Críticas por Pablo Villaça

Poster: Deadpool
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
11/02/2016 12/02/2016
Distribuidora
Fox

 

 


Deadpool
Deadpool

Deadpool

Dirigido por Tim Miller. Roteiro de Rhett Reese e Paul Wernick. Com: Ryan Reynolds, Ed Skrein, Morena Baccarin, T.J. Miller, Brianna Hildebrand, Gina Carano, Jed Rees, Karan Soni, Isaac C. Singleton Jr., Stefan Kapicic e Leslie Uggams.

Não é todo dia que um filme de super-herói traz seu protagonista fazendo sexo anal. Ainda mais raro é que este represente a metade passiva do casal. E que a metade ativa seja sua namorada, uma prostituta usando uma cinta com pênis, é algo que... bom, eu certamente me lembraria caso já tivesse visto em algum lugar. Mas assim é Deadpool, que encara cenas como esta sem qualquer falso moralismo e – o mais importante – com um senso de humor afiado. Assim, à medida que a projeção avançava, mais forte se torna a impressão de que o longa está disposto a ir na contramão de tudo o que seus companheiros de gênero costumam fazer.  

Escrito por Rhett Reese e Paul Wernick com a mesma irreverência que estes haviam exibido em Zumbilândia (outro longa que brincava com as convenções de seu gênero), Deadpool inicia com o personagem-título (Reynolds) em um táxi que o leva em direção ao confronto com o vilão Ajax (Skrein). Antes de chegar ao seu destino, porém, ele exibe a cortesia de nos contar o que houve nos dois anos anteriores: atuando como mercenário, Wade Wilson frequenta o bar do amigo Weasel (Miller), que também serve de ponto de encontro com clientes em potencial, e acaba conhecendo ali a bela Vanessa (Baccarin), com a qual se envolve sexualmente e, depois de algum tempo, romanticamente. Quando finalmente tudo parece caminhar bem para o sujeito, no entanto, ele descobre estar em fase terminal de câncer e, como última e desesperada medida, aceita se submeter a um tratamento misterioso que dispara a ação de genes mutantes, transformando-o num ser com capacidades regenerativas que fariam inveja a Wolverine.

Aliás, é difícil imaginar que o personagem visto aqui seja o mesmo que apareceu em X-Men Origens: Wolverine e que me levou a escrever uma única sentença sobre sua contribuição para a produção: “o que dizer sobre a participação de Ryan Reynolds, um sujeito carismático que aqui encontra-se totalmente apagado?”. Não à toa, esta nova produção não demora a fazer uma referência pouco lisonjeira àquela versão através de um raccord (um corte que estabelece continuidade/ligação entre dois planos) que cria uma gag visual inspirada. De forma similar, os esforços de Reynolds como Lanterna Verde ganham suas próprias alfinetadas nos excepcionais créditos de abertura, que, acompanhados de forma inesperada pelo hino romântico cafona “Angel of the Morning”, logo deixa claro que o filme não levará a sério nem mesmo seus próprios realizadores.

Dirigido com competência surpreendente pelo estreante Tim Miller (cuja experiência com animações certamente o preparou para reconhecer a importância do humor físico em um personagem como este), Deadpool consegue se equilibrar muitíssimo bem entre a comédia e natureza gráfica da violência que retrata, saltando com agilidade de crânios perfurados por balas e vísceras que se espalham pela rodovia a gags que podem envolver desde um relógio da série Hora de Aventura a um freeze frame no meio de uma sequência de ação para que o protagonista tente se lembrar se esqueceu o forno ligado.

Ator que há muito se notabilizou pelo excelente timing cômico, Reynolds encontra aqui a oportunidade ideal para exibi-lo, disparando os ótimos diálogos com velocidade e adotando uma postura física que constantemente ressalta a irreverência de seu anti-herói e sua resistência a qualquer forma de autoridade – e, neste sentido, a animação empregada para tornar suas expressões faciais mais claras é perfeita, permitindo que suas sobrancelhas e seus olhos permaneçam como recursos da composição do personagem ainda que cobertos por tecido (reparem, por exemplo, como seus “olhos” se arregalam, mudam de formato para indicar sua concentração e assim por diante).

O mais interessante em Deadpool, no entanto, é que este obviamente conhece o universo Marvel e sabe estar em seu próprio filme, o que lhe permite não só apontar as convenções das demais produções como também criticá-las (ainda que amigavelmente) – e as piadas envolvendo o professor Xavier e sua escola para mutantes, por exemplo, brincam até mesmo com os atores envolvidos na franquia. Além disso, as constantes quebras da quarta parede desempenham duas importantes funções simultâneas: facilitam a exposição para o espectador e ilustram o desequilíbrio mental do protagonista (e não é difícil imaginar os personagens que o cercam encarando-o confusos sempre que este olha para a câmera – que ele chega a desviar com as mãos em certo momento, atingindo o ápice da metalinguagem). Para completar, como não aplaudir uma obra que consegue incluir em sua narrativa uma referência orgânica e divertida ao confronto com o Cavaleiro Negro visto em Monty Python em Busca do Cálice Sagrado?

Trazendo dimensão adicional ao herói de forma inteligente ao retratá-lo também em momentos de vulnerabilidade emocional (o olhar de Wilson para a namorada enquanto esta conversa com o médico é particularmente tocante), Deadpool só tropeça ocasionalmente ao parecer forçar piadas onde estas não se encaixam – e a cena na qual Weasel comenta a aparência desfigurada do amigo é um exemplo disso, soando artificial e representando o único instante no qual T.J. Miller falha em provocar o riso. Além disso, é curioso que um filme que se orgulha tanto em criticar clichês acabe por utilizar tantos destes em seu confronto final, que se entrega, inclusive, ao da “mocinha em perigo capturada pelos vilões”.

Nada, porém, que comprometa de fato um dos longas de super-herói mais divertidos e dinâmicos que a Marvel já produziu. Perto de Deadpool, Tony Stark é um tio chato que insiste em repetir aborrecidamente a piada do “é pavê ou pacomê”.

Observação: há uma cena após os créditos finais que levará os fãs do Cinema da década de 80 à loucura.

07 de Fevereiro de 2016

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.