Críticas por Pablo Villaça

Poster: Independence Day: O Ressurgimento
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
23/06/2016 24/06/2016
Distribuidora
Fox

 

 


Independence Day: O Ressurgimento
Independence Day: Resurgence

Independence Day: O Ressurgimento

Dirigido por Roland Emmerich. Roteiro de Nicolas Wright, James A. Woods, Dean Devlin, Roland Emmerich e James Vanderbilt. Com: Jeff Goldblum, Liam Hemsworth, Maika Monroe, Jessie T. Usher, Sela Ward, William Fichtner, Brent Spiner, Vivica A. Fox, Angelababy, Deobia Oparei, Nicolas Wright, Travis Tope, Chin Han, Joey King, James A. Woods, Charlotte Gainsbourg, Bill Pullman, Judd Hirsch e Robert Loggia.

Lançado em 1996, Independence Day era uma obra divertida que, beneficiada pelos recentes avanços nos efeitos digitais, conseguia elevar o conceito dos filmes-desastre da década de 70 à enésima potência: por que chacoalhar Los Angeles com um terremoto, enfocar um arranha-céu em chamas, ameaçar os Estados Unidos com abelhas ou se concentrar num avião com problemas se agora era possível destruir o mundo inteiro? Aliás, o trabalho do cineasta alemão Roland Emmerich era tão bem executado que nem mesmo o ufanismo ridículo do presidente vivido por Bill Pullman comprometia o espetáculo (por sinal, até hoje não me acostumei à ideia de Pullman como presidente), ao passo que a química entre Will Smith e Jeff Goldblum se revelava tão afinada que a vontade era a de prender seus personagens em uma sitcom com cinco temporadas já garantidas.

Esta dinâmica, infelizmente, encontra-se ausente em Independence Day: O Ressurgimento (de agora em diante, ID2), já que o piloto vivido por Smith foi descartado pela história, que se passa 20 anos depois dos eventos do original – ou seja: nos dias de hoje -, mas em uma realidade alternativa na qual os terráqueos exploraram abundantemente a tecnologia deixada pelos alienígenas invasores. Agora comandados por uma presidenta (Ward), os Estados Unidos se preparam para celebrar o aniversário da “Guerra de 96” e seus heróis – o que é interrompido pelo retorno dos malvados extraterrestes, que pelo visto também resolveram comemorar a data.

Trazendo a maior parte dos sobreviventes do filme anterior, o roteiro logo esclarece que o (ex-)presidente Whitmore (Pullman) segue afetado pela ligação mental com os vilões, que o Dr. Brakish Okun (Spiner) permaneceu em coma por exatos 20 anos e que David Levinson (Goldblum) se tornou consultor do governo na área da tecnologia extraplanetária, ao passo que seu pai (Hirsch) tenta ganhar algum dinheiro vendendo o livro que escreveu sobre o ataque anterior (e até o general interpretado por Robert Loggia surge rapidamente em cena – e espero muito que este não tenha sido seu último trabalho antes de morrer no final do ano passado). A estes, juntam-se Dylan Hiller (Usher), filho adotivo do herói interpretado por Will Smith, seu ex-amigo e também piloto Jake Morrison (Hemsworth), o guerrilheiro africano Umbutu (Oparei) e Patricia Whitmore (Monroe), filha do ex-presidente – além, claro, da cientista vivida por Charlotte Gainsbourg, que atravessa a projeção sem protagonizar uma cena relevante sequer, tornando inexplicável sua participação no projeto.

Nem é preciso dizer, lendo o parágrafo anterior, que há muito personagem para pouco filme, o que se torna ainda pior quando, já na segunda metade do longa, uma família de órfãos entra em cena e passa a acompanhar o pai de David de forma gratuita, já que também não desempenham função alguma na trama, sendo ainda assim menos aborrecidos que o insuportável burocrata que, por algum motivo qualquer, segue David para todo lado mesmo quando este embarca para a Lua (pois é) ou decide se dirigir a uma área sob ataque – e talvez seja interessante apontar que este personagem completamente descartável e sem a menor graça é interpretado por Nicolas Wright, um dos cinco roteiristas da produção.

Sim, cinco roteiristas que, juntos, não valem meio: sem demonstrar a mínima ambição ao conceber os personagens e suas interações, o quinteto cria indivíduos que aparecem fazendo piadinhas minutos depois da morte de pessoas amadas; agride os ouvidos do espectador com falas ridículas (“É como se a mente deles estivesse conectada ao subconsciente alienígena”) e também abusa de diálogos expositivos (“Considerando que seu pai morreu num teste de voo...” é um bom exemplo, embora meu favorito seja “Você quase o matou, lembra?”). Assim, quando os astronautas surgem bebendo um tal “Leite Lunar”, a tolice já atingiu tal dimensão que mal registramos aquela bobagem casual.

Já a trama em si é uma bagunça, envolvendo um “planeta-refúgio”, uma esfera gigante aparentemente criada por uma Apple extraterreste e uma tentativa desesperada de salvar o “núcleo fundido” da Terra. Além disso, por algum motivo a narrativa subitamente se vê inspirada a mergulhar alguns personagens em uma versão Platoon da nave-mãe, enquanto boa parte da destruição causada pelos vilões é resultado basicamente de uma estacionada nada cuidadosa. E se isto já não fosse o bastante para comprovar a estupidez de ID2, Emmerich e seus roteiristas eliminam qualquer dúvida restante ao trazerem um personagem despertando de um coma de 7.300 dias sem exibir qualquer fragilidade muscular e pegando seus óculos que, pelo jeito, permaneceram 20 anos na mesinha ao lado de sua cama de hospital.

Mas idiotices como estas poderiam até ser ignoradas caso o longa funcionasse dentro da própria proposta (e o original tinha sua parcela de tolices), mas não funciona: as batalhas aéreas são rodadas por Emmerich de maneira desinteressante e confusa, as “piadas” não têm a menor graça e as sequências de destruição não chegam nem perto daquelas vistas em 1996 – nem em impacto, nem em escala. Para piorar, os realizadores não se dão conta de como é ridícula a imagem de uma alienígena-“rainha” gigantesca carregando uma arma igualmente imensa enquanto corre de forma impulsiva atrás de um(a) personagem sabe-se-lá-por-qual-motivo (vingança? mesquinharia? Estupidez?) – e se vocês ainda não têm ideia de como se trata de um conceito inadvertidamente hilário, imaginem Godzilla pisoteando Tóquio enquanto segura uma espingarda gigante.

Há, também, o sexismo velado (e aqui vai um spoiler minúsculo): a primeira presidente do sexo feminino só dispara ordens que resultam em fracasso, sendo uma sorte, portanto, que logo tenhamos não um, mas dois presidentes machos se esforçando para consertar a situação e obtendo retornos bem mais positivos.

Beneficiado ao menos pela performance sempre interessante de Jeff Goldblum (e a gag visual que faz uma referência a Jurassic Park é divertida), ID2 jamais faz jus ao seu antecessor: se aquele trouxe nova vida aos filmes-desastre, este é apenas um desastre de filme.

23 de Junho de 2016

Assista também ao vídeo (SEM spoilers) sobre o filme:

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.