Críticas por Pablo Villaça

Poster: Sieranevada
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
15/12/2016 Unknown
Distribuidora

 

 


Sieranevada
Sieranevada

Sieranevada

Dirigido e roteirizado por Cristi Puiu. Com: Mimi Branescu, Mirela Apostu, Judith State, Ilona Brezoianu, Ana Ciontea, Bogdan Dumitrache, Simona Ghita, Marin Grigore, Tatiana Iekel, Rolando Matsangos, Sorin Medeleni, Catalina Moga.

Talvez a principal característica da filmografia do cineasta romeno Cristi Puiu seja a sensibilidade ao observar o comportamento de pessoas comuns. Em seu fabuloso A Morte do Sr. Lazaresco, de 2005, ele criava uma narrativa que extraía tensão de uma situação prosaica – ainda que trágica -, e que funcionava ainda como um estudo da personalidade da paramédica que guiava o longa, ao passo que no também admirável (embora mais irregular) Aurora, seguíamos um personagem que parecia caminhar rumo a um desastre que não compreendíamos direito e cujo destino nos intrigava por termos presenciado, por exemplo, sua curiosidade diante do mofo que observara no teto do banheiro ao entrar no chuveiro.

Um resultado similar é obtido neste seu novo trabalho, Sieranevada: quando a ação tem início, vemos apenas um homem estacionando o carro em fila dupla e entrando em um prédio com a esposa e a filha – até que, momentos depois, atraído pelas buzinas dos veículos presos atrás do seu, ele volta para trás do volante e dá uma volta no quarteirão a fim de pegar novamente a companheira. É algo que vemos aos montes ao nosso redor e que, por isso mesmo, desempenha uma função vital ao ancorar aquelas pessoas numa realidade com a qual nos identificamos e que se torna ainda mais palpável por ser encenada num longo plano sem cortes. A partir daí, acompanhamos o casal em uma visita à casa da mãe do protagonista e descobrimos que uma espécie de cerimônia religiosa está sendo preparada em homenagem ao seu falecido pai – e durante as três horas seguintes de projeção testemunharemos o vaivém de vários familiares enquanto o dia se arrasta em direção a um jantar que jamais parece chegar.

Sieranevada não é, portanto, uma narrativa guiada por uma trama complexa ou pelas ações dos personagens, mas sim por quem estes são e pela forma como se sentem diante do mundo e dos parentes. Assim, à medida que estes debatem trivialidades, relembram casos, discutem por bobagens ou questões sérias, trocam piadas particulares e experimentam pequenas catarses motivadas por gestos que poderíamos julgar insignificantes, o filme constrói uma dinâmica que fascina pela tridimensionalidade dos indivíduos que retrata e pela intimidade que criamos com estes.

Contribui para este efeito, claro, a estrutura narrativa já clássica do Novo Cinema Romeno, que discuti ao escrever sobre filmes como 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, por exemplo, e que se notabiliza pelas longas cenas, normalmente filmadas em planos sem cortes, e que só incluem movimentos de câmera que tenham como função primordial acompanhar os personagens, raramente se mostrando independente destes. Aliás, aqui Cristi Puiu e o diretor de fotografia chegam a permitir que sua câmera se “surpreenda” (uma “surpresa” calculadíssima, estou certo) com o entra-e-sai dos integrantes da família: em certo instante, por exemplo, ela inicia uma panorâmica para a esquerda e subitamente, “notando” que alguém saíra de um aposento, interrompe seu deslocamento e retorna para a direita a fim de enfocá-la, sugerindo ser uma observadora independente que nada sabre sobre o que está registrando.

Já em outros momentos, ela permanece parada no centro do pequeno apartamento enquanto todos cruzam seu caminho, entrando e saindo dos cômodos numa coreografia que, obviamente elaboradíssima, parece ser apenas espontânea. Neste sentido, é interessante como muitas vezes o filme extrai humor apenas através desta mise-en-scène – e quando a campainha em certo ponto, por exemplo, rimos justamente por sabermos como a chegada daquele visitante havia criado expectativa em todos. Da mesma maneira, ao vermos a discussão mantida no carro por Lary (Branescu) e sua esposa Laura (Moga) sobre uma fantasia que o primeiro comprou para a filha caçula do casal, percebemos como aquele desentendimento é recorrente simplesmente em função do tom de suas vozes – e, graças aos cortes secos que se seguem, notamos como mudam de assunto e substituem a raiva pelo debate trivial acerca da próxima viagem de férias, reproduzindo a dinâmica típica de duas pessoas que já estão juntas há muito tempo e se conhecem intimamente.

Um dos exercícios mais interessantes de Sieranevada, diga-se de passagem, reside em como vamos deduzindo aos poucos como cada um dos vários personagens se relaciona aos demais: quem é filho/irmão/primo/parceiro de quem, como se sentem a respeito uns dos outros e as histórias que compartilham – e, neste aspecto, o elenco se mostra fabuloso, já que sugere uma familiaridade mútua que se manifesta não só através das conversas, mas da forma como se tocam, se olham e reagem ao que ouvem. Assim, quando Lary não consegue evitar o riso ao ouvir uma discussão entre os tios, podemos não compreender exatamente o motivo da gargalhada, mas certamente rimos ao seu lado por percebermos a graça que ele vê na situação.

E aí se encontra o encanto e a fascinação despertados pelo longa: em sua delicadeza ao reconhecer que aqueles seres podem brigar, se magoar ou descobrir coisas indesejáveis sobre os demais, mas, em última análise, jamais deixam de constatar o mais importante: perfeitos ou imperfeitos, são a única família que possuem e, no final, é isto que acaba contando.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2016.

11 de Maio de 2016

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.