Aliás, é curioso que O Quarto de Jack faça referências a O Conde de Monte Cristo, pois se Edmond Dantès sobreviveu à tortura de sua longa clausura graças ao desejo de vingar-se dos homens que o aprisionaram, Joy e Jack têm um objetivo bem mais simples, mas infinitamente mais difícil: levar uma vida normal e, se possível, feliz.  E todos sabemos como, mesmo em circunstâncias ideais, este é um desafio colossal.

06 de Fevereiro de 2016

 

Comente!

  • Alessandra de Souza Alves em 21/03/2016 às 09:37

    Demorei para ver "O Quarto de Jack". Talvez por um sentido de autopreservação. Já que também sou mãe de um menino, que crio sozinha, e embora ele já seja quase adulto e não estejamos confinados, temi sofrer demais com a dor daquela mãe. No entanto, o filme me surpreendeu muito, e positivamente. Uma constatação óbvia é a dicotomia entre a primeira parte do filme - no quarto propriamente dito - e a segunda - no "mundo" ou no "espaço", para usar expressões de Jack e de sua mãe. O roteiro e a direção se encarregaram de construir um lindo paradoxo: enquanto confinados, mãe e filho vivenciam uma dinâmica própria, que inclui brincadeiras, canções de ninar e até exercícios físicos, expondo a zelo da mãe com a saúde e com a sanidade do filho e dela mesma; libertos, ambos se ressentem da nova condição e expõem a dificuldade em se adaptar à vida em sociedade. Essa dicotomia, além de expressa nos enquadramentos e técnicas de filmagem ressaltadas na sua crítica, também fica evidente em outros sinais: enquanto a fase do confinamento quase sempre é preenchida por música e movimento, os momentos de liberdade são muitas vezes pontuados por silêncio e uma certa letargia, subvertendo a expectativa de quem assiste, pois o "normal" seria o contrário. Outra construção magnífica do filme é a semelhança entre mãe e filho. Longilíneos, usando roupas parecidas, os dois se assemelham ainda mais pelos longos cabelos. Jack não é "apenas" filho de Joy, ele é uma espécie de seu duplo, uma forma de ela continuar se enxergando, já que não há um único espelho no quarto. Fora da prisão, quando Jack se vê no espelho pela primeira vez, ao lado da mãe, ele não esboça nenhum tipo de surpresa com a própria aparência, evidenciando que eles se enxergavam um no outro, como se fossem uma coisa só, e essa sensação se reforça no simbolismo do corte do cabelo do menino. Quando resolve enviar as madeixas para a mãe, em uma tentativa de restituir-lhe a força depois de sua medida extrema, Jack inconscientemente corta o cordão umbilical que o atava a Joy. O gesto do garoto é simbólico por representar a verdadeira libertação da mãe, que finalmente começa a vislumbrar uma vida normal para ambos. Eu avaliei também com quatro estrelas por um senão do roteiro: a sequência que vai do momento em que Jack pula do carro até o instante em que reencontra sua mãe, embora magistral no aspecto da tensão, expressa pouca verossimilhança. Velho Nick parece desistir fácil demais daquela situação e as deduções da policial a partir das frases monossilábicas do garoto sugerem quase uma dedução mediúnica de onde a mãe poderia estar. No entanto, a cena do reencontro, sem falas audíveis, mas absolutamente óbvias, preenchidas pela música redentora, compensaram a solução fácil do roteiro. Ah, e um detalhe que eu acho ter sido uma feliz coincidência: em uma das primeiras cenas em seu quarto, na antiga casa, Joy tem uma parede forrada de fotos, como adolescentes costumam fazer. Parece que uma das fotos é de Leonardo DiCaprio, o que coloca os dois vencedores de 2016 no mesmo take. Vi demais?

  • Paulo em 15/02/2016 às 19:23

    Muito boa essa crítica, foi exatamente essa a sensação que eu tive. Fico feliz pelo reconhecimento que você deu ao Lenny Abrahamson pela condução dos personagens, principalmente do jovem Tremblay que está excepcional no filme, Se fosse um documentário, não seria mais real a forma como o diretor tenta demonstrar o impacto da mudança na vida do garoto e da sua mãe. Principalmente, quando notamos que o jovem personagem do Tremblay sente saudades do quarto por não entender as circunstâncias que levaram a sua mãe a estar lá. Isso é sensacional e grande mérito da roteirista e escritora Emma que inclusive estar concorrendo ao Oscar de melhor roteiro. Não menos importante é bom lembrar o quanto a performance da Brie foi perfeita no filme, e olha que no ano passado ela não atuou nada bem no filme "Descompensada" da Amy Shummer. Vai ganhar o Oscar merecidamente. Bom filme, bom roteiro, boa direção e boa crítica sua Pablo... Abs...

    P.S. Esse é o meu primeiro comentário aqui no site, não sei se há como mas seria legal se as estrelas pudessem ser divididas. Eu não dei 4 estrelas por acha pouco e gostaria de dar 4.5 como nota ao invés de 5. Fica a sugestão.

  • Felipe Costenaro de Freitas em 12/02/2016 às 05:07

    Olá, Pablo! Adorei o filme, e adorei sua crítica! Sempre que vejo um filme, em seguida venho ler sua crítica (e confesso que fico chateado quando não tem). Acompanho o Cinema em Cena (especialmente as críticas) há bons anos, embora tenha feito meu cadastro somente agora, pra poder comentar. A verdade é que eu não sou entendido de cinema, então não me sinto seguro pra fazer grandes críticas, mas sempre gosto de guardar meus comentários e notas para os filmes, e para esse eu dei 5 estrelas. O que eu queria perguntar é: por que 4 estrelas, se não foi apontado nada de contrário? Algumas poucas vezes eu leio alguma crítica sua em que só são levantados os melhores aspectos de um filme, mas não são dadas 5 estrelas. Pergunto por curiosidade mesmo, porque posso dizer que me sinto muito melhor apreciador de cinema após ler tanto as suas críticas. Gosto muito de reparar em detalhes que você levanta nos filmes. E fico feliz quando leio uma crítica em que concordo com você, e quando leio alguma crítica em que discordo em alguns pontos, pois acho que a arte é isso. Desculpe o longo comentário, mas como é meu primeiro, só queria dizer essas coisas, ao invés de somente fazer a pergunta. Aproveito para te parabenizar pelo excelente trabalho de sempre! Valeu! Abraços!

 

Redes Sociais Sobre