Críticas por Pablo Villaça

Poster: Jogo do Dinheiro
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
12/05/2016 13/05/2016
Distribuidora
Sony

 

 


Jogo do Dinheiro
Money Monster

Jogo do Dinheiro

Dirigido por Jodie Foster. Roteiro de Jamie Linden, Alan DiFiore e Jim Kouf. Com: George Clooney, Julia Roberts, Jack O’Connell, Dominic West, Caitriona Balfe, Giancarlo Esposito, Christopher Denham, Lenny Venito, Chris Bauer, Dennis Boutsikaris, Emily Meade.

O Cinema não é realizado num vácuo; tudo o que impacta o mundo e a sociedade acaba sendo refletido nas histórias que os cineastas decidem levar para as telas, já que a Arte sempre funcionou como um veículo poderoso de reflexão sobre a realidade. Assim, se nos anos seguintes ao 11 de Setembro de 2001 vieram vários longas discutindo o terrorismo, a islamofobia e a política externa dos Estados Unidos, o período posterior à crise de 2008 vem rendendo diversos documentários e projetos ficcionais inspirados não só por ela, mas também por suas causas e efeitos.

E é justamente a especulação financeira e a natureza destrutiva da ganância em um mercado desregulado que serve de centro a Jogo do Dinheiro, dirigido por Jodie Foster a partir do roteiro de Jamie Linden, Alan DiFiore e Jim Kouf e que acompanha o apresentador de televisão Lee Gates (Clooney), responsável por um destes programas de dicas financeiras recheados de efeitos sonoros, gráficos explosivos e a sugestão de que dominam segredos sobre a bolsa que poderão enriquecer qualquer espectador atento – mas que, quando cometem um erro (algo extremamente comum), mal dizem um “ops” antes de seguirem em frente. Porém, quando um jovem que investiu e perdeu todo seu dinheiro numa sugestão de Gates invade o estúdio e ameaça matá-lo diante das câmeras caso não consiga uma explicação de Walt Camby (West), CEO da empresa cujas ações comprou, as consequências reais das gracinhas do jornalista se tornam palpáveis, obrigando a diretora do programa, Patty Fenn (Roberts), a investigar como a tal Ibis pode ter perdido 800 milhões de dólares em apenas uma tarde.

De um ponto de vista puramente temático, aliás, o ponto fraco de Jogo do Dinheiro encontra-se justamente na ideia de concentrar sua trama em uma aparente conspiração que, mesmo funcionando como gatilho de um bom thriller, enfraquece a tese do filme acerca da corrupção sistemática do mercado financeiro. Sim, em certo momento, o longa até tenta apontar que casos como o que retrata são recorrentes e até mesmo incentivados por uma comunidade de executivos obcecados por bônus obtidos de qualquer forma, mas mesmo assim não consegue evitar que sua mensagem se torne difusa graças aos absurdos da trama (especialmente a partir do terceiro ato).

Já o arco dramático percorrido por Gates, que abre a narrativa como um sujeito arrogante e preocupado apenas com dinheiro e influência e aos poucos descobre outros valores, só não soa óbvio e esquemático graças à performance carismática de George Clooney, que evoca com bastante eficiência a urgência da situação de seu personagem e sua crescente identificação com seu raptor à medida que reavalia seu próprio papel no esquema geral das coisas. Da mesma maneira, Julia Roberts confere inteligência e competência a Patty, contrapondo-a aos modos aparentemente tolos de Gates e permitindo que o espectador perceba como sua personagem é capaz de lidar com várias situações complicadas simultaneamente. E se o jovem Jack O’Connell encarna bem a frustração e o espírito impulsivo e imaturo do sequestrador Kyle, o veterano Giancarlo Esposito pouco pode fazer como o Capitão Powell, já que é praticamente obrigado a passar a projeção gritando ordens através do rádio. (Já Dominic West transforma o executivo Walt Camby em uma simples caricatura, o que é uma pena.)

Ágil, tenso e envolvente, Jogo do Dinheiro certamente abre novas possibilidades para Jodie Foster como diretora, já que se diferencia consideravelmente dos projetos mais leves e que se preocupavam mais com os dramas pessoais de seus personagens do que em evocar um senso de urgência ou em desenvolver uma trama mais complexa – e Foster não apenas faz isso muito bem como aproveita para apresentar discussões que lhe são obviamente caras, como a transformação do jornalismo em puro espetáculo e a falta do compromisso de seus praticantes com a verdade e com a apuração dos fatos (algo que ficou claro no pós-2008: vários colunistas econômicos e apresentadores de programas sobre o tema simplesmente reproduziam sem qualquer crítica o que CEOs e analistas diziam, prejudicando, com isso, qualquer um que cometesse o risco de levar a sério suas conclusões).

Além disso, a cineasta se mostra apropriadamente inclemente com a irresponsabilidade dos executivos e daqueles que supostamente deveriam fiscalizar suas ações, apontando também a leniência com que estes indivíduos são tratados quando – e se – expostos em suas ações imorais, sem ética e mesmo desumanas, já que são condenados no máximo a pagar multas irrisórias enquanto suas vítimas, distantes da elite econômica, pagam com suas vidas (pensem na Samarco, para citar um caso recente).

Surpreendentemente bem-humorado, Jogo do Dinheiro também usa com sabedoria as piadas que salpicam o roteiro para ressaltar a crueldade do mundo que está discutindo e no qual as pessoas comuns pouco importam.

Afinal, o que realmente interessa são o valor do dólar e os índices da Ibovespa.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2016.

12 de Maio de 2016

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.