Críticas por Pablo Villaça

Poster: O Quarto de Jack
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
18/02/2016 16/10/2015
Distribuidora
Universal

 

 


O Quarto de Jack
Room

O Quarto de Jack

Dirigido por Lenny Abrahamson. Roteiro de Emma Donoghue. Com: Brie Larson, Jacob Tremblay, Joan Allen, Sean Bridgers, Tom McCamus, Wendy Crewson, Amanda Brugel, Cas Anvar e William H. Macy.

(Observação: o texto abaixo não revela nada que já não tenha aparecido no trailer da produção. Ainda assim, caso prefira assistir a O Quarto de Jack sem qualquer conhecimento prévio acerca da história – que não gira em torno de surpresas ou reviravoltas -, deixe para ler a crítica após a sessão. E, claro, não veja o trailer.)

Jack é um garotinho de cinco anos de idade. Quando o conhecemos, ele está correndo em seu quarto, descrevendo todos os espaços que existem ali, brincando alegremente e se entregando à sua imaginação. Seu mundo parece vasto e até mesmo feliz.

Mas Jack vive num quartinho minúsculo com a mãe e jamais o deixou, já que os dois são prisioneiros de um homem que sequestrou a garota há anos e a mantém ali como uma espécie de escrava sexual. Para Jack, porém, o tal sujeito é uma entidade quase mágica chamada “Old Nick” que os visita durante a noite e traz pequenas encomendas especiais aos domingos. Apesar de tudo, Jack é uma criança alegre cujo cotidiano se torna paradoxalmente menos agradável quando finalmente escapa da prisão na qual desconhecia viver.

Escrito por Emma Donoghue a partir de seu próprio livro, O Quarto de Jack é, como se pode notar, uma história terrível que se torna intrigante por ser contada a partir do ponto de vista de seu personagem mais inocente. Protegido por sua mãe, a jovem Joy (Larson), Jack (Trembaly) não entende o contexto de sua existência: para ele, as plantas são reais já que fazem parte de seu quarto, mas árvores são entidades falsas que existem apenas na televisão. Não à toa, a gramática do menino é adaptada à sua realidade: para ele, não há “um tapete”, mas apenas “Tapete” (sem a necessidade de um artigo definido, e, caso já soubesse escrever, certamente iniciaria “Quarto” com letra maiúscula. Da mesma maneira, sua forma de se expressar é peculiar: “dentro” e “fora” são conceitos abstratos, já que o exterior não é algo real – e, assim, sua tentativa de compreender o que o cerca acaba levando-o a confusões como questionar se algo está “de fora do lado de fora”. Para Jack, o resto do mundo não é amplo, mas, no máximo, um aposento vizinho no qual certamente não há espaço para caber tudo que sua mãe descreve existir fora de seu alcance.

Esta tentativa de compreender a visão de um garotinho que subitamente se vê diante de um universo novo é, diga-se de passagem, um dos principais atrativos dramáticos de O Quarto de Jack, remetendo um pouco ao homem descrito pelo mestre Oliver Sacks em um de seus relatos e que, cego durante toda a vida, não conseguiu compreender o que enxergava ao recuperar a visão (esta história virou um filme bem fraco, por sinal). Assim, para ilustrar o caos sensorial experimentado pelo menino ao sair do quarto, o diretor Lenny Abrahamson (que já havia demonstrado interesse por um outro personagem que vivia em um mundo próprio em Frank) usa sua câmera e a montagem de forma quase subjetiva, investindo em quadros que mostram apenas pedaços dos rostos que cercam Jack, cortando de forma súbita para elementos diferentes do espaço no qual o garoto se encontra e mantendo os planos sempre em movimento. Enquanto isso, o diretor de fotografia Danny Cohen emprega uma luz superexposta que reflete a falta de costume do protagonista com o sol, ao passo que o designer de som Steve Fanagan converte os ruídos ambientes em uma colagem atordoante de informações.

Mas talvez o mais fascinante na lógica narrativa concebida por Abrahamson e sua equipe seja mesmo a forma como levam o espectador a perceber como Jack enxerga Quarto: na primeira metade da projeção, que se concentra naquele minúsculo espaço, o cineasta emprega lentes com maior distância focal (teleobjetivas) que resultam em quadros mais fechados que revelam apenas partes do aposento e que, justapostos através da montagem eficiente, acabam sugerindo uma dimensão bem maior do que a real. Já mais tarde, ao revelar o verdadeiro tamanho daquela “cela”, o diretor adota grandes angulares que conseguem expor simultaneamente paredes opostas, surpreendendo o público com a pequenez do cenário e estabelecendo, consequentemente, como a percepção do próprio Jack agora se ampliou.

Não que esta percepção mude rapidamente – e um dos muitos méritos de O Quarto de Jack reside justamente em acompanhar o processo vivido pelo personagem-título. Assim, mesmo ao deixar Quarto, Abrahamson insiste em empregar planos mais claustrofóbicos e em enfocar Joy e Jack nos cantos dos quadros ou em sua metade inferior (desrespeitando a regra dos terços), o que leva o público a perceber como ainda se sentem aprisionados, pequenos, sufocados e angustiados. Além disso, é revelador como os adultos são vistos recorrentemente do pescoço para baixo, salientando o isolamento do garoto.

Porém, por melhor que seja a direção de Lenny Abrahamson do ponto de vista técnico, sua condução dos atores não é menos fabulosa – especialmente a do pequeno Jacob Tremblay, grande revelação do filme. Servindo como protagonista indiscutível da narrativa, Tremblay faz um trabalho de ator experiente ao oscilar do conforto inicial ao pânico que se segue ao descobrir o mundo exterior, evocando também com eficiência o encantamento do menino diante das pequenas e grandes descobertas e sua insegurança ao acompanhar o processo de readaptação de sua mãe – e as expressões do garoto ao ver o céu ou um cachorro pela primeira vez são de partir o coração. Para completar, é notável como Tremblay mantém a voz sempre baixa ao falar, sugerindo, assim, sua falta de costume com espaços abertos e com pessoas diferentes de sua mãe.

E isto nos traz à performance de Brie Larson: se Jack, por ser muito jovem, se mostra ainda “plástico” (como descreve um médico ao explicar que crianças se adaptam mais rapidamente a novas circunstâncias), Joy obviamente enfrenta dificuldades bem maiores ao encarar a liberdade reconquistada. Depois de habituar-se a sacrifícios constantes para manter o filho imune ao terror da situação na qual se encontravam (submetendo-se a Old Nick para afastá-lo do garoto, por exemplo), a moça encontra um mundo bastante diferente ao sair de sua prisão – e mesmo que algumas das mudanças sejam reais (como o casamento de seus pais), outras têm mais a ver com sua perspectiva alterada pela clausura. E, no entanto, Joy consegue, na maior parte do tempo, manter uma fachada de vitalidade diante de Jack, expondo a riqueza da composição de Larson, que exibe a força da personagem ao proteger o filho ao mesmo tempo em que deixa claro o vazio interior, o medo e a dor da jovem mãe.

Aliás, é curioso que O Quarto de Jack faça referências a O Conde de Monte Cristo, pois se Edmond Dantès sobreviveu à tortura de sua longa clausura graças ao desejo de vingar-se dos homens que o aprisionaram, Joy e Jack têm um objetivo bem mais simples, mas infinitamente mais difícil: levar uma vida normal e, se possível, feliz.  E todos sabemos como, mesmo em circunstâncias ideais, este é um desafio colossal.

06 de Fevereiro de 2016

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.