Poster: A Bruxa

 

 

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Banner: A Bruxa

Datas de Estréia: Notas:
Brasil Exterior Crítico Assinante Distribuidora
12/03/2016 19/02/2016
Universal

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Dirigido e roteirizado por Robert Eggers. Com: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson, Wahab Chaudhry.

A Bruxa é um filme de terror menos preocupado com sustos do que com a ideia de explorar a escuridão dos indivíduos que habitam seu mundo. Durante a maior parte da projeção, o “terror” que define o gênero surge não em forma de espíritos malignos, zumbis devoradores de cérebro ou mesmo de bruxas literais, mas de dentro de seus personagens, manifestando-se na forma de estupidez, superstições e fundamentalismo religioso.

Trazendo vários diálogos que, de acordo com o roteirista e diretor Robert Eggers, foram transcritos de relatos reais registrados na Nova Inglaterra do século 17, o filme acompanha uma família que, logo no início da projeção, é expulsa do pequeno vilarejo que habita por razões que não ficam totalmente claras, mas que parecem uma resposta à interpretação extremada que o patriarca William (Ineson) faz da Bíblia e da própria fé cristã. Ao lado da esposa Katherine (Dickie), da filha adolescente Thomasin (Taylor-Joy), do pré-adolescente Caleb (Scrimshaw) e dos três filhos pequenos, o sujeito passa a ocupar uma cabana localizada à beira de uma floresta. Porém, o isolamento e o fracasso das colheitas começam a desgastar a família através da fome e de uma tragédia que acaba por comprometer de vez o equilíbrio psicológico de todos. Aos poucos, a jovem Thomasin passa a ser hostilizada pelos próprios parentes ao se tornar suspeita de bruxaria.

O que poderia ser um ponto de partida óbvio para um terror tradicional, porém, aos poucos cede lugar a uma narrativa mais preocupada com a sutileza do que com o medo ostensivo. Boa parte deste efeito de tensão constante é construída pela trilha eficiente de Mark Korven, que emprega vocais e sons dissonantes que, criados essencialmente por instrumentos de corda, mantêm o espectador em uma tensão constante que sugere uma ameaça cuja natureza não sabemos identificar, mas que certamente parece ter origem na floresta que cerca os personagens e que, fotografada por Jarin Blaschke como um paredão gigantesco e escuro, cria um tom claustrofóbico mesmo quando as cenas se passam no exterior da cabana. Além disso, o alto contraste presente nas cenas noturnas, que envolve todos em um manto escuro aparentemente impenetrável, não só mantém o tom sufocante como aponta sutilmente para a existência de um mal invisível que pode invadir o ambiente a qualquer momento.

Mas o incômodo despertado por A Bruxa é fruto também da maneira realista, ancorada num design de produção detalhista, com que as dificuldades da família para simplesmente sobreviver no início do século 17 são retratadas: um cotidiano de trabalhos braçais desgastantes, de higiene zero e de pouquíssimos recursos em caso de doença – e, não à toa, os realizadores levam o espectador a enxergar tudo através de uma paleta cinza, dessaturada e triste. Além disso, o design de som é inteligente ao usar ruídos e sussurros como fonte recorrente de incertezas e inseguranças – dos murmúrios vindos da floresta à simples (mas palpável) fragilidade de crianças que entreouvem conversas entre seus pais e pressentem a gravidade do que é dito mesmo sem serem capazes ainda de compreender o que a discussão envolve.

E, com isso, o filme transforma o desmoronamento gradual daquela família no centro de seu horror. William, Thomasin e os demais sabem que os laços afetivos estão se desfazendo e que feridas psicológicas profundas estão sendo abertas, mas carecem de sofisticação intelectual, cultural e emocional para compreender exatamente como impedir que isto aconteça.

Como fator complicador, claro, há o despertar sexual de Thomasin e suas transformações físicas – um recurso simbólico tão clássico no terror quanto, digamos, um vampiro ou... uma bruxa. Constantemente, em obras do gênero, a maturação feminina é vista como iniciadora de eventos sobrenaturais, de Carrie a Possuída, passando por A Marca da Pantera, Garota Infernal e A Experiência – e, em A Bruxa, Thomasin acaba sendo responsabilizada e demonizada simplesmente por se desenvolver, já que boa parte da agressividade com que passa a ser tratada é resultado direto do desconforto que provoca nos homens da família e, indiretamente, em sua mãe.

Neste aspecto, a discussão temática que o cineasta Robert Eggers propõe – o fundamentalismo religioso - é ainda mais apropriada, já que a sexualidade feminina é sempre um ponto de discórdia na maior parte das religiões organizadas, sendo encarada como fonte de “impureza”, “tentação” e “pecado”. O grande crime de Thomasin, portanto, é ser mulher, o que a torna alvo de recriminação e ataques resultantes da incapacidade dos demais em aceitar sua feminilidade – e quando a vemos encurralada e ameaçada em um canto da sala, estamos testemunhando a representação visual de séculos e séculos de opressão, agressão e sexismo.

A construção desta discussão através de alegorias visuais e verbais é tão cuidadosa e admirável que, assim, testemunhar os desastroso dez ou quinze minutos finais da projeção resulta numa decepção que quase compromete a percepção geral do projeto – e, sem revelar nada específico, aponto apenas para a tentativa mal sucedida de Eggers de tentar fazer duas coisas simultaneamente: levar o longa a funcionar como símbolo sem ceder à tentação de representar literalmente o horror que apenas sugeriu na maior parte do tempo. Não que isso seja impossível - como provam O Bebê de Rosemary e O Iluminado -, mas falta a Eggers a habilidade de um Polanski ou de um Kubrick para se equilibrar entre o horror real e metafórico, que, aqui, acabam sabotando um ao outro.

Até isto ocorrer, porém, A Bruxa é um belíssimo terror que compreende que não são precisos monstros fantásticos para destruir seus personagens; para isto, basta apenas a combinação perigosa da crendice, da culpa despertada por dogmas religiosos e da ignorância.

12 de Março de 2016

 

Comente!

  • Wellington Ferreira da Costa Jr em 02/05/2016 às 09:38

    Ahhh achei nada haver a coisa do coelho rsrs achei sem nexo

  • Wellington Ferreira da Costa Jr em 02/05/2016 às 09:34

    Vi o filme ontem e achei ótimo, o fanatismo religioso etc a culpa inerente ao ser humano etc achei mto bem retratado, mas..(SPOILER !! ) aquelas questões das bruxas, o bode etc, e aquele final achei que saiu um pouco da trama, concentrada na familia, e não desenvolve nada sobre as bruxas de verdade, mas fora isso achei o filme sinistro e aquelas tomadas noturnas e dá impressão mesmo de terror, mto sombrio, mas sem uma gota de sangue,

  • Gustavo Basso (Popices) em 20/04/2016 às 01:19

    Não gostei muito do final mas não cheguei a me decepcionar dado que era meio previsível dada a sequência do bebê na floresta. Do mais um filme bem acima da média.

  • Iuri Palma em 06/04/2016 às 11:27

    Minha leitura é que foi paranoia pura do início ao fim. O fato de o filme mostrar imagens "surreais" não quer dizer necessariamente que elas sejam "reais" (sic). Achei o filme ótimo, mas o povo que estava comigo esperava um filme de "terror" (e odiaram), o que definitivamente A Bruxa não é. Desnecessária a informação de que o roteiro foi baseado em casos reais. Isto não acrescentou nada.

  • Guilherme em 21/03/2016 às 18:09

    Pablo, achei a crítica muito boa. Mas acho que a sua leitura dos momentos finais do filme não contemplou bem a proposta do filme. Você olhou para o filme como uma obra fechada em si. Mas como foi mostrado nos créditos, o filme é quase que um apanhado, um recorta e cola, de relatos da época.
    Para quem estudou a concepção de bruxaria na Idade Média e Moderna percebe que o filme foi completamente fiel em todos os elementos, incluindo o final. Se o final não funcionou, não é por culpa do diretor que inventou algo que destoa do resto do filme, mas dos próprios relatos. O modo como a cena foi concebida respeita rigorosamente o imaginário da época sobre rituais satânicos. Uma diversidade de relatos que descrevem os rituais exatamente daquele jeito.
    Este filme é excepcional pela acuidade histórica em todos os seus aspectos e detalhes. É uma leitura rigorosa da história.

  • Roger Velame em 15/03/2016 às 23:11

    Eu acho que a Bruxa é mais drama do que Terror, boa parte foi culpa da distribuidora. Isso atraiu o publico comum acostumado com filme de terror. Um dos acerto do filme, foi um grande elenco, fotografia impecavel, direção segura e trilha sonora e os defeitos do filme nas cenas finais foi decepcionante. Nota 8.0

  • João Victor em 15/03/2016 às 11:31

    NÃÃÃÃÃÃO ! O final foi PERFEITO,o mal venceu,a garota corrompeu,e o demonio,assim como sao ditas as historias,fez o "pacto" a levando para o Sabbath das bruxas ! Filme nota 10/0......E repetindo,assim como nas historias antigas,o demonio fazia com que as bruxas flutuassem nos sabbaths ...(como no filme). Filme perfeito,obra prima na minha opinião

  • Patrícia Paiva em 14/03/2016 às 20:53

    Mais uma crítica com análise porreta. Bom, primeiramente devo dizer que foi uma sessão de cinema difícil de me concentrar, pois pessoas foram buscar no filme um formato quadradinho de terror e fizeram muito barulho no cinema, mas sou forte, consegui adentrar a atmosfera sombria da história. Fiquei bem tensa com a família de puritanismo exagerado buscando na crença um culpado entre eles para a série de acontecimentos macabros, recaindo principalmente sobre a imagem "fêmea ameaçadora" da jovem Thomasin. Porém, é uma família em situação de tanta penúria que faz qualquer um de nós pensar que o castigo é apenas viver, tornando tudo mais realístico. A ambientação é sufocante, a escuridão da casa, a floresta ameaçadora, barulhos e principalmente, o fato do mal habitar não só a floresta, mas a mente de cada um deles com suas constantes acusações e suspeitas. E o Black Phillip "brincando" com as crianças, depois dali não vi os guris com tanta doçura rs Ao meu ver, bastou essa discrição das cenas que pouco revelaram a bruxa e no mais, fica tudo perturbadoramente sugestivo. Concordo que o final causa um estranhamento a tudo que foi visto antes, mas não prejudicou tanto. É um dos melhores filmes do gênero.

  • Tiago em 14/03/2016 às 20:41

    Concordo plenamente com você, Pablo! Eu estava adorando tudo que estava assistindo, completamente encantado com a fotografia, o roteiro cuidadoso, simples e que não usou o artificio apelativo dos filmes do genêro, até que veio o final... E complementando com o comentário do Rene Lopes Ribeiro: também foi um incomodo muito grande na sessão que assisti aturar as risadas e às vezes os comentários indevidos a todo momento que haviam cenas importantes, como por exemplo quando Caleb encara o decote de Thomasin no inicio. Além disso os comentários de que "queriam levar susto ou sentir medo" e sairam de lá completamente decepcionados.

  • Gus em 14/03/2016 às 15:39

    Outro deslize no final foi incluirem a informação de que o filme se baseou em "relatos da época". Pareceu algo do tipo "se você não achou o filme assustador, saiba que ele foi baseado em eventos reais". E isso deixou o final ainda mais patético.

  • Gus em 14/03/2016 às 15:36

    O final seria absurdamente melhor se tudo fosse uma paranóia devido ao fanatismo da família, resultando na psicopatia de um dos membros da mesma (a própria Thomasin, provavelmente).

  • Larissa Bohnenberger em 13/03/2016 às 23:46

    Rene, infelizmente isso que tu relatou aconteceu na minha sessão também e, pelo que eu tenho lido a respeito, tem acontecido em quase todas as sessões em que o filme é exibido... Dá pra entender que o público comum, habituado a casas mal assombradas e jump scare, não tenha gostado de A Bruxa. Realmente não é o tipo de filme de terror que agrada a qualquer um, e a má recepção dele até é compreensível. Mas a falta de educação que tem sido observada é absurda e imperdoável. Na minha sessão também riam nos momentos mais impróprios, eu lá imersa, tensa, roendo as unhas e uma gargalhada me arrancava abruptamente do filme e me trazia à realidade... Uma pena que as pessoas não saibam se comportar no cinema.

  • Rene Lopes Ribeiro em 13/03/2016 às 21:17

    Olha foi difícil assistir esse filme no cinema muitas pessoas não entenderam a proposta do filme e ficavam rindo nos momentos errados o que me tirou a concentração e com relação ao final concordo contigo Pablo talvez se o filme fosse classificado como drama terminando de forma mais dúbia não teria tantas reclamações.

  • Camila e Newton em 13/03/2016 às 17:02

    Professor, tenho que discordar da tua interpretação do final.
    spoilerssssssssss
    Claro que se fosse um filme contando uma história simples, o final teria "estragado" um pouco o filme. Mas considerando que o diretor estava "repassando" relatos da época, acho que a intenção era justamente essa : o final foi como um relato da época, em que certamente as pessoas viam bruxas e deviam relatar daquela maneira mesmo, inclusive com a Thomasin vendendo a alma ao diabo e, como uma prostituta, se juntou as outras bruxas no fim.
    Até imagino algum maluco da época relatando em algum tribunal : "- e o bode era o diabo, e ela era uma bruxa, e ela vendeu a alma ao diabo que EU VI! E ainda tentou me seduzir pelada! QUEIMEM ESSA BRUXA"
    Quando vi a primeira vez tive a mesma impressão que você, mas depois, refletindo sobre a obra e considerando que pudesse ser um relato da época, achei que o final cresce.

  • leandro lofeu da silva em 13/03/2016 às 13:58

    Só discordo de você com relação aos últimos momentos do filme. Eu amei a manifestação do mal sobrenatural e real naquele momento, mostrando que ele estava ali, manipulando tudo e a todos desde o inicio, para levar aos seus objetivos. Achei fundamental isso ficar claro e para mim foi a cereja do bolo! Afinal de contas, é um filme de terror não é?? Apesar de todas as críticas sociais implícitas, simbolismo e o contexto histórico (que achei fantástico) ainda é um filme de terror e não apenas um drama de época ou documentário. E amantes do gênero como eu, sempre vão adorar monstros, fantasmas e demônios rs. A novidade que A Bruxa traz é que isso não precisa ser feito de maneira preguiçosa, explicita e apelativa.

  • Renata Aquino em 13/03/2016 às 13:45

    Pablo, discordo da sua interpretação do final do filme.

    Como você comentou no início, de fato, o Eggers utilizou-se muito de documentos da época pra construir sua narrativa. Por isto, acho que o filme é, propositalmente, menos auto-reflexivo do que o que você defende. E isto não é ruim. O que eu entendi foi que ele tentou nos apresentar, com poucas mediações e adaptações para o nosso tempo atual (a principal delas é mostrar o lado da Thomasin na história), uma espécie de cautionary tale da época que servia para manter as pessoas no cabresto. Tanto para que não deixassem a colônia, para que não fossem orgulhosas como William foi, como para que "cuidassem bem" (leia-se: oprimissem) suas mulheres.

    Durante todo o filme pensei que esta história era contada para amedrontar pessoas lá em 1630 - não que as pessoas que produzissem essa história também não acreditassem nela. Em mim ficou a impressão da força que narrativas têm para refletir e algumas vezes produzir a realidade.

    Enfim, levando em conta o imaginário da época, que pra mim é a essência do filme, eu acharia estranhíssimo um final diferente do que foi.

  • Larissa Bohnenberger em 13/03/2016 às 12:36

    Ahhhhhhh, quatro estrelas e uma crítica positiva, que lindo <3
    Pela forma como tu havia falado do filme no vídeo da mostra eu achei que tu tinha gostado bem menos.

    Concordo plenamente com tua colocação sobre o final. Houve um momento perfeito pra terminar uns minutos antes que, se tivesse realmente acabado ali, deixaria margem pra várias dúvidas e interpretações, o que seria plenamente coerente com todo o desenvolvimento sugestivo do filme. Essa foi realmente a única coisa que me incomodou e me fez dar 4 estrelas e meia pra ele. Aqui dei 5 porque não tem a opção de meia estrela, e porque, apesar do tropeço final, o restante do filme é tão maravilhoso que não tive coragem de dar só 4.

 

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