Críticas por Pablo Villaça

Poster: A Bruxa
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
12/03/2016 19/02/2016
Distribuidora
Universal

 

 

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A Bruxa
The VVitch: A New-England Folktale ou The Witch

A Bruxa

Dirigido e roteirizado por Robert Eggers. Com: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson, Wahab Chaudhry.

A Bruxa é um filme de terror menos preocupado com sustos do que com a ideia de explorar a escuridão dos indivíduos que habitam seu mundo. Durante a maior parte da projeção, o “terror” que define o gênero surge não em forma de espíritos malignos, zumbis devoradores de cérebro ou mesmo de bruxas literais, mas de dentro de seus personagens, manifestando-se na forma de estupidez, superstições e fundamentalismo religioso.

Trazendo vários diálogos que, de acordo com o roteirista e diretor Robert Eggers, foram transcritos de relatos reais registrados na Nova Inglaterra do século 17, o filme acompanha uma família que, logo no início da projeção, é expulsa do pequeno vilarejo que habita por razões que não ficam totalmente claras, mas que parecem uma resposta à interpretação extremada que o patriarca William (Ineson) faz da Bíblia e da própria fé cristã. Ao lado da esposa Katherine (Dickie), da filha adolescente Thomasin (Taylor-Joy), do pré-adolescente Caleb (Scrimshaw) e dos três filhos pequenos, o sujeito passa a ocupar uma cabana localizada à beira de uma floresta. Porém, o isolamento e o fracasso das colheitas começam a desgastar a família através da fome e de uma tragédia que acaba por comprometer de vez o equilíbrio psicológico de todos. Aos poucos, a jovem Thomasin passa a ser hostilizada pelos próprios parentes ao se tornar suspeita de bruxaria.

O que poderia ser um ponto de partida óbvio para um terror tradicional, porém, aos poucos cede lugar a uma narrativa mais preocupada com a sutileza do que com o medo ostensivo. Boa parte deste efeito de tensão constante é construída pela trilha eficiente de Mark Korven, que emprega vocais e sons dissonantes que, criados essencialmente por instrumentos de corda, mantêm o espectador em uma tensão constante que sugere uma ameaça cuja natureza não sabemos identificar, mas que certamente parece ter origem na floresta que cerca os personagens e que, fotografada por Jarin Blaschke como um paredão gigantesco e escuro, cria um tom claustrofóbico mesmo quando as cenas se passam no exterior da cabana. Além disso, o alto contraste presente nas cenas noturnas, que envolve todos em um manto escuro aparentemente impenetrável, não só mantém o tom sufocante como aponta sutilmente para a existência de um mal invisível que pode invadir o ambiente a qualquer momento.

Mas o incômodo despertado por A Bruxa é fruto também da maneira realista, ancorada num design de produção detalhista, com que as dificuldades da família para simplesmente sobreviver no início do século 17 são retratadas: um cotidiano de trabalhos braçais desgastantes, de higiene zero e de pouquíssimos recursos em caso de doença – e, não à toa, os realizadores levam o espectador a enxergar tudo através de uma paleta cinza, dessaturada e triste. Além disso, o design de som é inteligente ao usar ruídos e sussurros como fonte recorrente de incertezas e inseguranças – dos murmúrios vindos da floresta à simples (mas palpável) fragilidade de crianças que entreouvem conversas entre seus pais e pressentem a gravidade do que é dito mesmo sem serem capazes ainda de compreender o que a discussão envolve.

E, com isso, o filme transforma o desmoronamento gradual daquela família no centro de seu horror. William, Thomasin e os demais sabem que os laços afetivos estão se desfazendo e que feridas psicológicas profundas estão sendo abertas, mas carecem de sofisticação intelectual, cultural e emocional para compreender exatamente como impedir que isto aconteça.

Como fator complicador, claro, há o despertar sexual de Thomasin e suas transformações físicas – um recurso simbólico tão clássico no terror quanto, digamos, um vampiro ou... uma bruxa. Constantemente, em obras do gênero, a maturação feminina é vista como iniciadora de eventos sobrenaturais, de Carrie a Possuída, passando por A Marca da Pantera, Garota Infernal e A Experiência – e, em A Bruxa, Thomasin acaba sendo responsabilizada e demonizada simplesmente por se desenvolver, já que boa parte da agressividade com que passa a ser tratada é resultado direto do desconforto que provoca nos homens da família e, indiretamente, em sua mãe.

Neste aspecto, a discussão temática que o cineasta Robert Eggers propõe – o fundamentalismo religioso - é ainda mais apropriada, já que a sexualidade feminina é sempre um ponto de discórdia na maior parte das religiões organizadas, sendo encarada como fonte de “impureza”, “tentação” e “pecado”. O grande crime de Thomasin, portanto, é ser mulher, o que a torna alvo de recriminação e ataques resultantes da incapacidade dos demais em aceitar sua feminilidade – e quando a vemos encurralada e ameaçada em um canto da sala, estamos testemunhando a representação visual de séculos e séculos de opressão, agressão e sexismo.

A construção desta discussão através de alegorias visuais e verbais é tão cuidadosa e admirável que, assim, testemunhar os desastroso dez ou quinze minutos finais da projeção resulta numa decepção que quase compromete a percepção geral do projeto – e, sem revelar nada específico, aponto apenas para a tentativa mal sucedida de Eggers de tentar fazer duas coisas simultaneamente: levar o longa a funcionar como símbolo sem ceder à tentação de representar literalmente o horror que apenas sugeriu na maior parte do tempo. Não que isso seja impossível - como provam O Bebê de Rosemary e O Iluminado -, mas falta a Eggers a habilidade de um Polanski ou de um Kubrick para se equilibrar entre o horror real e metafórico, que, aqui, acabam sabotando um ao outro.

Até isto ocorrer, porém, A Bruxa é um belíssimo terror que compreende que não são precisos monstros fantásticos para destruir seus personagens; para isto, basta apenas a combinação perigosa da crendice, da culpa despertada por dogmas religiosos e da ignorância.

12 de Março de 2016

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.