Críticas por Pablo Villaça

Poster: Elle
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
16/11/2016 25/05/2016
Distribuidora

 

 

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Elle
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Elle

Dirigido por Paul Verhoeven. Roteiro de David Birke. Com: Isabelle Huppert, Laurent Lafitte, Anne Consigny, Charles Berling, Judith Magre, Christian Berkel, Jonas Bloquet, Virginie Efira, Vimala Pons, Raphaël Lenglet.

Elle, novo longa de Paul Verhoeven, é um filme curioso: seguindo as convenções de um thriller, gira em torno de Michèle (Huppert), uma mulher sob ameaça que olha para todos que a cercam com a desconfiança de que podem estar prestes a atacá-la. E, no entanto, por mais que ela seja uma vítima inquestionável de violência, ao longo da projeção temos a sensação de que representa um perigo maior para seus adversários do que o contrário.

Baseado em um livro de Philippe Djian e roteirizado por David Birke, o longa já tem início com os gritos da protagonista ao ser atacada e estuprada em sua casa – um crime repugnante que Verhoeven retrata sem qualquer fetichismo (infelizmente recorrente em narrativas do tipo). No entanto, depois que o agressor parte, Michelle assume uma postura surpreendente: em vez de chamar a polícia ou mesmo algum amigo, ela apenas arruma a bagunça causada pelo bandido, cata os cacos de vidro espalhados pelo chão, toma um banho e vai trabalhar. Assim, de imediato já percebemos que há muitos elementos que desconhecemos sobre a personagem, o que posiciona a narrativa não só como um mistério acerca da identidade do estuprador, mas como uma investigação acerca da personalidade de sua vítima.

Sócia de uma produtora bem-sucedida de games, Michelle adota atitudes que a transformam quase num daqueles vilões de telenovela que acabam sendo assassinados, parecendo fazer questão de fazer inimigos: humilha o filho em público (ele realmente é um imbecil), ofende a nora, tem um caso com o marido da melhor amiga, provoca a mãe e o noivo (gigolô) desta e seduz o vizinho casado. Ao mesmo tempo, ela é vivida por Isabelle Huppert com tanto charme e bom humor que, de certa maneira, as gravidades de seus atos são relativizadas pelo espectador, que vê até com simpatia alguns deles.

A performance de Huppert, aliás, é uma lição de sutileza: reconhecendo que as ações de sua personagem falam por si mesmas, a atriz jamais busca ressaltá-las, agindo como se fossem simplesmente inevitáveis. Ao mesmo tempo, às vezes basta um olhar de lado ou um sorriso quase imperceptível para que percebamos o calculismo por trás de determinadas decisões que pareciam inofensivas, como convidar a namorada do ex-marido para um jantar ou tocar o braço do vizinho.

Enquanto isso, Verhoeven exibe um domínio notável sobre o tom da narrativa, deixando o espectador desconfortável mesmo que este não saiba exatamente o motivo. Em alguns pontos, a sugestão é visual (como o sangue que lentamente mancha a espuma na banheira); em outras, sonoras (como a força da ventania que empurra as janelas da casa de Michelle) – e o cineasta chega mesmo a se divertir com certas convenções (como ao trazer um gato saltando sobre a anti-heroína). Além disso, é curioso constatar como, num jantar aparentemente amigável, a protagonista usa um vestido de um vermelho intenso, que entrega o subtexto de seus objetivos nada amistosos, fazendo par com um único convidado que também veste a cor por razões próprias.

Fazendo eco à personagem de Sharon Stone em Instinto Selvagem (que Verhoeven dirigiu há quase 25 anos), Michelle é uma mulher de desejos fortes e que não tenta podar seus impulsos. Aliás, gradualmente notamos como há até mesmo um componente de masoquismo em sua reação ao estupro, que parece excitá-la de alguma maneira.

(E aqui é preciso observar que todos os responsáveis por Elle são homens e que, portanto, há uma questão problemática envolvendo – aí, sim – certos fetiches masculinos acerca do estupro e que o longa obviamente tenta contornar ao apontar de forma aparentemente crítica a forma com que a violência contra a mulher é explorada pela Arte – no caso, os games produzidos por Michelle. É possível interpretar esta tentativa como um ato de cinismo, como um mea culpa antecipado ou mesmo como uma crítica genuína, dependendo da visão particular de cada espectador – e numa época em que a cultura do estupro vem sendo cada vez mais discutida, a obra acaba se posicionando como uma possível e instigante iniciadora de debates acerca do tema.)

Ambíguo até o último segundo, Elle é um filme de gênero com ambições de estudo psicológico. E se falha neste último, é muito bem sucedido no primeiro.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2016.

22 de Maio de 2016

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.